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Quando o “não” é substituído pelo comprimido.

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A manchete do Correio da Manhã não pode deixar ninguém indiferente. 5 milhões de doses num só ano??? 5 milhões???

Este é um assunto polémico e que já fez correr muita tinta, como mero professor sei de vários casos onde o comprimido é administrado e o comportamento dos alunos melhora significativamente. Mas também é verdade que os efeitos secundários são por demais evidentes e o que resta do aluno é muitas vezes só a sua “carapaça”, ficando este oco, lento e prostrado.

São sinais dos tempos, tempos em que a família é incapaz de educar uma criança com 3,6,9 anos de idade, tempos em que quem prescreve não é controlado, tempos em que quem fornece enriquece a olhos vistos.

Não digo que não existam casos clínicos, claro que existem, mas são infimamente menores à hipocrisia reinante.

calmantes

«Relatório da Direção-Geral da Saúde alerta para a ligeireza com que se fala em hiperatividade infantil.»

«As crianças portuguesas até aos 14 anos de idades consomem mais de 5 milhões de doses por anos de metilfenidato, um psicofármaco usado para tratar a hiperatividade e o défice de atenção, segundo o relatório `Portugal – saúde Mental em Número 2015`, da Direção Geral da Saúde.»

«O documento, recentemente divulgado, é claro: o grupo etários dos 0 aos 4 anos, foram dadas 2900 doses diárias definidas como `calmantes`; o grupo dos 5 aos 9 anos tomou 1261 933 doses; e dos 10 aos 14 anos 3 873 751 doses. Tudo somado, dá um total de 5 1838 584 doses.»

«O metilfenidato está estruturalmente relacionado com as anfetaminas.» 2/5/2016 CM

Deixo-vos  com um excerto do artigo de José Soeiro ao jornal Expresso de 29 de maio de 2015, o qual recomendo leitura.

Toma o comprimido e cala-te?

O facto é que o consumo demeltifenidato (os comprimidos prescritos às crianças com “défice de atenção”, como a Ritalina ou o Rubifen) não para de aumentar no nosso país. Desde 2010, ele duplicou entre as crianças e jovens dos 5 aos 19 anos, de acordo com os dados do Infarmed. São milhares de crianças medicadas por terem “dificuldades de aprendizagem” ou por “frequentemente tornarem-se difíceis de controlar, tanto em casa como na escola”, segundo a definição do folheto do fármaco. Para a indústria farmacêutica, é um gigantesco negócio. De acordo com o Infarmed, a Ritalina significou em Portugal, em 2013, um negócio no valor de 7,5 milhões de euros.

Se problemas como o insucesso escolar, as dificuldades de aprendizagem ou a desobediência às regras por parte das crianças passarem a ser vistas sob o prisma da “doença” que deve ser curada e objeto de terapia, a tendência é substituir o debate político e pedagógico – sobre democracia e obrigação de promover a igualdade – pelo imperativo médico e farmacológico.

Outra é aceitar que, à boleia de um problema real, se omita um debate de fundo: é com comprimidos que se resolvem os tais “problemas comportamentais”? O que é que isto nos diz isto sobre nós e sobre as nossas escolas? E sobre a realidade de os pais terem também cada vez menos tempo e de isso ser determinante na sobreocupação das crianças? O que nos diz sobre a obsessão dos exames que tomou conta das políticas educativas? O que nos diz sobre o poder médico e o papel dos profissionais de saúde? E já agora, o que nos diz sobre os interesses que prevalecem em cada uma destas escolhas? Estamos mesmo a pôr as crianças no centro, ou a responder à preocupação de técnicos que querem que alguns miúdos estejam “sob controlo”, de pais que querem eficácia nos resultados escolares, de professores a quem não são dadas condições para aguentar com tantas crianças e com tanta pressão e de uma indústria que beneficia com o problema?

Está tudo dito…

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4 COMENTÁRIOS

  1. Isto é um problema a sério!

    Mas não creio que seja apenas um problema de “dizer Não” às crianças. Desde sempre houve meninos com défice de atenção e hiperatividade, independentemente da “educação” dada pelos pais. E o que o sistema público de ensino fez é o que continua a fazer: rotular essas crianças como “mal educadas” ou “incapazes” e ministrar-lhes o mesmo ensino que a todos os outros meninos.

    Na realidade, creio que o problema é muito o querer dar a todos o mesmo, usando os mesmos métodos de ensino. Todas as crianças são diferentes! Todas as crianças têm necessidades educativas especiais. Infelizmente para todos, só quando salta à vista ou é recomendado pelo médico é que a escola tem isso em consideração. Em qualquer outra circunstância os meninos são apenas rotulados como fracassados, preguiçosos ou mal-educados.

    Desculpem-me todos se, rótulo por rótulo, prefiro o de hiperativo ou com défice de atenção. Ao menos dá pistas e existem trabalhos científicos sólidos sobre estratégias para lidar com estes problemas (em que a medicação é apenas uma delas)… os outros são apenas rótulos que em nada ajudam na resolução do problema!

  2. (…) sabemos todos que existe um conjunto de problemas que pode afectar crianças e adolescentes, esses problemas devem ser abordados, se necessário com medicação, evidentemente, mas, felizmente, não são tantos as situações como por vezes parece. Inquieta-me muito a ligeireza com que frequentemente são produzidos “diagnósticos” e rótulos que se colam aos miúdos (…)
    http://atentainquietude.blogspot.pt/2016/05/dos-riscos-da-ritalinizacao-dos-miudos.html

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