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“Não me chateies pá! Toma lá o comprimido”

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Prático, fácil, só não dá é milhões. A medicação nas crianças que são diagnosticas com hiperatividade é um tema recorrente e altamente fraturante. Como as panelas de pressão (artigo escrito a 20 de Abril), as crianças podem dar o estouro se não aliviam a pressão, para evitar situações limites, estas arranjam mecanismos para aliviar a dita: desde a caneta a bater na mesa, o “desligar” do professor entrando num mundo imaginário, ou mesmo a conversa com o vizinho do lado. Não confundir isto com má educação, apesar da barreira ser ténue ela existe e a má educação surge normalmente associada à falta de “nãos” parentais.

hiperatividade-4Quando começamos a falar de crianças diagnosticadas com hiperatividade, a panela é naturalmente menor e a pressão precisa de ser continuamente libertada. Não sou psicólogo nem pediatra, mas enquanto professor apercebo-me que a escola não está minimamente preparada para lidar com este tipo de crianças, sem ser num âmbito de ensino especial ou através do famoso comprimido.

A atividade física que tão mal tratada foi por Nuno Crato, pode dissipar com elevada eficácia muita da pressão acumulada nestas crianças e nas ditas “normais”. Por exemplo, não é compreensível que o 1º ciclo seja o único que ainda não tenha enraizada a atividade física no seu período letivo, ainda por cima quando é nestas idades que as crianças mais precisam de “espairecer”. Oprimir a natureza de um “motor de alta cilindrada ” é desperdiçar o potencial que daí pode advir…

Diminuam a carga letiva, aumentem a prática da atividade física e vamos assistir a um aumento de “produtividade” infantil. Não é isto que fazem os outros países?

Ou então optem por estratégias alternativas, como fez uma Escola de Valbom que apostou no Reiki para melhorar o desempenho escolar, ou a Escola Rio Novo do Príncipe que aposta no Ioga.

Ficam excertos de um artigo muito bom do Observador

“A sociedade está menos tolerante para o movimento e isso faz com que qualquer ‘excesso’ ou variante disto seja logo interpretada como uma Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção.”

“Há crianças que efetivamente terão PHDA, mas muitas estão mal diagnosticadas por causa desta necessidade que muitos pais e professores têm de que as crianças fiquem quietas.”

 

Tal como Maria, muitos outros pais acabam por mudar os filhos de escola em busca do sítio que mais se adeque aos filhos, com professores que entendam o problema, e onde eles se sintam melhor, visto que com esta perturbação vem, quase sempre, o mau desempenho escolar, por conta da grave falta de atenção e da impulsividade, que prejudicam na parte das relações com os outros meninos.

Mas a verdade é que “os sintomas da PHDA podem não causar problemas se o ambiente for adequado, se a escola se adaptar”, avança o neuropediatra Luís Borges. “Agora se continuar a exigir fichas e mais fichas teremos cada vez mais crianças diagnosticadas e a revelarem dificuldades. Há uma dissonância entre as capacidades da criança e o sistema. Estamos a exigir demasiado às crianças.”

E Luís Borges não está sozinho. O neuropsicólogo clínico Fernando Rodrigues concorda que se “devia mudar a escola para que esta se adaptasse à nossa individualidade. O insucesso escolar é maior porque a criança não tem uma adaptação àquele sistema”. E até deixa uma sugestão: “Porque é que não se espaçam mais as aulas? Logo às primeiras horas as crianças tinham as aulas que requerem mais atenção, depois vinha o exercício físico, depois o almoço, outra aula e novamente exercício. O movimento ajuda estas crianças a focar”.

A terapeuta ocupacional infantil norte-americana Angela Hanscom também defende a importância do movimento, na medida em que ajuda ao desenvolvimento das funções executivas, que são aquelas que falham nestas crianças. “Para que as crianças aprendam, elas precisam de ser capazes de prestar atenção. Para prestar atenção, precisamos de deixá-las mexer-se” durante algumas horas por dia, escreveu Angela Hanscom, há um ano, num artigo no seu blogue, que acabou por ser publicado no The Washington Post. Quando se obriga estas crianças a estarem muito tempo quietas numa sala de aula o cérebro delas “adormece”, explica. A mesma terapeuta aconselha a utilização de bolas tipo pilates nas salas de aula em substitução das habituais cadeiras.

“Não tenho dúvidas que o método de ensino pode condicionar fortemente a expressão de determinado tipo de sintomas. Se tiver um método que permita uma maior liberdade de movimentos na sala de aula, vou ter menos necessidade de controlar essas crianças com fármacos”, corrobora Augusto Carreira.

Também Ana Rodrigues afirma que “não é benéfico ter 90 minutos de aulas, poucos intervalos e nenhum exercício físico”.

Uma vez que o método de ensino teima em não se adaptar, seria fundamental que todos os professores compreendessem esta perturbação e soubessem lidar com ela. “Os professores têm aqui um papel muito importante, não só no diagnóstico como na intervenção. Não é fácil encontrar estratégias, mas é possível. Muitas vezes o que acontece é que os professores até sabem do problema mas depois, na hora, quando o miúdo perturba, eles não associam isso ao problema da PHDA e a estratégia que encontram é mandar estar quieto e calado. E isso não funciona com estas crianças”, explica Ana Rodrigues.

Contudo, o facto de as turmas terem cada vez mais alunos, e de haver cada vez mais metas cumprir e matéria a dar, faz com que os professores tenham “pouco tempo para tomar em atenção essas distinções das crianças que têm a ver não só com a sua personalidade, mas com a maturidade da criança”, lamenta o pediatra Gomes Pedro.

“O meu filho é como um carro de Fórmula 1 sem travões”

1 COMMENT

  1. Nada melhor ao regressar da aldeia onde passei o Natal do que ler este artigo acerca- uma vez mais- da Perturbação da Hiperatividade e Defice de Atenção (PHDA).No meu ponto de vista o artigo está conciso,” entendível” por todos os atores que rodeiam estas crianças , corretíssimo e julgo que uma vez mais deixa pistas para que se atue. Mas esta ação já tarda , e muito. O Dr Luis Borges , neuropediatra, e a sua equipa do Centro de Desenvolvimento do Hospital Pediátrico de Coimbra,há largos anos que vem abordando este tema e a necessidade de uma forte dinamica de grupo que possibilite acões comuns e rápidas na abordagem destas situações. É isso que a família espera : da definição diagnóstica rápida ao tratamento, Da parte dos técnicos tenho a certeza de que existe um profundo empenho , da parte dos professores há garantidamente interesse, ou seja , é tema que não tem controvérsia . Então porque se espera para avançar estratégias motivadoras? Espera-se que um qualquer “iluminado” ministro pense no assunto? A menos que tenha um familiar com PHDA e sinta na pele o que tal representa ,principalmente quanto ao” sucesso geral” daquele menino/menina , o Sr ministro virá devagar devagarinho com as frases habituais de “compreensão e sensibilidade para o assunto” mas …uma vez mais,por isto ou por aquilo , teremos que” aguardar” .. Entretanto uma boa percentagem de crianças vai crescendo e ficando pelo caminho.

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