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O nicho do ensino fundamental II – um desafio urgente

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brasilReportagem especial do Jornal Folha de S. Paulo chama atenção para uma etapa do ensino obrigatório do Brasil, que tem sido praticamente ignorada pelo debate sobre a qualidade da educação: o ensino fundamental II. Com muita razão, a matéria recebeu o título de Etapa Invisível.

De acordo com a LDB (Lei de diretrizes e bases da educação – lei 9394/96) a educação obrigatória no Brasil vai da educação infantil, que começa aos 4 anos e segue até o ensino médio, numa trajetória continua, que deve ser concluído até um mês antes da chegada do ano em que o aluno completa 18 anos. Dito de outra maneira, todas as pessoas nessa faixa etária deveriam estar matriculadas e frequentando alguma escola. Sabemos que não estão, muito menos na idade-série ou idade-ciclo adequadas.

O problema que o jornal resolveu expor é real, mas podemos ir além, isto é, citando algo que a matéria não abordou. Sim, é uma fase em que a escola faz uma transição brutal para os alunos, que é passar de um único professor, em geral uma mulher, para um grupo de professores “estranhos”, cada um cobrindo uma disciplina diferente. Além disso, a etapa escolar que vai dos 11 aos 14 anos coincide com o início da adolescência, fase na qual os alunos perdem o vínculo afetivo com o adulto regente da classe para concentrar-se na obsessão da idade, que é formar seus próprios grupos sociais entre seus pares etários. E na sociedade brasileira atual, essa é uma tarefa difícil, pois muitos deles não podem contar com o auxílio luxuoso (para os dias atuais) de um mentor, como um pai ou mãe zelosos. 

Essa lógica de múltiplos professores, ausência de pais ou responsáveis e adolescência é a mesma no mundo todo. Por que só aqui temos uma educação tão ruim que faz com que:

  1. a) os alunos praticamente não aprendam nada depois que saem do Fundamental I (antigo primário),
  1. b) deixa os indicadores de desempenho estagnados há anos e
  1. c) incentive a “desistência em massa” dos alunos das escolas?

Analisando os currículos das escolas brasileiras, inclusive das particulares de elite, excelentes pedagogas pesquisadoras (Paula Louzano e Ilona Beczkehazy) descobriram que, de maneira sistemática, quase não se ensina NADA aos alunos no Fundamental I. A lógica é “poupar” os alunos do “horror” que é aprender a ler, a escrever, analisar textos, a falar em público e a fazer contas, como fazem, há anos, seus colegas de países desenvolvidos.

Enquanto os alunos de países desenvolvidos aprendem a ler e escrever pequenos textos curtos, compostos por frases simples, por volta dos 6 anos, a proposta brasileira é segurá-los até os 8 anos. A noção de metade, 1/4 e 1/8, gráficos de barras e similares, que são aprendidos pelos alunos ainda na educação infantil, só aparecem na vida dos brasileiros no 3º ano do Fundamental I. Quando se chega no Fundamental II, parte-se direto para a notação desses conceitos e aí as crianças “boiam” mesmo! Há um vácuo educacional na educação infantil e no Fundamental I. Para os docentes e seus formadores no Brasil, a educação só começa mesmo no Fundamental II.

Um problema que também é bem brasileiro é a fragmentação das etapas escolares, que agrava todos os demais equívocos sistemáticos do setor por aqui. É o seguinte: a educação escolar no Brasil ainda não é tratada como um processo contínuo e necessariamente cumulativo, que tenha uma progressão clara de aprendizado. Foram constituídos feudos virtuais, que, como na Idade Média, são comandados por castelos de torres altas cercadas por muralhas protetoras. A educação infantil é o patinho feio – conta com docentes com a formação menos “sofisticada” (as professoras são formadas em Pedagogia). Na ponta oposta está o ensino médio, que (com sorte) recebe professores com formação mais complexa, quase a casta abençoada dos professores universitários, sonho de consumo de todo docente, principalmente se for em uma instituição pública, com todas as “vantagens” que a função proporciona e com a carga ideológica característica da formação providenciada pelas universidades públicas e privadas, que exercem influência sobre o que é ensinado.

Cada etapa tem uma lógica própria, estrelas próprias e um desprezo profissional velado com as etapas anteriores, que faz com que seus membros raramente, apenas como exceção, unam forças para planejar o ensino ou mesmo a transição pedagógica entre elas. Do Fundamental II para a frente, quando os professores são obrigatoriamente especialistas por disciplina, nem dentro da mesma série se comunicam, apenas por estarem em campos diferentes do conhecimento e por serem, em geral, horistas e sem um vínculo forte com as comunidades escolares nas quais ensinam.

A explicação que gostaria de propor para o problema da má qualidade da educação básica brasileira é que ela começa a aparecer com mais gravidade quando o aluno conclui o ensino médio sem saber nada, ou no vergonhoso desempenho do Pisa aos 15 anos, e até no abandono escolar em massa, mas ele é gerado já na educação infantil. Agora descobriram o Fundamental II como um novo feudo, oportunidade de negócios ou nicho de atuação institucional, inclusive com propostas esdrúxulas como o ensino integral na rua, fora da escola. A questão é que o ensino é contínuo, cumulativo e deve privilegiar o desenvolvimento de inteligência, entendida com resolução de problemas que nossos jovens se deparam ao viverem suas vidas fora da escola. Queremos destacar ainda que as crianças de países ditos desenvolvidos já são beneficiadas com educação de alta qualidade que leva em conta as descobertas da Neurociências e o Brasil continua a “ver a caravana passar”. Tratar alunos da educação infantil como intelectualmente incapazes dá ótimo resultado: eles viram mesmo, continuar achando que crianças de menos de 10 anos são “café-com-leite”, idem. Mas não é esse resultado o que o país deseja, ao menos da boca para fora, portanto, temos que mudar nossas premissas. Vamos ensiná-los desde cedo que eles são inteligentes e capazes e eles responderão!

Joseval Estigaribia

 

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