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Não quero que um professor ensine os meus filhos.

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Vivemos num tempo em que estas frases vendem mais do que os conteúdos que se seguem. Por um breve instante apeteceu-me cair nessa tentação. Uma frase provocadora para ser comentada. Depois, já nesta terceira linha, arrependi-me. Mas fica. Para ver. A verdade é que não quero. Não quero que um professor se limite a ensinar os meus filhos. Quero que lhes diga, oportunamente para não correrem num corredor da escola. Que não falem alto se isso acontecer num espaço onde isso não deve acontecer.

No meu tempo, quando estudava, era assim. Se corria ou a brincadeira extravasava o limite alguém, funcionário da escola ou professor, chamava-me a atenção. Também o fiz sempre como professor. Mesmo sendo daqueles que era olhado de lado pelos miúdos e pelos colegas. A verdade é que gostava que todos deixassem essa imensa estupidez de dividir educação e ensino. Há algo que caiu em desuso completo mas que, como pai, gostava tanto que a escola tivesse a capacidade de restaurar. Chama-se civilidade. É para isso que a escola serve, também. Nem cidadania nem nada dessas coisas. Civilidade. Descurámos nisto, todos. Agora andamos a colher o fruto de o termos feito. A reprimenda não é um ataque aos adolescentes e crianças. É ensinar que a regra do comum, num espaço de todos é tão valiosa como a afirmação da individualidade tão típica destes tempos modernos. Sei que todos estamos cansados demais para esta demanda. Nem já nos lembramos como se faz. Como se diz a um miúdo (sim, são miúdos) que não se grita, não se empurra, não se corre, não de dizem certas coisas. Infelizmente o cansaço de todos num sistema brutal levou a isto. Foi cultivado para isso. E fomos deixando. Eu quero ensinar os meus filhos. E ensino. E instruo que é coisa ainda pior ao olhar de muitos. Que é dizer-lhes o mundo é redondo e roda à volta do sol.

Mas também lhes digo que não se grita, não se corre e mais mil e uma coisas que para muita gente é educar e para mim é preparar para a civilidade. Para saberem estar em comum com outros. E os outros são todos. Amigos e professores. Adultos e outras crianças. E quero educar os meus filhos. Mas educar é um processo que envolve os dois anteriores. Porque nele cabem os valores e a moral. E um dia falarei disso. Não agora e não aqui. Aqui, esquecido que espero que esteja o título, queria só pedir que se lembrem de como se faz essa coisa de ensinar a estar em comum. E que, todos, mesmo cansados, sabemos como é. Como se fazia. Talvez seja dizer não, ensinar as regras, criar harmonia que falta. Valem as palavras o que valem. Se num sistema complexo uma das partes desiste disto tudo resulta num emaranhado de nada onde todos são culpados de não fazerem a sua parte. Essa estúpida discussão tem que terminar. Civilidade, chama-se. À coisa que falta nas escolas, agora…

João Lima

 

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