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Momentos Ko(vi)dak

Este pé que nos puseram para cá da ombreira da porta, que nos puseram em cima do peito é esmagador.

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Num tempo de adversidade, não estamos a saber extrair lições preciosas do que um trecho da nossa História presente, concreta e vívida nos pode capacitar. Ao invés, estamos todos nós, cidadãos, a dar continuidade, em casa, àquilo que é um modelo de sociedade selvático, sobretudo, fora do nosso lar. Apesar do recolhimento imposto, não estamos a permitir-nos usufruir de um tempo mais lento, mais arrastado, mais entorpecido, mas que nos catapulta, quase que obrigatoriamente, para a reflexão, para a reinvenção, para a criação e até para o sonho.

Foi-nos dada a oportunidade de diminuirmos o ritmo frenético das nossas vidas, mas nós, viciados que estamos na adrenalina do imediato, sem tempo de mastigação da rotina imposta, continuamos o dia-a-dia, em desvario, badalando em corrida trôpega, como ovelhas mansas e obedientes de um rebanho corrido pelo cão do pastor.

Carago!!! – como dizia o meu avô, quando sentia a injustiça de se ter acabado de sentar para  comer, exaurido do trabalho, e lhe vinham interromper a refeição a desoras, fosse a comadre, fosse um cliente, fosse quem fosse! Para tudo, havia um tempo, mas havia tempo também.

Carago!!! – digo eu, chamando a mim a  interjeição de fúria e frustração.

Para mim, também vêm a desoras. Como se atrevem a cá entrar, querendo-me impor o ritmo dos dias, pela bebedeira das plataformas digitais, pelos zooms e afins, correios eletrónicos entupidos, ficheiros perdidos, ficheiros achados, notificações de teams, invasões de webinar, notequalquercoisa, classroomxiripiti, WhatsApp de pais, WhatsApp de alunos, o Onedrive gravidíssimo, prestes a explodir, e agora o microfone que não funciona, a câmara que não funciona, e o computador (um só para tantos e tão poucos) que não quer funcionar?

Em bom português, raios partam esta porcaria toda!

Lembram-se da palavrinha inglesa, tão em voga, “overwhelming”? Não a usem, temos outras, boas, melhores, para descrever o que se passa nas nossas vidas, na invasão da nossa privacidade, com o nosso consentimento. Temos outras palavras, em lusitana língua, para rotular o ritmo imbecil e estúpido a que produzimos e reproduzimos componente letiva, atividades extracurriculares, lavar, passar e engomar, assistência a filhos, a netos, a sobrinhos e enteados, a maridos e mulheres, a mães e pais, a sogros e sogras, entre visitas a super e hipermercados, em ambientes nada asséticos nem desinfetados: Avassalador, Opressivo, Esmagador, Sufocante.

Este pé que nos puseram para cá da ombreira da porta, que nos puseram em cima do peito é esmagador.

Chove desalmadamente em Abril! E como chove. E que bom é que chova!

Que estas águas mil nos limpem, libertem e impulsionem para uma outra revolução – ambiental, educacional, cultural, social, económica – Revolução Civilizacional.

Aproveitemos a chuva para pensar!

E ler (faz-nos tanta falta ter tempo para ler).

16 de Abril de 2020

Joana Cerqueira da Rocha, professora

1 COMMENT

  1. Lapidar este texto, mas não acredito que as pessoas se toquem. Esta profissão tem evoluido de abuso em abuso, contando sempre com a falta de memória das pessoas, a sua incapacidade de se indignarem e a sua infinita capacidade de se resignarem. Não foi por acaso que este povo conviveu com 48 anos de ditadura que só acabou porque um punhado de homens se chegou à frente e um punhado de homens se chegou atrás para os deixar passar. O que os professores já foram, contando nas suas fileiras com intelectuais de relevo como Virgílio Ferreira e Rómulo de Carvalho, e aquilo em que deixam que os transformem, personagens de Kafka com talento para assistir administrativamente

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