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messy_kitchen_cartoonA senhora calcou devagarinho o chão da entrada como quem pisa território inóspito. Mesmo assim, sentiu sob o salto do sapato o estalar do plástico e arredou-se, atrapalhada, puxando todo o seu peso para a planta do pé. Apanhou do chão um pedaço estilhaçado do que lhe pareceu uma perna de boneca. Brinquedos, peças de roupa e calçado e folhetos de hipermercado pejavam o chão do pequeno átrio e coabitavam num puzzle vanguardista com cascas de clementina, um pedaço trincado de pão e dois pacotes de bolachas vazios.

“Não faz mal, não se preocupe”, murmurou a outra, abrindo com o chinelo um pequeno carreiro de passagem sinuosa. Na cozinha, a senhora olhou em volta num movimento hirto de quem não quer bulir numa palha e não conseguiu esconder um trejeito de nojo. “Ó Cátia” exclamou, “pelo amor da santa!” A Cátia encolheu-se, agastada e moída. “Ó doutora, não tenho tido tempo estes dias… os miúdos doentes, a mais velha de muletas…” A doutora susteve-a com o gesto da mão. “Outra vez desculpas, não vale a pena. Todas as vezes que cá vimos lhe dizemos o mesmo, não é, Cátia? Acha que há condições para as crianças viverem aqui? Olhe bem para isto e seja sincera”, rematou, apontando com vaga agonia na direcção do fogão. A bancada assemelhava-se ao chão do mercado depois da venda, com pilhas de loiça suja, embalagens vazias e sobras de coisas indefinidas. No fogão, restos derramados de comida em diversas fases de secagem combinavam com a pelicula untuosa que escorria nos azulejos.

A Cátia olhava, também ela desgostosa e aflita, o nervoso a roer-lhe o verniz lascado das unhas rentes, os olhos constantemente a escapulir-lhe para a porta. A doutora encolheu os ombros e abanou a cabeça de forma quase imperceptível, como se pretendesse a todo o custo evitar a propagação aérea de um vírus letal. “E agora o que vou eu escrever no relatório para o senhor doutor juiz, Cátia?”, perguntou incomodada. “Olhe, já nem vou ver mais nada, para não piorar a sua situação”, concluiu e iniciou o percurso de retorno.

Encostou-se à porta quando ela saiu e olhou à sua volta com o descaso crónico e dormente que habitualmente lhe toldava a realidade como um filtro. Atentou na profusão de coisas pelo chão, na cozinha caótica e imunda. Um embaraço inesperado e involuntário apressou-a para o quarto, mas também ali não encontrou lugar para o alívio. No espaço exíguo entre a cama de casal e a parede perfilavam-se duas pequenas camas de criança onde coabitavam lençóis revoltos e peluches desmembrados e encardidos. Ao canto, junto da pequena cómoda, numa caixa de cartão forrada com cobertores, um bebé de meses dormia o sono dos justos. Tentou ajustar o olhar à penumbra e mirou-se no espelho fosco. Viu uma mulher jovem de cabelo untuoso e escorrido, a cara ainda ligeiramente inchada do maldoso abcesso que a martirizava há semanas, a blusa verde salpicada de nódoas de papa já secas. Entalada no cós das leggings de padrão leopardo, uma fralda de pano tresandava a leite azedo.

E foi naquele preciso momento que a vergonha acomodada que habitava dentro de si começou a ser aniquilada por uma raiva surda, uma cólera impante e descontrolada que lhe gorgolejava na garganta e a fez gritar um NÃO irremissível (mas imaginário e silencioso, que tinha tido muito trabalho a adormecer o petiz). Nunca mais, pensou, se deixaria apanhar neste escrutínio aviltante, para sempre declinou esta humilhação consentida. E logo um ímpeto reformista a inundou, como a luz regeneradora de uma aparição litúrgica.

Arregaçou as mangas com tenacidade e olhou em volta, à procura de instrumentos para a renovação. Chegou-se à caixa de cartão onde o bebé dormia e com cuidado cortou uma das abas que pendia inutilmente para fora. Procurou um marcador e rabiscou no cartão algumas palavras. Marchou decidida para fora de casa, completou a tarefa e parou de novo, a mirar a obra. Escreveu mais algumas palavras e sorriu satisfeita. Voltou a fechar a porta da rua e suspirou de contentamento. Lá fora, no cartaz improvisado, preso às estrias de alumínio da porta, numa caligrafia infantil e desarticulada, podia ler-se: “Não recebemos assistentes sociais”. Mais abaixo, numa letra mais pequenina e encavalitada, como que para aproveitar o resto do espaço, dizia: “vendedores também não”.

MC

Estendal

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