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Não É Possível Conciliar Infância E Etiqueta Respiratória

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Encontro um foco quase exclusivo na forma como se vai evitar contágios nas escolas e muitas perguntas sobre que medidas de segurança se irão implementar. Mas vejo muito pouco sobre o impacto que essas mesmas medidas poderão vir a ter, como se a única equação a ter em conta fosse a de não se propagar o vírus.

Enquanto adulta posso passar muito tempo sem afectos, sem convívio com amigos e sem interacção social com os de fora. Daqui a dois anos se for preciso, retomo e está cá tudo.
Mas estamos a falar de crianças. Estamos a falar do crescimento delas. Meses ou um ano na vida de uma criança a ser constantemente monitorizada em relação aos seus movimentos e às suas interaçções com os pares, vai ter consequências, vai ficar gravado, vai criar padrões comportamentais que podem ser difíceis de reverter. Vai passar do não posso para o não preciso, é estranho, não faz falta.

Claro que elas se habituam. Todas as crianças se habituam ao que não lhes é oferecido. Até em contextos de guerra, as crianças se habituam a ouvir bombas a cair. Portanto a questão não é ao que elas se habituam mas a que custo. Qual o custo a que estamos dispostos, tanto nas consequências do vírus como nas consequências do seu evitamento? Onde traçar uma linha, de que forma? Isto tem de estar presente nas decisões.

Num país onde se optou por voltar a entregar crianças, que estavam em casas de acolhimento, às famílias que as maltratavam, para se cumprir isolamentos, não fico propriamente descansada sobre a forma como estarão a olhar para o panorama todo do regresso à escola e para os impactos a todos os níveis e não apenas aos que ao vírus dizem respeito.

Vi umas fotos a circular de crianças chinesas com máscaras, viseiras e protecções de plástico à volta das mesas. Será que soa alguma campainha nas pessoas? Será que ressoa algo mais do que o vírus não passar de umas para as outras? Conseguem ver que mais coisas não passam ali? Conseguem sentir? Temos de criar medidas mas faz-vos sentido que não sejam aquelas?

Era mais fácil viver uma pandemia sem filhos. Mas com eles não consigo não me preocupar. Preocupa-me porque as polarizações aumentam e parece que agora as pessoas se dividem entre as que querem isolar e as que querem desconfinar. Entre as que querem evitar a todo o custo e as que não querem evitar a todo o custo. E as pessoas zangam-se e ofendem-se e acham que uma opinião e uma preocupação resulta de se querer andar a matar idosos. Como se nas nossas próprias famílias não os tivéssemos e não os amássemos.

Não sei como se poderia equilibrar esta balança mas sinto todos os dias que essa será a única forma. Equilibrar, integrar. Vírus e humanidade. Sem se esterilizar tudo.

Ana Rita Dias

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