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Morte Lenta – Carlos Santos

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O Secretário de Estado, João Costa, no programa Prós e Contras de 17 de setembro de 2018, comparando com os professores de outros países, asseverou: “Nós temos um problema sério de envelhecimento do corpo docente.”

Um discurso oco quando um ano transcorrido demonstrou que deixou tudo na mesma sendo conivente com os governos que se limitaram por decreto a aumentar a idade da reforma dos professores em perto de uma década (quase 15 anos no caso da monodocência – 1º ciclo) sem aferir o que isso representaria para o sistema educativo. Fizeram-no sem ter em conta a especificidade da profissão. Tomaram essa medida sem medir o impacto que iria ter na qualidade das aprendizagens.

Mas pior do que tudo, fizeram-no erradamente em mais um passo de governação de secretaria sem ir ao terreno conhecer a realidade que se vive nas escolas, agravado pela sua proveniência, não do ministério que tutela a Educação, mas da secretaria do ministério das Finanças. É por aqui que se mede o grau de responsabilidade de um país que gere o vital sistema educativo a partir de uma folha de Excel com base na pedagogia da despesa. Por essas bandas tudo se resume a despesa sabiamente administrada com a mesma mestria com que um exímio alfaiate, de tesoura na mão, de umas calças faz uns calções.

Não estamos a lidar com coisas, lidamos com gente colhendo a elevada erosão psicológica e emocional que isso acarreta. Com todos os problemas sociais a desaguarem nas escolas – as quais têm de resolver aquilo que o poder político e a sociedade no geral sacodem da sua responsabilidade – a pressão tem sido tremenda.

Crianças e jovens com uma descomunal lista de problemas advindos de famílias disfuncionais que encontram nos professores o único porto de abrigo para os ajudar, absorvem-nos diariamente.

Pais que se apoiam nos professores para a resolução de problemas com os filhos e entre si com os quais têm dificuldades em lidar fazem de nós conselheiros a tempo inteiro.

Isto, já para não falar da violência doméstica e infantil que nos sobrecarregam com um enorme fardo emocional impossível de largar e nos leva a ter de tomar medidas de ordem legal que nos sujeitam a represálias, ameaças e todo o género de envolvência socio-afetiva que se possa imaginar.

Somos profissionais obrigados a um esforço sobre-humano para lidar com tudo isto e diariamente apresentar o melhor desempenho com um sorriso nos lábios e a exigência de ter a cada vez mais difícil capacidade de motivar de hora a hora um grupo diferente de alunos, nem todos interessados pela escola.

A tudo isto se soma uma descomunal carga de burocracia que nos tem esmagado levando-nos para além do limite (nada que mais um comprimido não possa resolver) – um modo hábil de nos manterem absorvidos e incapazes de ter tempo para nos insurgirmos contra este estado de escravatura camuflada.

Um horário que nada tem a ver com as 40 ou 35 horas semanais que se vão discutindo para outras profissões, pois o trabalho efetivo roça as 50 horas e, nos momentos que precedem as avaliações de final de período, facilmente ultrapassa as 70. Essa discussão nada nos diz, pois há um trabalho que temos de cumprir, demore ele o tempo que demorar. Tomara nós podermos pegar ao trabalho a uma determinada hora e, chegando à hora marcada, pararmos, desligarmos e irmos para casa. Isso é utopia nesta profissão. Não se deixa um encarregado de educação a falar sozinho, um aluno desacompanhado ou uma reunião a meio, porque o relógio anuncia a hora de saída do trabalho. Uma novidade para quem não sabe o que é ser professor – nesta profissão não há hora de saída, só hora de entrada. É quase impossível desligarmos a ficha, pois levamos para casa o trabalho apegado a nós como um fumo pestilento que não sai da roupa. Entre a realização de grelhas, planificações e planos, preparação de aulas, testes para confecionar e corrigir, atas, relatórios e toda uma panóplia de intermináveis documentos que nos mantém a trabalhar gratuitamente em casa até toda a família já se ter cansado de esperar por nós e ter ido dormir, ainda sobram os problemas dos nossos alunos que levamos connosco para o travesseiro e nos tiram o sono.

Com a árdua tarefa de (tentar) ensinar alunos cada vez mais indisciplinados que não cumprem regras que não trazem de casa, pais que espelham os seus filhos, indo às escolas confrontar professores e assistentes operacionais, e uma tutela persecutória que só se lembra de falar dos docentes para os humilhar perante a opinião pública que habilmente manipula contra nós, não será de estranhar que estejamos a morrer aos poucos. Um assassínio invisível que nos vai retirando qualidade de vida e, cada vez mais frequentemente, a própria vida precocemente.

E a maior prova disso é a inacreditável quantidade de professores com problemas físicos e psicológicos.

Somos a classe com maior afluência a psiquiatria, com esgotamento e problemas de voz/garganta e audição, entre outros; a classe profissional com menor quantidade de casamentos e maior número de divórcios, fruto de vidas separadas pelo trabalho; de maior itinerância devido à permanente mudança de escola derivado ao constante corte no número de profissionais; de menor taxa de natalidade, pois vai-se adiando o aumento da família “sine die” à espera da chegada da tão almejada estabilidade profissional.

Segundo um estudo pericial muito recente, cerca de dois terços dos docentes já estão ou a aproximar-se de um estado de burnout, revelando uma realidade assustadora que a classe política e a sociedade tentam ignorar. A tenebrosa quantidade de professores de baixa prolongada, a trabalhar apoiados numa alta dosagem de medicação e tratamentos ou que, infelizmente, acabam por perecer em serviço, são o rosto de uma lúgubre situação profissional. E isto é muitíssimo grave num sistema que nos olha como apenas mais um número substituível, esquecendo-se do know-how que se vai perdendo e das vidas que se vão destruindo.

Não é surpresa atendendo a que cerca de metade dos professores no nosso país têm mais de meio século de idade e no ano passado apenas uns ínfimos 0,3% estavam abaixo dos 30 anos. A esta idade avançada dos professores portugueses, acresce a enorme instabilidade do corpo docente que está constantemente a varrer o alcatrão em viagens para o local de trabalho ou exilado longe da família em condições materiais pouco dignas e emocionais deploráveis. Tudo enferruja e um professor com 50 ou 60 anos não tem a mesma frescura que um de 25 para aguentar este género de sacrifícios sem que isso afete o seu desempenho profissional.

Não estamos a aguentar esta monstruosa pressão e uma sociedade casada com a hipocrisia vira a cara para o lado fingindo nada estar a acontecer. No seu lugar eu preocupava-me com tudo o que se está a passar com as pessoas a quem confiam diariamente os seus filhos.

Toda esta beligerância psicológica que invadiu os media que durante anos nos têm massacrado com um abjeto cardápio de calúnias e mentiras, aos poucos acabaram por nos arrastar para uma morte lenta. E isso vê-se diariamente na cara dos professores no constante estado de ansiedade, no desânimo e conformismo que abalou a classe. Perto de 15 anos de massacre a uma classe profissional está a dar o resultado que era previsível.

Exigem-nos que sejamos máquinas, esquecendo-se que somos apenas seres humanos e que, como qualquer outro cidadão, também nós temos as nossas famílias que têm sofrido imenso com tudo aquilo que esta profissão nos exige.

Por muito respeito e consideração que possam merecer todas as profissões, um professor não está a apertar parafusos ou a passar códigos de barras. Não perceber isto equiparando o desgastante trabalho de um professor a qualquer outra profissão, não só é um enorme desprezo pelo importante e exaustivo trabalho que um professor desempenha, como um desrespeito pela Educação e pelos alunos. Não é, pois, aceitável este prolongamento constante da idade de aposentação dos professores e a equiparação a qualquer outra profissão, não avaliando o elevado desgaste que a sua especificidade implica.

Os últimos governos têm-se empenhado em se livrarem de nós, de preferência sem terem de nos pagar a aposentação, cujo dinheiro que descontámos servirá para os desmandos e abusos que eles fazem com os descontos pecuniários que fizemos provenientes do nosso trabalho.

“Não aguento mais!” é o grito mudo que não ecoa para fora dos portões das escolas e que vai derrubando companheiros desta luta pela sobrevivência na necrópole que se tornou o ensino em Portugal.

Aguentar esta maratona até perto dos 67 anos é quase impossível e muitos, exauridos, estão a sucumbir por esgotamento. Cada professor que nos deixa em serviço por excesso de trabalho tem uma mão por trás que está bem identificada. Podem dizer que é apenas uma questão de adjetivação, mas para mim é um caso criminal que se opõe à ética e à dignidade; um “crime” com autoria legislativa e cumplicidade social.

 Carlos Santos

Fonte: FB

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