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Não Chumbar Alunos À Finlandesa… Uma Fantasia À Portuguesa!

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O editorial do JN aborda a questão do fim das retenções em Portugal, mas refere e bem as diferenças que existem entre Portugal e a Finlândia. Vale a pena ler, pois aborda a questão central, o ensino português não está preparado para competir na liga dos campeões das transições automáticas.


Não somos a Finlândia

“Não acreditamos que uma criança aprende melhor por estar apenas a ouvir, sentada numa mesa e dentro de quatro paredes”. A frase é de Anneli Rautiainen, responsável pela Unidade de Inovação da Agência Nacional para a Educação da Finlândia.

Na liderança de sucessivos relatórios internacionais que avaliam a literacia dos alunos, a Finlândia rompe, desde os anos 70, com alguns conceitos convencionais.

Não se trata apenas de não haver chumbos. Não há exames nacionais ou testes com notas numéricas. O período escolar não pode ultrapassar as cinco horas no equivalente aos nossos 1.º e 2.º ciclos e as sete nos restantes níveis. Há uma grande participação dos alunos na definição dos currículos e das suas próprias metas, sem valorização de disciplinas ditas nucleares em detrimento de outras. Todos os materiais escolares e almoço são gratuitos.

Invocada sempre que se pretende falar do sucesso em educação, a Finlândia volta a ser apontada na discussão em curso sobre acabar ou não com as retenções. Acontece que não se pode importar apenas o que convém deste modelo. Para apostar num ensino fortemente personalizado, as escolas finlandesas têm frequentemente vários adultos em simultâneo na sala de aulas. E têm, ainda antes de isso, uma carreira atrativa e uma seleção apertada, sendo difícil entrar nos cursos de Pedagogia – apenas 9% dos candidatos que fizeram o exame de ingresso conseguiram uma vaga, em 2014.

Um sistema de ensino sem chumbos faz todo o sentido quando se investe no aluno. Não é facilitista, pelo contrário: implica ter profissionais para o acompanharem, projetos que o recuperam, criatividade para soluções que não desistem de quem falha ou se desinteressa. Um modelo assim exige investimento – sobretudo em recursos humanos altamente especializados. Quando se fala em poupanças e custos de chumbar alunos, a discussão é pervertida. O facilitismo está em olhar para a árvore sem analisar toda a floresta.

Inês Cardoso, in JN, 9-11-2019

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7 COMENTÁRIOS

  1. Olá, li este artigo e já li muitos artigos, textos, livros, etc sobre educação.
    Este artigo diz” na Finlândia o período escolar não pode ultrapassar as cinco horas nos 1º e 2º ciclos e as sete nos restantes”.
    Quero apenas dizer o seguinte:
    Em Portugal, de acordo com o DL 55/2018 de 6 de julho, a carga horária semanal é:
    1º ciclo – 25 horas : 5 dias = 5h/dia
    2º ciclo – 1350 minutos : 60 = 22,5 horas : 5 dias = 4,5h/dia
    3º ciclo – 1500 minutos : 60 = 25 horas : 5 dias = 5h/dia.
    Em termos de número de horas ainda não percebia as “grandes diferenças”.

    • A diferença é que uma coisa é o que você leu na legislação e outra coisa é o que se verifica na prática! E discutir estes assuntos implica ou ter filhos em idade escolar ou estar na escola todos os dias para observar a verdadeira realidade das mesmas em Portugal!

    • Viver um dia na pele dos miudos do 1 ciclo…A maioria está na escola entre as 9 e 17,30…Um numero significativo entra na escola ainda mais cedo , na componente de apoio a família e sai mais tarde, por volta das 18,30…para ajudar as escolas carecem de recursos humanos, materiais e muitas vezes as infraestruturas nao estao adaptadas a esta sobrecarga…os miúdos sao verdadeiros herois…e a maior parte deles apenas deseja poder estar mais tempo com os pais…estamos a destruir a infância das crianças portuguesas…

  2. Apenas confirma o facto de a atual reforma reunir todas as condições para nos deixar muito pior. Não tenho dúvidas!
    Vai também ao encontro do que tenho vindo a defender, assim como muitos dos que participam nas redes sociais e as usam para discutir os problemas.
    Será que os nossos governantes investem no conhecimento da realidade portuguesa? Parece que não, talvez por isso as pessoas sintam cada vez menos vontade de votar!

    • Se são mal educadas, a culpa será de quem a chamam pais, porque muitas das crianças hoje em dia não respeitam nada nem ninguém. Quanto aos horários crescendo assim “birrentas” como será quando começarem a trabalhar? Ou por outro prisma, onde podem os pais deixar os filhos durante as outras 5 horas do dia, já que estes estão a trabalhar.

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