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“Não é admissível que em pleno sec. XXI, se utilizem jovens e professores como cobaias”

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Sou professora desde 1985. Trinta e cinco anos passaram desde que abracei esta profissão. Gosto do que faço e sempre gostei. Muitos foram os desafios que já enfrentei e sempre os encarei de frente, com muito espírito de missão, mas hoje, sinto-me revoltada e apenas mais uma cobaia num plano de desconfinamento que tem que ser rigorosamente cumprido.

A 13 de março encerraram as escolas e rapidamente eu, assim como todos os outros professores nos adaptamos ao [email protected] Com maior ou menor esforço, com mais ou menos horas de trabalho, fomos dando o nosso melhor – o espírito de missão foi servindo de impulso.

Entretanto, começou a ser anunciado o regresso às aulas presenciais a 18 de maio para os alunos sujeitos a exame e, mais uma vez, aceito esta decisão de forma pacifica. Ajudar a preparar os alunos para exame era apenas mais uma missão à qual não me podia escusar.

Começam a ser conhecidas as regras do regresso à escola e toda a gente percebe que é um regresso difícil, que implica o cumprimento de normas muito apertadas e que não vai trazer alegria a ninguém. Nem alunos, nem professores querem esta escola onde não se veem sorrisos, onde não se reconhecem expressões, porque tudo está escondido atrás do distanciamento e das máscaras de uso obrigatório. Mas, mais uma vez enfrento o desafio. Nas aulas síncronas vou procurando transmitir aos meus alunos que este é um mal necessário, que não vai ser agradável, mas que vai ser muito útil porque vamos conseguir fazer novas aprendizagens, importantes para quem quer boas classificações nos exames para poder ingressar nos cursos/estabelecimentos de ensino desejados. Importante também porque vamos regressar à escola, ao local onde todos queremos regressar – enfim, vou arranjando mil e um argumentos, para os convencer a eles e a mim própria.
A 13 de maio nasce um documento novo “Orientações gerais relativas aos direitos e deveres dos alunos e ao seu acompanhamento, no âmbito das atividades letivas presenciais e não presenciais” e fica bem patente aquilo que foi também posteriormente afirmado pelo primeiro ministro António Costa e pelo Secretário de Estado João Costa. O regresso à escola é uma experiência que faz parte do plano de desconfinamento. Não têm aulas apenas às disciplinas a que vão fazer exame porque está assumido que não são aulas para apoiar os alunos a exame, mas sim para experimentar e ajudar a tomar decisões para o próximo ano letivo. Professores e alunos são as cobaias humanas. No Ministério da Educação ninguém está nada preocupado com a preparação dos alunos para os exames. Aliás, o que dizem é que se algum aluno ficar doente com COVID-19, será tratado como qualquer outro, que parta uma perna, por exemplo, – terá apoio dos professores e fará exame em setembro de não puder fazer em julho (esquecem-se de esclarecer que as condições de acesso já não são as mesmas). Ninguém está nada incomodado se os alunos têm que ficar 4 horas sentados numa cadeira – isto é uma experiência para o regresso à escola em setembro.

Só me apetece gritar bem alto que não é admissível que em pleno sec. XXI, se utilizem jovens e professores como cobaias, sem haver consentimento por parte de quem participa no estudo. Os jovens, têm todas as probabilidades de sobreviver (este nível etário é o que apresenta menor índice de mortalidade por COVID-19) e os professores, será menos uma despesa (sendo os mais velhos são os que têm maiores salários e se algo lhe acontecer sempre são menos umas reformas a pagar). Este governo não é melhor que o sueco, o britânico, o norte americano ou o brasileiro. Apenas uma coisa os distingue, criticam os outros, mas fazem o mesmo.

Ana Paula Martins

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