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Não

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não quer comer“Não, não E não”, sublinha, categórica. “Não quero”, repete entre dentes, os lábios apertados, as sobrancelhas franzidas, a franja irregular em desalinho, espetada como a rama de um ananás.

“Olha, são tão pouquinhas, as ervilhas… e as cenouras, que fazem tão bem! Experimenta lá uma colherzinha!”

“Nem penses. Não gosto disso. Não vou comer.”

“Mas sabes que os meninos têm de comer os vegetais. Só depois de comer tudo é que podem ir para o recreio. Assim, vais ficar aqui sentada muuuuiiiiiito tempo, enquanto os outros meninos vão brincar. Não é isso, que tu queres, pois não?” Com olhos baixos de ressentimento, abana a cabeça negativamente.

“Então tens de comer as ervilhinhas, vá lá. São tããããooo boas, a sério. Ora experimenta.”

“Já te disse que não quero. Não quero essas porcarias.”

“Ó Margarida, francamente! Uma menina tão bonita a dizer disparates! Os vegetais não são porcaria, fazem muito bem à saúde! Quando os meninos comem os vegetais crescem muito e ficam bonitos!”

Os braços cruzam-se obstinadamente, escondem-se as mãos debaixo das axilas, para que dúvidas não subsistam sobre a impossibilidade da capitulação: “Mas eu não quero. Não e não. Tu não mandas em mim. Vou dizer à minha mamã.”

“Olha, a tua mamã de certezinha que também quer que tu comas os vegetais, porque ela sabe que fazem muito bem. Até aposto que vai ficar muito triste quando souber que não os comeste.”

“Vai nada. Ela não me obriga, deixa-me comer o que eu gosto”, arremessa-lhe, a alegria do triunfo a bailar-lhe na voz. “A mamã dá-me batatinhas fritas e deixa-me beber sempre um sumo daquelas latas verdes com bolhinhas e eu gosto e como tudo e depois ainda me compra um kinder quando vamos ao café, mas vegetais nããããoooo. E na casa do papá é a mesma coisa, quase todas as vezes vamos comprar uma pizza e eu gosto muito de pizza. É muito bom, não achas, Geninha?”

“Acho, sim. Mas também temos de comer as coisas que fazem bem, como as ervilhas e as cenouras. Se tu as comeres o teu papá também vai ficar muito contente, sabes?”

“Não, meu papá não quer saber disso. Ele muitas vezes está ocupado a falar ao telefone ou no computador e quem me dá o jantar é a Débora Soraia. A Débora Soraia é a namorada do papá e um dia ela também queria que eu comesse a sopa e eu não queria comer. E depois eu gritei muito e chorei e engasguei-me e o papá veio lá de dentro e ficou muito zangado que já não se podia estar descansado naquela casa e que ele tinha mais que fazer e que estava cansado e gritou para a Débora Soraia: “eh pá, deixa lá a miúda comer o que ela quiser, mas que porra, pá, não há sossego nesta casa e depois a Débora Soraia também ficou zangada com o papá e comigo e eu não falei mais com eles e depois perguntei ao meu papá se podia comer um bolicao e ele disse que sim e foi assim.”

“Sabes, quando eu era pequenina e fazia birras assim como tu, a minha avó dizia que eu era teimosa que nem uma mula.”

“Ai sim? O meu papá também tem uma.”

“O teu papá também tem uma? Uma quê?”

“Então, Geninha? Não percebes nada? Está-se mesmo a ver: uma mula!”

“O teu papá tem uma mula?!”

“Sim, foi o que a mamã disse. Quando eu lhe contei que a Débora Soraia me queria obrigar a comer a sopa e que eu chorei muito e fiquei tããããoooo mal-disposta e quase vomitei a mamã ficou muuuuiiiito zangada e foi lá a casa do papá e gritou com ele e disse-lhe: ‘essa mula que não pense que só porque se meteu cá em casa, vai ter o direito de mandar na minha filha! É que nem sonhes, ouviste?’, disse-lhe a minha mamã. Eu ainda espreitei muito lá para dentro, mas não vi mula nenhuma.”

Parou por instantes para recuperar o fôlego e arrumar os pensamentos. Quedou-se, o castanho cândido dos olhos perdido nos restos de comida já fria. E ainda tornou: “ Ó Geninha, o que é uma mula?”

MC

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