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Não tenho boas notícias – O relato da médica Vera Rodrigues Bernardino

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Sim? Estou a falar com a Dona Maria, filha do senhor António?

-Está sim, quem fala?

-O meu nome é Vera Bernardino, sou médica do hospital onde o seu pai está internado. Dona Maria, infelizmente não tenho boas notícias, o seu pai faleceu ao fim da tarde… Dona Maria?

-Estou aqui.

-Dona Maria, a senhora está acompanhada?

-Está aqui o meu marido comigo.

-Ao menos não está sozinha, ficamos mais descansados.

-Desculpe, não sei bem o que pensar, nem o que dizer.

-Não há problema. Nunca se está preparado para este tipo de notícias e lamento muito ter de lhas transmitir.

-Sim, huh…

-Eu estou aqui, não tenha pressa.

-Não sei bem o que é que devo fazer agora. Tenho de ir ao hospital?

-Não, não pode ver o pai. Vamos ter de transferir o corpo para a casa mortuária.

-Então, mas agora, o que é que eu tenho de fazer? É a primeira vez que estou a passar por isto, não faço ideia de como é que isto se faz…

-Então, amanhã terá de levar o documento de identificação do pai a uma agência mortuária. A partir daí, eles tratam do resto.

-Então, mas e o corpo?

-Na agência, a senhora inicia o processo do funeral e são eles que vão buscar o corpo, uma vez que terão o documento de identificação do pai. A partir daí, são eles que tratam de todas as diligências. Não se preocupe com essa parte.

-Sim, então basta-me ir a uma agência funerária? E já não posso ver o meu pai?

-Basta ir a uma agência com o cartão de cidadão do pai, sim. Já não pode ver o corpo, o caixão tem de ser selado, por causa da Covid. Há alguma questão que queira colocar, algo em que possa ajudar de momento?

-Não, obrigada, doutora.

-Tente descansar, amanhã vai ser um longo dia. Lamento, mais uma vez, ter de transmitir esta notícia. Uma boa noite, dentro do possível.

-Obrigada.

Pronto, um telefonema já está. Faltam dois. A Dona Maria é capaz de ser pouco mais velha do que eu. E nem sempre conseguimos preparar filhos, pais, mães, irmãos, netos, primos, cuidadores, de que os seus familiares têm um prognóstico reservado. Ou, sem nos defendermos por trás de jargão médico, que provavelmente irão falecer nas horas seguintes.

É preciso organizar o trabalho de mais um turno noturno, há doentes para reavaliar, análises para ver, transferências do serviço de urgência para preparar. Telefonemas para combinar planos de ação com os enfermeiros de cada serviço, esclarecer alguns pormenores com a enfermeira coordenadora.

Chegam mais doentes. Nota de entrada, vemos o doente, revimos os exames feitos, olhamos para o raio X do tórax. Nesta altura, é frequente demorarmos um pouco mais. Modificamos algumas ferramentas de edição de imagem do programa de radiologia. Mais contraste, mais realce. É mesmo isto. Suspiramos, Mais um!

Há uma doente transferida que não está bem, precisa de um aparelho para respirar, para compensar a ventilação que o organismo já não assegura por si só. Tem 68 anos. Enquanto preparamos o material, vou falando com ela. Quando começaram os sintomas, se tem contactos conhecidos com a doença, se teve febre, se teve tosse, se esteve mais cansada, que outras doenças tem, que medicamentos toma, se tem alergias conhecidas.

-Então e mora com quem?

-Moro sozinha, com um gato.

-E tem estado com mais alguém?

-Dou apoio à minha mãe, que está acamada.

(Dispara uma sirene interna: emergência social!!! Amanhã de manhã, temos que contactar urgentemente a assistente social de apoio à urgência, para que vão a casa da mãe da senhora, que terá de ser assistida, testada e, eventualmente, transferida para algum centro onde possa ter os cuidados assegurados.)

-A senhora costuma ser nervosa?

-Não, sou uma pessoa muito calma. Só quero que me explique tudo.

-Eu explico tudo, não se preocupe. Esta peça aqui, que vou colocar no seu dedo, serve para ver a saturação de oxigénio. O oxigénio é fundamental para o corpo funcionar. O normal é estar acima dos 95%. No seu caso, como é gordinha, 92-93% será aceitável. Está a ver o valor? É de 87%. E nós estamos a fazer uma batota, porque já lhe estamos a dar oxigénio através dessa sonda que tem no nariz.

-Estou a perceber. Então mas não podem só aumentar o oxigénio?

-No seu caso, temos outro problema: é que o dióxido de carbono, que é tóxico, não está a sair dos seus pulmões. Vamos ter de usar a ajuda de um aparelho para empurrar o oxigénio para dentro e obrigar o dióxido de carbono a sair. Vamos pôr uma máscara à volta do seu nariz e da sua boca, que é almofadada e tem de ficar muito justa, para não haver fuga de ar. Depois, vai sentir que lhe estão a empurrar ar para dentro do peito. Essa é a parte mais difícil, porque tem de se tentar coordenar com o aparelho. Aqui, muitas pessoas entram em pânico e temos de medicar ou sedar os doentes, para que o aparelho funcione. Foi por isso que lhe perguntei se era nervosa.

-Eu acho que consigo. Se me explicar tudo, eu acho que consigo.

-Vamos começar com parâmetros baixinhos, para se ir habituando. Temos de ir reduzindo o oxigénio, porque o que vem da bala não está a entrar todo para os pulmões, é mais importante conseguirmos isso através da pressão do aparelho. Vamos começar a montar tudo. Preparada?

-Sim.

-Isto pode secar um pouco a boca, quer beber água antes?

-Não, estou bem.

-Se ficar desconfortável, faz-nos sinal, porque não a vamos conseguir ouvir com a máscara posta.

Ao fim de algum tempo, que apenas vamos deduzindo pelo suor que vai escorrendo por dentro do fato, a doente adapta-se aos parâmetros possíveis para aquela hora da madrugada, sabendo que no dia seguinte vamos escalar as pressões e terá de se readaptar novamente.

Voltamos aos registos, à escrita. Volto a olhar para a imagem dos pulmões da senhora, a radiografia a preto e branco. Respiramos fundo, mais uma vez. A maioria dos doentes que entrou esta noite tem imagens semelhantes. Manchas esbranquiçadas, que, com os valores de oxigénio que apresentam, sugerem um mau prognóstico. Que, cá dentro, sabemos bem o que quer dizer: é provável que vão falecer nos próximos 3 a 4 dias. Temos pouca margem de manobra quanto ao grau de intervenção que temos disponível. Todos eles falaram connosco, orientados, cientes da infeção. Não sabemos se se apercebem da gravidade da situação quando chegam até nós. Se sentem que o cansaço é extremo e que vai agravar. Se o oxigénio que circula é suficiente para o cérebro permitir esse tipo de ilações.

Diz-se que os doentes sabem sempre quando vão morrer. É uma palavra dura de ouvir, de dizer, de escrever, morrer. Nós achamos que sabemos alguma coisa. Mas preferimos continuar a ter dúvidas e a fazer o possível para não termos razão. Até porque o nosso objetivo sempre foi salvar vidas. Ultimamente, mesmo por baixo dos óculos e das viseiras embaciadas, há olhares que trocamos entre nós que se tornaram inequívocos: “vai morrer.” Estabilizamos o doente, voltamos ao corredor, despimos os fatos e, de olhos cabisbaixos, voltamos à lista de doentes para reavaliar.

Fonte: Visão

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