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Não queremos culpados, queremos compromisso!

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Muitos de nós gostamos de pensar, criticar, avaliar o estado da escola dos dias de hoje… Apontamos o dedo, identificamos os defeitos, desenvolvemos diagnósticos e damos uma receita…

Mas será isto assim tão linear? Podemos ser assim tão redutores quando pensamos a escola? Consigo encontrar um sem fim de “responsáveis” pelo estado da educação, mas porque teimamos em reduzir a nossa análise?

Comecemos pela sociedade. Poderá ser arriscado proferir tal afirmação, mas atualmente a sociedade assenta num conjunto de valores que desencorajam o estudo e promovem o insucesso escolar (incentivo ao consumismo, políticas de apoio social, elevadas taxas de desemprego, etc). O conceito de escola deixou de ser sinónimo de atitudes refletidas, de procura contínua do saber e conhecimento, de valores pessoais de realização pessoal e profissional, de privilégio, etc.

O próprio Sistema Educativo na forma como está estruturado potencia à desmotivação. 12 anos de escolaridade não combinam com poucas ofertas formativas, com a falta de diversidade. E quando existem, estão desarticuladas, por exemplo, das necessidades do mercado de trabalho. Existe uma elevada centralização e burocracia do sistema de educativo, o que torna a capacidade de resposta muito lenta.

Quando analisamos os Currículos Escolares, encontramos um desfasamento dos currículos escolares dos alunos dos diferentes graus de ensino, havendo currículos demasiado extensos que não permitem que os professores que utilizem metodologias criativas, nas quais os alunos possam ser os elementos centrais e ativos do processo ensino-aprendizagem. Há também desarticulação dos programas educativos e pedagógicos com elevadas cargas horárias semanais. Como já foi aqui falado imensas vezes, os alunos têm pouco tempo para outras atividades de afirmação da sua identidade, para o desenvolvimento de hábitos e competências de convivência ou de participação em ações coletivas em prol da comunidade.

A própria forma como a escola é gerida e liderada tem influência. O tipo do estilo de liderança da Direção/Cordenação, o clima organizacional que se vive, as expetativas diminutas por parte dos professores e dos alunos em relação à escola, a inconsistente orientação vocacional que muitos alunos revelam no final do ensino básico, os horários escolares desajustados, as deficientes condições das salas de aula e das escolas (vejam as notícias da Escola Alexandre Herculano no Porto), etc. Até mesmo a imposição do elevado número de alunos por turma, que por sua vez, também influencia o número de conflitos e o rendimento individual de cada aluno. A heterogeneidade das turmas dificulta a gestão da aula pelo professor, mas também a sua coesão do grupo, traduzindo-se no incremento de conflitos internos.

E os Professores? Quantos conhecemos que fazem uso de estratégias de ensino inadequadas (métodos, recursos, técnicas de comunicação, gestão da disciplina, etc). Quantos se encontram num estado de desmotivação acentuado, assoberbados de burocracias, sob stress e ansiedade e em estados precários de estabilidade? Como podem “vestir a camisola”, investir na relação com os alunos e dedicarem-se ao gosto de leccionar?

Ainda não falei das famílias… Quantos alunos temos com pais (demasiadamente) autoritários, alunos que vivenciam diariamente conflitos familiares, alunos que passam por situações de divórcios litigiosos, alunos  com realidades de famílias monoparentais com menos redes de suporte e apoio? Há razões de várias ordens. De origem social, em que encontramos pais que, muitas vezes pelo seu percurso pessoal, valorizam pouco a escola, investindo, por isso pouco na vida escolar dos filhos. Encontramos uma discrepância entre os valores familiares e escolares (mérito individual, espírito de competição, etc.) e o background cultura e os hábitos culturais familiares. Uma das causas mais referidas prende-se à demissão dos pais da educação dos filhos, que também facilmente se depreende pelas inúmeras solicitações e exigências quotidianas da vida familiar atual e que leva à falta de tempo, levando ao efeito “perverso” de a escola ficar com uma imagem de prestadora de serviços, havendo uma exigência por parte das famílias de eficiência e “poucos incómodos”, não sendo sempre fácil fomentar um espírito de colaboração.

E naturalmente, também temos os alunos, que por razões de ordem cognitiva e/ou genética, ou por instabilidade emocional e afetiva típica da adolescência, podem desenvolver sentimentos de rejeição relativamente à escola,  podem desinvestir do estudo, assumir comportamentos de indisciplina, de desmotivação, de desinteresse, etc.

Sendo a escola um “espaço” tão complexo, como nos atrevemos a não pensá-lo como um todo? Porque não são “chamados à responsabilidade” todos estes diferentes intervenientes?

Não queremos culpados, mas sim pessoas e instituições comprometidas para uma escola de sucesso!

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora

3 COMMENTS

    • Também prefiro a palavra responsabilidade em detrimento da palavra culpa…

      Faz todo o sentido e talvez houvesse mais eficácia na resolução de e dos problemas!

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