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Na classe docente o ‘rei nunca vai nu’

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Há situações que considero que não devem continuar na clandestinidade, e uma delas é considerar que só os estudantes e suas famílias têm dificuldades financeiras e/ou logísticas. Tal como a estória do rei vaidoso em que só uma criança no meio da imensa multidão teve a coragem de dizer que ia nu, enquanto a assistência sabia mas não dizia, também sou a ‘criança’ que diz que há docentes com dificuldades financeiras e/ou logísticas. Convém lembrar que vários docentes só têm o salário como rendimento, e os cônjuges também não auferem rendimentos elevados, com créditos de habitação, filhos em universidades (1 ou 2 e portanto, pagam 2 ou 3 casas),  as mesmas despesas de toda a gente, e ainda estão colocados abaixo do 6º escalão, com a agravante de saberem que vão ficar anos, provavelmente até à aposentação, abaixo do 7º escalão, porque não há quotas para todos, independentemente do mérito que possuam (e só esta perspetiva desmoralizava até um soldado das forças especiais…). Estamos a falar de centenas de euros líquidos mensais a menos em relação aos escalões superiores AO LONGO DE VÁRIOS ANOS; portanto, lá por os docentes não se lamentarem publicamente ou não andarem com uma tabuleta a anunciar a sua condição económica, não significa que não estejam em situação financeira difícil. E quando o governo e sociedade assumem que esse problema não existe na classe docente e que portanto se ‘desenrascam’ bem, só estão a colocar em risco os estudantes. Essas dificuldades provocam desigualdade entre docentes, e não vejo aplicar o lema “ninguém fica para trás” neste caso; o que vejo é incompreensão, incredulidade, desvalorização e desprezo.
Persiste-se em ignorar as dificuldades materiais que vários docentes têm tal como muitas pessoas da população, incluindo as psicológicas (burn out, desalento, desânimo, desmotivação) e fisicas, e NUNCA existirem procedimentos de apoio ou de resolução dessas dificuldades, tal como se faz afanosamente para com os estudantes e respetivas familias (exemplos escandalosos: o docente com filhos menores de 12 anos não ter acesso a escolas de acolhimento, quando tem de prestar teletrabalho como função primordial para o bem-estar futuro dos outros jovens, mas colocando em risco o bem-estar dos seus filhos; não existir procedimento idêntico aquele que se faz para os estudantes, para que os docentes tenham acesso a equipamento informático, na eventualidade de não possuírem ou possuírem com características técnicas que impeçam um desempenho online); inevitavelmente levará ao prejuízo não só do docente mas também do utente, e implicitamente, da sociedade.
Tenho dito.
Mário Silva

2 COMMENTS

  1. Certíssimo…mas claro, tal como li num blogue que acompanho, de certeza que certas “araras” vão dizer o contrário, falando por mim, tenho só um computador portátil, comprado em segunda mão :),que não permite colocar certas aplicações e que agora é usado quase exclusivamente pelo meu filho que tem aulas online…eu para ter em dia a parte burocrática de grelhas e mais grelhas e fazer pesquisas tem de ser à noite ou ao fim de semana…e se o computador for à vida?? “És docente ganhas bem”…”Não te queixes, há piores do que tu”… e assim vamos andando com uma mão atrás e outra à frente…infelizmente!

  2. Para além do facto dos ordenados e horários de trabalho dos professores serem ofensivos, passa-se também que toda a sociedade, despudoradamente, considera que professor por natureza é multitarefas (pai, mãe, encarregado de educação, polícia, médico, psiquiatra, psicólogo, assistente social, mágico, conselheiro matrimonial, confessor, carteira sem fundo, força de trabalho sem fundo, etc.) tudo o que se compreende implicitamente como limite para as outras profissões e para os outros papéis sociais, ao professor não é reconhecido como limite. Compreende-se, por exemplo, que o psicólogo não intervenha em assuntos que são do foro psiquiátrico, que o médico não ocupe o lugar de um assistente social. Já em relação ao professor põem todos as mãos na cinta e perguntam: Então como é? não resolve? não é professor? os próprios pedopsiquiatras perguntam indignados aos professores: Então e o bullying não resolvem? o excesso de TPC’s não resolvem? o abandono escolar, não resolvem? o professor intimidado perante tanto dedo em riste, responde: não foram vocês que pediram a autonomia das escolas, em vez da autonomia dos professores? não foram vocês que pediram maior poder dos pais e encarregados de educação, e do poder local sobre as escolas e principalmente sobre os professores? não foram vocês que pediram uma avaliação dos professores suficientemente arbitrária e elástica para poder exercer poder sobre os professores? não foram vocês que pediram que os professores fizessem trabalho que se veja, e que cumprissem horário o mais possível parecido com o de um executivo, empanturrando as suas pausas letivas de trabalho burrocrático, prolongado para horas extraordinárias e fins de semana de plantão? não foram vocês que pediram a desigualdade entre professores, nos horários e nos ordenados? (quem entra de novo na carreira tem um ordenado superior ao que tinha alguém que está no meio da carreira quando ingressou, a ideia seria ser compensado no fim da carreira, como os mais antigos, mas os professores antigos chegam ao topo da carreira, os novos e os do meio da carreira, não têm esperança de lá chegar. Consequência: a geração sanduiche, do meio, nunca terá a massa salarial, nem dos professores novos, porque entrou antes de se preocuparem com eles, nem dos professores antigos, porque as regras foram mudadas a meio, respeitando apenas as pontas). Ninguém pode esperar digerir, algo diferente do que come, recebem o produto do que produziram. Como esperam, tendo destruído a carreira dos professores, ano após ano, as suas condições de trabalho, a sua vida pessoal e familiar, a sua saúde, tendo inclusive, alguns perdido a vida, nesta afaima, como esperam que professores que não têm dinheiro, nem tempo, para ir ao médico porque têm que ir ao mecânico (quando têm dinheiro para comprar um carro, com o dinheiro do seu bolso, usado para deslocações laborais), possam ter dinheiro para comprar equipamento informático para si e para as suas famílias? (sim, porque os professores também têm famílias, sabiam? e por vezes precisam todos de um computador ao mesmo tempo) e ainda para pagar a quem lhes tome conta dos filhos pequenos, quando estão à frente das câmaras? Fica tudo em família, neste Portugal de cordel. Esperemos que esta telenovela acabe depressa.

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