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Na Primeira Pessoa – Patins Congelados

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PATINS CONGELADOS

TEMPO_CONGELADOComo qualquer pai que tem uma criança de tenra idade, um dos momentos mais esperados desde o seu nascimento é ensinar-lhe alguns prazeres da vida, como andar de bicicleta, jogar à bola, lançar o papagaio, ir à piscina ou mesmo andar de patins. Pode ser um momento em que tudo é perfeito, o sol brilha, a temperatura é amena, a criança ri, o pai também, só falta uma música de fundo e até parece um filme… Pois é, mas imaginar é uma coisa, a realidade normalmente é outra.

Sendo eu professor da área, sei perfeitamente o que tenho de fazer para ensinar a minha criança a andar de patins. Só que uma coisa é estar numa aula na qual existe um distanciamento profissional, outra coisa é tentar ensinar alguém de quem não temos barreiras físicas ou emocionais. Por isso é considero perfeitamente normal, ter mais dificuldades em ensinar a minha filha do que 30 alunos… Em casa, faço questão de deixar o professor à porta e julgo que é maneira mais salutar de educar a minha filha.

Depois de muito pedir, finalmente recebeu os patins, o entusiasmo estava ao rubro e só pedia, “papá, mamã, vamos andar de patins! vamos andar de patins!”. Lá fomos nós, contagiados por tamanha alegria. A primeira e segunda vez correu muito bem, a aprendizagem estava a decorrer sem stress, respeitando o seu ritmo, lidando com as dificuldades normais de quem tem aquelas coisas redondas debaixo dos pés e que não param quietas. No terceiro dia, foi altura de continuar onde tínhamos terminado. No início correu tudo sobre rodas, lá ia ela, pé-ante-pé dando os seus passinhos deslizantes. Passado uns minutos deu-se o inesperado… A rapariga bloqueou… É que bloqueou mesmo, nem para a frente nem para trás, parecia que tinha congelado.

Uma das características da minha filha quando alguma coisa não está bem, não é começar a chorar ou fazer birras, ela simplesmente para. Cabeça para baixo, olhar dirigido para o chão e não se mexe… Parece que adormece….

“Então, que se passa? Estavas a ir tão bem?”, nada… Nem uma resposta…

“Vá filha, vamos lá! Porque estás parada?” A resposta “quero que me dês a mão”.

Expliquei-lhe que já tinha passado essa fase e que era natural sentir algum desconforto e que com o tempo o desconforto passaria a segurança mas que não se preocupasse que o pai não a deixava cair. Nada… O congelador continuava ligado… Até que começou a dizer que queria ir para casa. Nesse momento a minha vontade foi levá-la, era mais fácil, mas se o fizesse ela iria associar aquele momento a algo desconfortável, que a fez sentir insegura e triste. Lembrei-me de uma situação que me aconteceu na minha preparação para a faculdade. Nas aulas de ginástica de aparelhos, na corrida preparatória para realizar um salto, “espetei-me” literalmente contra um aparelho chamado “cavalo”. Foi uma pancada violenta, que por alguns centímetros não me alterou a voz para algo mais, feminino… A minha professora depois de verificar se eu estava bem, obrigou-me a realizar o exercício novamente, exatamente para que o fracasso, o medo, não fosse a última imagem a ficar na minha cabeça. Obrigado professora Cláudia!

Foi o que fiz, disse-lhe, “se queres ir para casa força, mas para isso tens de mexer os pés, algo que tu já fizeste imensas vezes e já mostraste que és capaz”. A resistência manteve-se por mais uns tempos, tive de ceder um pouco pois o “congelador” ia perdurar, mas logo depois soltei a mão e lá foi ela em modo descongelado no seu jeito pinguim.

Aquele momento foi fundamental para lhe mostrar que conseguia ultrapassar a adversidade desde que não desistisse, que precisava de lidar com os seus medos, mesmo que para isso tivesse que dar um passo atrás para depois dar dois à frente. No fim fiz questão de a fazer rir, de lhe dar umas beijocas valentes, a última recordação tinha de ser algo de bom, algo descontraído e divertido.

Educar é também fazer escolhas, lidar com os momentos e não fugir deles. Tal como nas questões disciplinares, olhar para o lado não resolve nada, apenas adia o inevitável.

Não olhem para o lado. Façam a diferença!

P.S – Este texto foi escrito há uns três meses… Hoje a rapariga já desliza com mais segurança. Num destes dias, deu-se um momento “Kodak”. Ela estava a patinar e ouvi as seguintes palavras: “Obrigado pai, obrigado por me teres ensinado a andar de patins”. Aproveitei logo a deixa “De nada filha, mas foste tu que conseguiste porque optaste por não desistir…” E lá foi ela 😉

Se gostaste deste texto vê também o texto “palavrões”.
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