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Na escola não se pode ser de esquerda nem de direita – Maria Joana Almeida

À escola compete mostrar outras realidades. Mostrar a diversidade, viver a diversidade. Não existe para chamar a si toda a razão, existe como veículo de outras visões que são reais na nossa vida. A escola não quer, não tem de doutrinar, mas tem de educar para a diversidade.

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O João Quadros escreveu recentemente, no seu Twitter, algo como: “São 19h30 no Continente, menos 47 anos nos Açores”. Penso que no meio do que se escreveu sobre este momento, no mínimo, insólito, esta terá sido a frase (humorística) mais exemplificativa do momento. Os argumentos de defesa têm-se nivelado pelo termo comparativo coligação PS, BE e PCP. Talvez o mais imediato e visível no espectro de justificações.

Há uma imagem no universo da educação que é muito ilustrativa destas diferenças. No cerne da já exasperante palavra “inclusão”, ainda há dois lados da barricada. Aqueles que olham para a deficiência e para as necessidades educativas especiais (NEE) como problemas que devem ser retirados da escola e colocados em instituições específicas para serem “tratados”. E aqueles que defendem que as instituições deviam ser extintas e todos os alunos, independentemente dos seus comprometimentos, em prol do máximo interesse do aluno, devem estar na escola. Pessoalmente, não me situo, de forma absolutamente gráfica, em nenhum destes lados e, claramente, muito menos no lado de erradicar crianças e jovens com necessidades educativas especiais das escolas. Como também reconheço a importância de existirem instituições para casos excepcionais.

A título pessoal, moldado naturalmente pela minha experiência, continuo a considerar que há mais canais de comunicação possíveis com quem aceite a diferença do que quem a quer esconder e repudiar.

É disto que falamos.

Erramos muito ainda quando falamos de inclusão, aliás, todos os textos sobre inclusão falham redondamente quando assim se auto-intitulam, e falham redondamente porque o princípio deve ser sempre o da diversidade, o da assunção da diversidade. Falar de inclusão é a antítese do que queremos. Mas lá chegaremos, ao dia em que não seja preciso um holofote perante a inclusão. Quando não for preciso reforçar que é homem ou mulher, que é imigrante, que de ascendência x, quando qualquer factor externo não é mais relevante do que sua competência. O momento chegará quando erradicarmos, inconscientemente, do nosso discurso,”(…) e ela é mulher” e “foi o marido que ficou em casa a tomar conta do bebé”, “é africano e está na faculdade”, “sim, temos muitos alunos de cadeira de rodas, temos um historial de inclusão”, “sim os teus meninos, os alunos NEE”; “é para fazer os testes para os NEE?”.

Não sei se irá lá por cotas, por discriminação positiva, por obrigação (não será de certeza). Creio que as mudanças profundas vêm acima de tudo por inspiração. As grandes mudanças vêm por contrapontos, por informação, por ouvir os dois lados da barricada, por correr o espectro. Porque de outra forma serão sempre assunções pouco sólidas. Facilmente manipuladas.

É por isso que áreas como a cidadania não podem ser opcionais, por algo tão simples como o facto de que à escola não cabe ensinar verdades absolutas, nem destituir verdades familiares. À escola compete mostrar outras realidades. Mostrar a diversidade, viver a diversidade. Não existe para chamar a si toda a razão, existe como veículo de outras visões que são reais na nossa vida. A escola não quer, não tem de doutrinar, mas tem de educar para a diversidade.

Quando a escola mostra outras realidades respeitando a diversidade dos seus alunos está a fazer o seu trabalho. E bem. Quando alguém não tolera e age barbaramente está a exigir que a sua casa seja a única verdade. Quando a escola ceder, estamos perdidos.

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