Home Rubricas Nem tudo são números!

Nem tudo são números!

96
2

É na procura de materiais, de maneiras apelativas, ou “apenas” da forma mais adequada e eficaz de transmitir conhecimentos, recorrendo, muitas vezes, às novas tecnologias, que dominam o dia-a-dia da juventude, que muitos professores investem o seu tempo. Na esperança de despertar o interesse, a curiosidade dos alunos, motivando-os a colaborar e a ter um papel ativo em sala de aula, mantendo a aula fluída, evitando assim problemas disciplinares e/ou de outra ordem. O tempo e as energias despendidos pelo professor nem sempre se convertem nos tão ambicionados entusiasmo e empenho dos alunos, gerando, em muitos, sentimentos de frustração “Tanto tempo que demorei a fazer isto e eles não ligaram nenhuma!” e de dúvida “Que mais poderei fazer?”.ite_brochure_cover_2013

Não há receitas: todos os que estão/estiveram à frente de uma turma o sabem: o que é eficaz numa turma, em outra não tem qualquer efeito, o que resulta com um professor pode ser um desastre quando aplicado por outro, devido à especificidade de cada disciplina, às características de cada aluno, de cada professor entre muito outros fatores. Todas as profissões têm as suas características/particularidades, mas o que distingue, realça e transforma a profissão docente em algo incomparavelmente complexo e muito diferente de tantas outras profissões é a sua forte componente humana.

O ritmo aceleradíssimo e o pulular de aulas, programas e metas para cumprir, gestão de conflitos, testes e a sua correção, reuniões e afins, provocam um desgaste emocional latente, por vezes, proeminente, caindo no esquecimento a individualidade e unicidade de cada um dos que se sentam em frente a um quadro, dia após dia.

Conhecer os alunos com quem se lida diariamente, não é fácil nem rápido: requer tempo, paciência, boa memória, sentido de oportunidade, disponibilidade, vontade… É uma realidade comum, e essencial, no pré-escolar e 1º ciclo, facilitada pelo contacto próximo estabelecido, permanentemente, com apenas um pequeno conjunto de aluno. Nos restantes ciclos de ensino, a sua implementação apresenta uma enorme dificuldade acrescida: o elevado número de alunos por professor. No entanto, assume um papel muito importante, por vezes fundamental, na prevenção/resolução de problemas de ordem disciplinar.

Investir no “conhecimento” dos alunos decorre, num primeiro momento, de forma indireta, através dos dados da ficha de identificação e/ou fornecidos pelo Diretor de Turma, a seguir através da observação atenta de pequenos pormenores/ações ou reações, que vão revelando, ou partilhando, ao longo das aulas. Tantos alunos, tantos pormenores, para não perder o fio à meada e/ou porque a memória já não é o que era, para sistematizar, e manter a informação atualizada, a utilização de uma tabela pode ajudar. Exemplo:

Nome Interesses Família Atividades Saúde Aptidões Outros

Conhecer os alunos permite compreender algumas das suas reações, não justificá-las, mas contextualizá-las, segundo os seus padrões, podendo ajudar a evitar alguns problemas disciplinares e de interação entre pares; para alguns alunos, pode constituir um estímulo à aprendizagem, modificando a forma desmotivada e pouco abonatória como encaram o ensino, a escola, as aulas e o papel do professor.

Investir na construção de um relacionamento com os alunos é fundamental pois estes, tal como os professores, gostam que o conteúdo da sua mensagem seja retido, valorizado, fazendo-os sentir respeitados, “importantes”, envolvidos e parte integrante do processo, tornando assim o trabalho do professor mais gratificante. É ainda um elemento facilitador no relacionamento com os pais, transforma um professor num melhor profissional, realça e dá importância ao tantas vezes,relegado para 2º ou 3º plano, por uns e por outros, ou por este motivo ou por outro, fator humano, essencial ao ato de ensinar/educar. O estabelecer um relacionamento com os alunos pode fazer toda a diferença. Se é fácil? Obviamente que não! Se resulta com todos os alunos? Não, certamente. Mas vale a pena tentar!

Quantos já ouviram, ou fizeram enquanto alunos, um comentário carregado de indignação e profunda tristeza: “Nunca faltei às aulas do professor x mas nem o meu nome sabe ao fim deste tempo todo, nunca se dirigiu a mim. É como se eu fosse invisível para ele!”?

Quantos, numa reunião de Conselho de Turma, quando o Diretor de Turma decide partilhar algumas informações pertinentes e relevantes sobre o contexto familiar, escolar ou pessoal, de um aluno ouviram o comentário “Estou aqui é para dar notas, não é para ouvir isto, parece um enredo de um filme!”?

Quantos, fazendo um exercício de retrospetiva, no final de uma semana de trabalho, tiveram pelo menos uma interação com cada um dos seus alunos?

Quais dos vossos professores retém na memória e recordam com estima e carinho?Quais eram as suas características?

No início deste novo ano civil, marcado por mais uma catadupa de alterações na área da educação, vale a pena refletir se o que tantas vezes o ministério é acusado de fazer, tratar tudo como números, e menosprezar, o fator humano, por vezes, não tem origem na sala de aula de cada um.

Pi

Fonte: imagem

2 COMMENTS

  1. Olá Pi.
    Este teu artigo toca numa área fundamental do ensino, o fator humano. Talvez por alguma desmotivação profissional, falta de tempo ou simplesmente falta de sensibilidade, alguns colegas optam por manter uma postura distante mas de forma propositada. Não estou a dizer que devemos “apaparicar” os meninos, mas mostrar preocupação, ou interesse por alguma coisa que o afeta ou que causou uma oscilação no seu rendimento, mostram ao aluno que o professor está lá, está presente e sabe que ele existe. Estamos a falar de crianças e jovens que estão em processo de crescimento, em que as suas relações sociais têm um peso significativo nas suas vidas.
    Optar por uma estratégia de proximidade não é um ato de fraqueza, é um ato de afeto, um bom afeto. O afeto gera empatia, a empatia gera admiração, reconhecimento e consequentemente respeito. Esta é a peça chave para reduzir os índices de indisciplina nas escolas, a relação professor-aluno, disse e repito, não é um ato de fraqueza ou de nos colocarmos em “igualdade” com o aluno, é um ato de consideração com outro ser um humano e já agora um ato de inteligência.

    • Olá Alexandre!

      A empatia numa sala de aula é fundamental e só se consegue “dando” um pouco de nós para que outro se sinta estimulado, e à vontade, para o fazer também. Um ambiente agradável, de partilha e respeito em sala de aula, evita, regra geral, os famosos problemas disciplinares, e nada tem a ver com apaparicar ou desculpar os meninos. Tem muito a ver com a personalidade, disponibilidade e à vontade de cada professor, o saber aceitar que não podemos agradar a todos mas que devemos tentar. Envolve um esforço acrescido e isso é o que leva muitos a optar conscientemente por não o fazer! Utilizar a inteligência emocional e o bom senso numa sala de aula devia ser obrigatório tal como perceber que há momentos em que devemos parar e simplesmente escutá-los para mais tarde retomar tranquilamente, aquilo a o que um aluno meu chama de “pausas que passam despercebidas mas fazem parte das nossas aulas e sabem muito bem!”

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here