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“(não) Quero os pais na escola”

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sentido-unicoNão é assim tão incomum analisarmos o estado da arte da indisciplina com os argumentos “os alunos não têm educação em casa”, “os pais não querem saber da escola”, “no tempo da outra senhora é que era” e outros tantos argumentos criativos.

Não há dúvidas que a escola deve efetivamente articular e colaborar com as famílias, numa lógica de colaboração e cooperação, ambicionando que as duas estruturas “puxem o aluno” no sentido de um desenvolvimento saudável e estruturado…

Mas porque não colocamos isto em prática?

Os tempos que vivemos efetivamente representam um desafio na análise da escola atual… escolaridade mínima até ao 12º ano, uma escola para todos, cursos ora de educação e formação, ora vocacionais, ora outra coisa qualquer com o objetivo de categorizar alunos (ao invés de formar alunos)… Não é fácil!

São diversos os estudos que se focam nesta temática. Os professores referem constrangimentos de tempo (“trabalho na escola e em casa, papéis e plataformas para preencher, aulas para preparar, testes para corrigir….sim, tenho lido os imensos desabafos e comentários dos últimos textos publicados sobre este tema”), a descontinuidade no acompanhamento efetivo aos pais (“ora sou diretor de turma, ora só o sou num ciclo, não podendo ser no ciclo seguinte”), a falta de mecanismos de apoio para as famílias ditas mais difíceis (“onde está a CPCJ?”), a desvalorização do papel do professorsabiam que os pais muitas vezes dizem aos meninos antes de estes começarem a frequentar a escola “Estás a fazer asneiras? Tu vais ver quando fores para a escola..”. Convenhamos, que rico bicho papão que é a escola e os professores, claro»), a desresponsabilização das famílias quando não se envolvem na vida escolar dos seus educandos (“o estatuto do aluno não previa qualquer coisa para estes casos?”) e a necessidade de maior reciprocidade (“por isso é que há aqueles colegas sempre dispostos a atender os pais fora do seu horário de atendimento – Ai não há? Pois claro, a lei do trabalho prevê o direito de os pais faltarem ao trabalho para assuntos relacionados com os seus educandos… Há que fazer valer os nossos direitos, já que a maioria das entidades empregadoras é efetivamente school-friendly”).

Curiosamente a literatura também refere que as famílias assumem esta necessidade de apoio por parte da escola, mas também refere que os pais se sentem indesejados (“quando vou à escola sem marcar nunca encontro o professor, mando recados pela caderneta e nada acontece”), que o contacto com a escola tem uma clara conotação negativa, a maioria das experiências de contactos é num registo negativo (“qual a vossa reação quando o telefone toca da escola dos vossos filhos? Pois…”), que há falta de disponibilidade e de tempo para responder a todas as solicitações da escola (“basta ver o que acontece se houver um boato de ter havido uma agressão por parte de um professor a um aluno… a falta de disponibilidade mantém-se, claro”) e que muitas vezes as queixas são formuladas de modo a que os pais se sintam incompetentes na sua tarefa de educar. Também há aqueles que simplesmente se preferem resguardar no argumento que desconhecem a realidade escolar atual, sendo preferível não se intrometerem.

Obviamente os comentários entre parêntesis e na primeira pessoa são comentários provocatórios e fictícios, mas que nos devem fazer refletir se faz sentido continuar a apostar nestes discursos que apenas reforçam o estado atual do envolvimento parental na escola. O mais importante é quebrar este ciclo e pensar, cada um por si, cada um de acordo com a sua realidade e com a sua vontade e motivação para mudar, “o que é efetivamente possível fazer?”.

São várias as iniciativas e práticas que podem reforçar o envolvimento das famílias na escola. Devem ser áreas de reflexão e prioritárias para a ação (se vos fizer sentido, concretizo em exemplos práticos cada uma destas áreas num texto no futuro): a participação dos pais na vida da escola, o envolvimento dos mesmos nos processos de tomada de decisão, as formas de comunicação entre a escola e a família, as dinâmicas de apoio às aprendizagens, assim como a colaboração com a comunidade (na qual se insere grande parte dos pais).

Tudo se resume aos níveis motivacionais e de entusiasmo… Os nossos e dos outros!

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
mediação de conflitos

3 COMMENTS

  1. Infelizmente existe uma grande quantidade de crianças sem maneiras de natureza alguma. Algo que se resolvia com regras e uma dosezinha de autoridade (uso o diminutivo para não chocar os puros…) é objeto de demoradas análises e até de tratados… Negociam os adultos com a criança a quantos dislates poderá herdar, a quantas recompensas terá direito para um comportamento que devia ser comum… Para alguns ”papás” os seus rebentos são uns oprimidos, ou incompreendidos, ou frequentam uma escola que já não lhes dá aquilo que os estimula…A chamada escola do século dezanove é um dos ”chavões” mais deliciosos para adocicar comportamentos intoleráveis e uma aprendizagem que agora é ”pela descoberta” ou ”pelo projeto”! Isto é na Escola! No mundo real, e caso cheguem à ”licenciaturazinha”, toda esta panóplia delicodoce vai ser substituída por ordenados de 500 euros; chefes a roncar empreendedorismo e produtividade e ornados de pouca paciência para aturar menino mimado a quem convenceram, desde tenra idade, que nele havia o umbigo da Terra…
    Do menino irreverente, e incompreendido, vai nascer o jovem a ”Prozac”, pouco instruído, porque o convenceram que carregando botões em máquinas ele seria sábio; habituado a culpar os outros pelas patetices que realiza… ”Sic transit gloria mundi.”

  2. Como Professor não entendo muito esta intervenção!… A realidade das escolas carece de intervenção das politicas educacionais e não deste discurso vazio …

  3. Parabéns pela excelente reflexão.
    Esta é uma das minhas áreas de interesse.
    Considero muito importante a concretização de exemplos práticos de cada uma das áreas assinaladas.
    Grato
    Orlando Serrano

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