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Ninguém Deve Viver Refém Do Seu Corpo

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No final do ano passado assisti a algo muito interessante. As aulas já tinham terminado e uma professora foi à casa de banho dos homens pois a das senhoras estava ocupada. Ao sair, um dos funcionários mostrou a sua surpresa e disse à professora, “professora, não se enganou?”. A professora, em tom de brincadeira respondeu, “Como é que o senhor sabe se me enganei?”

Esta situação valeu umas belas gargalhadas entre todos, mas não deixou de levantar uma questão pertinente e que agora está em cima da mesa.

Demorámos anos para respeitarmos as diferenças raciais, demorámos anos para respeitarmos as diferentes orientações sexuais. Foi um processo turbulento, típico de uma mudança profunda nos ideais de uma sociedade imatura e retrógrada, muito assente em pilares religiosos que parecem ser lei mas lei não são.

Felizmente que já não é preciso viver dentro do “armário”, a liberdade que eu tenho em expressar-me como homem e ser aceite como tal, deve ser igual à liberdade de um(a) homem/mulher que pretende expressar-se no género que sente, mas que o espelho não mostra.

Evidentemente que é um tema muito complexo, mas o foco da minha argumentação é a liberdade. Uma liberdade que não afeta a liberdade alheia, uma liberdade que liberta crianças, jovens e adultos de uma prisão e sofrimento que só quem passa por ele é que consegue justificar.

O hipotético problema nas escolas para mim não será um problema e lamento que esta questão tenha tomado o caminho da politiquice rasteira. Se um jovem mudar de sexo não faz sentido frequentar o WC ou balneário de um género sexual que já não é o seu. Confesso que faz-me mais confusão saber que um rapaz homossexual e claramente assumido, está presente no balneário dos rapazes, onde todos estão despidos, podendo causar óbvias situações incómodas. Um rapaz ou rapariga ao mudar de sexo, será apenas o consumar de algo que todos já sabem, é uma mudança biológica e não uma mudança social. Por isso, mais do que a questão ideológica, para mim é uma questão de bom senso. Felizmente que na escola o bom senso impera mais que em certas instituições com maior responsabilidade…

Não se trata de sujeitar a maioria à minoria, porque a maioria não será afetada se os casos em concreto estiverem devidamente justificados, quer clinicamente, quer na forma de estar do seu/nosso quotidiano.

Esta é uma questão que não deve ser restrita ao WC, vestuário, ou balneário, é muito mais do que isso, é uma questão de respeito pela identidade individual, algo que é essencial para se viver de forma equilibrada e produtiva. Sem a nossa identidade, a nossa verdadeira identidade, não passamos de uma mentira que engana tudo e todos.

É isso que queremos, vivermos todos numa mentira?

Sejamos honestos, sejamos livres, sejamos tolerantes! Cabe à sociedade dar as mesmas condições para aqueles que aparentam ser “diferentes”.

A Lei n.º 38/2018, de 7 de agosto, veio estabelecer o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa. Consagra o n.º 2 do seu artigo 3.º que «quando, para a prática de um determinado ato ou procedimento, se torne necessário indicar dados de um documento de identificação que não corresponda à identidade de género de uma pessoa, esta ou os seus representantes legais podem solicitar que essa indicação passe a ser realizada mediante a inscrição das iniciais do nome próprio que consta no documento de identificação, precedido do nome próprio adotado face à identidade de género manifestada, seguido do apelido completo e do número do documento de identificação».

Alexandre Henriques

Lei da Identidade de Género | Concorda que os alunos escolham o WC e balneário que pretendem frequentar?
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22 Agosto, 2019 - 24 Agosto, 2019
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8 COMENTÁRIOS

  1. O que se pretende é exatamente o contrário do que estão a pensar.
    Pretendesse que existam balneários ou casas de banho onde essas crianças não tenham que se despir em frente a outras e que possam estar sós e fechar porta para se sentirem seguras.
    É exatamente o contrário do que estão a falar.

    • Relativamente a casas de banho, há cabines, logo essas crianças têm privacidade. O problema é mais incisivo no caso dos balneários.

  2. Como se sentirão as meninas ao ver um “rapaz”no seu balneário? E os rapazes, sentir-se-ão à vontade com uma “menina” entre eles?
    Será que já ninguém pensa na maioria? É que a liberdade e o bem estar da maioria pode estar comprometidíssimo com tudo isto, o que não é, de todo, justo.
    Sim, compreendo a outra parte, o que pensam e sentem. Mas ninguém vai lucrar com essa atititude, afinal. Porque nem a minoria nem a maioria se vão sentir bem.Garantidamente!
    Basta Imaginar-me a despir-me no balneário do ginásio e ver lá dentro um homem…gostaria? Não! Teria que aceitar essa imposição? Espero que não!

  3. Tolerância é um assunto totalmente diferente,e sim concordo que temos que aceitar as diferenças. Mas,se há corpos femininos e corpos masculinos ,casas de banho femininas e casas de banho masculinas, se por acaso já tiver mudança de sexo ,o caso não se põe,pois cada um vai aquela que lhe corresponde. Se não se quer “obrigar um gay homem” a ir a uma masculina porquê “obrigar uma hetero feminina “ a aceitar o corpo masculino na sua casa de banho?
    Querem fazer wc para os diferentes? Sujeita-lós ainda mais a exclusão?
    Sr. pediatra ,já fui a casa de banhos de homens e não o sou ,já fui a dos deficientes e não o sou, já fui as matas e não sou um animal,mas EU SEI O QUE SOU , mas há muitas dúvidas em outros e esta questão está a ser tratada muito levianamente.
    Corpos femininos e corpos masculinos temos desde que nos formamos no útero das nossas mães,quando nascemos mostramos aos outros como somos,mas a nossa preferência sexual é diferente,aparece mais tarde, não vamos formatar mentes em evolução.

    • A preferência sexual não está relacionada? Se nasci homem mas na minha cabeça sou mulher vou naturalmente gostar de homens estando preso num corpo de homem, serei portanto homossexual até realizar a operação de mudança de sexo. Os primeiros sintomas são naturalmente a atração pelo sexo oposto.

  4. Penso que essas situações deverão ser resolvidas da seguinte forma:
    Há casas de banho únicas, mas todas com privacidade e não como agora que são masculino e feminino e nem umas nem outras têm privacidade. Todas as pessoas normalmente gostam de privacidade e nem é necessário grande investimento. Para as que se façam de raiz o gasto é igual.

  5. Mas como se consegue privacidade ao ponto de 30 garotos dentro de um balneário ou mais ( se estiverem várias turmas em simultâneo) não mostrarem os seus corpos uns aos outros? Teremos de fazer, então, 30 quartos de banho? ? Ou 30 mini balneários individuais, melhor dizendo. O custo é o mesmo?
    Só tolarias! Deixemos os garotos crescer sem estar a pressionar/ formatar as mentes . Este é o tipo de coisas que só vai criar neles mais inseguranças, dúvidas, em nada contribuindo para um crescimento saudável.
    Francamente, o facto de os pais e professores não serem ouvidos na matéria é do pior que há! Não se consulta ninguém, é um desprezo total pelo povo…

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