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A minha maior preocupação enquanto professora, é a minha sanidade mental…

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A sociedade vê a classe docente como uma privilegiada, bem paga, que pouco faz, que resiste à mudança, que se recusa a ser avaliada e ainda exige uma idade de reforma antecipada. Esta é uma perceção generalizada distorcida e por isso, importa desmistificar algumas ideias feitas acerca da profissão e dos seus profissionais e num texto, que não se pretende exaustivo, tentar explicar as razões do descontentamento dos mesmos e a sua cota parte de responsabilidade para a sua atual situação.

Ser professor, para uma maioria, não é tarefa fácil. O professor é o único profissional, que diariamente, atende 25 ou 30 “clientes” ao mesmo tempo, de hora a hora, com diferentes exigências, necessidades e aprendizagens e às quais tem de responder com celeridade e da melhor forma possível. Este ensina, ouve os seus alunos, resolve problemas emocionais, psicológicos, de higiene, alimentares, disciplinares, sociais e ainda prepara aulas e cumpre com todos os requisitos burocráticos inerentes e exigíveis às suas atuais funções. Como eu costumo brincar, o professor tem uma dúzia de “gavetas” no cérebro, muitas abertas em simultâneo, com uma panóplia de problemas diferenciados, que vai resolvendo, que nunca têm fim e dos quais não desliga, mesmo tendo terminado o seu horário de trabalho. Não pode fazer todo o trabalho na escola porque o tempo não estica, nem as escolas foram concebidas com as condições para o desenvolver. Trabalha no meio de um ruído ensurdecedor e onde, não raras vezes, a sua integridade física e moral não estão salvaguardadas. É retrato diário vê-los a circular pelos corredores e escadarias das escolas, muitas vezes entre empurrões e correrias das crianças, carregados com a pasta dos livros, computador, colunas e outra infinidade de materiais, a maioria paga pelo seu bolso. Como não bastasse o desgaste e o stress diário do exercício da função, ainda temos um grupo significativo de pais, que pouco ou nada, colaboram com a Escola. Temos ainda, aqueles que não entendem que a Escola não é de todos, mas para todos, que os professores não são seus funcionários e que não têm legitimidade nem competências para nos dizer como devemos fazer o nosso trabalho. A nossa entidade patronal, o Ministério da Educação, adotou a filosofia do capitalismo selvagem, descapitalizando as escolas, quer no que respeita aos recursos materiais, quer relativamente aos recursos humanos. Alimenta-se da precaridade de um número substancial de funcionários. Reduziu não só drasticamente o número de professores, como o número de auxiliares de educação. Temos encarregados de educação a suprir necessidades básicas nas nossas escolas. O Ministério da Educação redefiniu, a seu belo prazer, a componente letiva dos seus profissionais, sabendo que estes pelo seu sentido de responsabilidade, cumpririam com todas as exigências, a expensas da sua vida pessoal e sem qualquer valorização monetária ou de outra natureza. Por falta de vontade ou cedências, recusa-se a optar por um modelo de colocação docente racional, justo e acabar com o excesso de direitos adquiridos de uma minoria. Mantém o congelamento e a progressão da carreira argumentando questões orçamentais, quando todos os dias assistimos ao desbaratar dos nossos impostos, ao desvio de dinheiro e à recapitalização da banca. Gasta dinheiro em programas para fins estatísticos de escolaridade, onde não se prevê uma certificação séria de competências, em tutorias que não resolvem os problemas dos alunos, em projetos de capacitação parental, em professores, atirados a meio do ano, para as escolas, para resolver problemas que carecem de abordagens antecipadas e de medidas concretas. Gasta ao pagar as sucessivas baixas dos professores porque perante a impraticabilidade de reduzir a idade de reforma, não entende reorganizar o trabalho docente e reduzir o número de turmas por professor, a partir de uma certa idade. Prepara-se para alterar as cláusulas contratuais dos professores relativamente à progressão, continuando a poupar à custa destes, em vez de ganhar coragem e tabelar um salário digno igual para todos os docentes. Fala de mérito, mas é incapaz de pensar num modelo sério de avaliação para professores, Dividiu a classe em professores titulares, partindo do pressuposto que tempo de serviço é o equivalente a mais competência. Criou um modelo eletivo do órgão de gestão das escolas, que em algumas delas, levou à instalação de verdadeiras oligarquias. Autonomia das escolas passou a ser sinónimo de municipalização. Desdobram-se ano após ano, em discursos, entrevistas, portarias, a propósito da importância da educação, mas apenas assistimos à vaidade pessoal, a um querer deixar o seu nome para a posteridade. São incapazes de construir um modelo educativo sólido e duradouro. As reformas são feitas a retalho, de forma parcelar, de acordo com interesses individuais e partidários, recorrendo a experiências com os nossos alunos e professores.

É este contexto de precaridade, de instabilidade, de desgaste, de desvalorização de desrespeito e de falta de seriedade e de credibilidade por parte da tutela que conduziu à desmotivação, ao desleixo, apatia e inércia de alguns, à fadiga de muitos, à sobrevivência do mais forte e do mais bem relacionado, ao aumento do desrespeito e da intolerância entre pares, à salvaguarda dos interesses individuais, à defesa de situações e posições indefensáveis, ao abuso de poder, à desconfiança, ao deixa andar, aos silêncios e aos medos. Feridos na sua dignidade, expostos a todo o tipo de ataques, fragilizados no exercício das nossas funções e sem uma rede de apoio sólida, facilmente reagimos mal a qualquer chamada de atenção para o papel que desempenhámos e como já foi dito inúmeras vezes, perdemos a consciência que a mudança começa por nós e ao nível local, ou seja, dentro das nossas escolas. Uma classe, da nossa dimensão, não tem de se sentir diminuída, nem esconder que tem, como em qualquer profissão, um número insignificante de professores que nunca deviam estar na profissão, que tem outros tantos, que se aproveitam da confusão e do brio profissional da maioria, para não cumprirem as suas funções e usam a incompetência como estatuto, além de todos aqueles que recebem o mesmo ou um melhor salário e pouco fazem. Muitas das injustiças, problemas e exigências que nos são feitas nas escolas, não resultam de qualquer diretiva da tutela. Cabe-nos a nós exigir a distribuição equitativa do trabalho, regras claras aplicadas a todos, ser ouvidos, denunciar, opormo-nos e unirmo-nos contra os abusos e as ilegalidades de uma minoria. É importante que impere o respeito, a responsabilidade e a empatia. Que aprendamos a confiar profissionalmente uns nos outros e que nos valorizemos. Um professor não deve precisar de ser vigiado para cumprir com o seu trabalho, nem deve precisar de ser obrigado por decreto, a aperfeiçoar as suas competências ou aquelas que resultam das mudanças e da evolução da educação. Somos nós, com as nossas experiências e perceções individuais divergentes que temos de ter capacidade para pensar, para além de tudo o que nos dá jeito, nas soluções e respostas à realidade com que nos deparámos todos os dias, ter uma visão global e um plano estratégico comum, para um projeto educativo centrado nos nossos alunos. Importa também “calçar os chinelos” dos encarregados de educação e de quem assume o órgão de gestão na escola. É o diretor/presidente que assume para o bem e para o mal o que se passa na escola. É um cargo solitário e para o qual é exigível uma capacidade extraordinária para lidar com um universo tão alargado e diversificado de seres humanos.

Penso que temos duas soluções, ou deixamos o barco afundar de vez, ou arranjamos maneira de nos unirmos e lutar pela nossa valorização, dignificação e higiene mental. Se efetivamente, é importante a questão do congelamento e progressão na carreira, para mim, a maior preocupação é com a minha sanidade mental. Sempre que olho para alguns colegas, fico atormentada, com o momento em que serei eu a arrastar-me pelos corredores, demasiado medicada ou quando ficarei mentalmente incapaz, como resultado do exercício desta profissão.

Cassilda Coimbra.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Gostei deste artigo. Gostei imenso. Informo que há dez anos atrás fui vítima de uma carrada de processos disciplinares, com falsas acusações, colocados pelo então presidente do Conselho Executivo do meu agrupamento de escolas, que por razões que desconheço, ou talvez, por não compactuar com certas … posições… e atitudes…, e ter tido a coragem de levantar a voz contra…, atitudes indignas de quem exerce um cargo tão importante na gestão de um agrupamento de escolas, reveladoras de má fé, má formação, para além de incompetência a todos os níveis, tudo isso me roubou de facto a saúde. Presentemente fui mais uma vez vítima de mais um processo disciplinar. E tudo isto com o compactuar de uma Inspeção Geral de Educação e um Ministério da Educação que não está interessada em averiguar a real causa, e a VERDADE, mas sim em investigar e tentar culpar a real vítima, que neste caso fui eu, culpando-me para espanto de todos, em processos ilegais, nulos, em que a matéria é dúbia, a uma multa de 1500 euros, ridícula, enquanto os reais prevaricadores entre outras coisas mais…, continuam impunes. Jamais recorrerei ao MEC, muito menos à IGEC, a fim de que me seja feita justiça, pois o meu caso, é mesmo caso de Polícia… e pelos vistos até há inspetores que são nomeados para os processos disciplinares de que sou e fui vítima, que estão envolvidos numa grande tramóias contra a minha pessoa. Para mim, o mau comportamento dos alunos, a falta de apoio dos encarregados de educação, é realmente coisa de menor importância, pois muito mais grave é o que se passa ao nível dos professores e dos inspetores e até dos diretores regionais do ministério da educação. Para mim, a legislatura de Sócrates, foi HORRÍVEL! E tudo o que se passou comigo é bem reflexo do quanto é”democrata” o nosso país. Perdi a saúde, mas recuperei para desgraça dos ditos, pois vão ter que provar tudo quanto andaram a fazer-me durante anos. Hão-de ter que responder por isso. E mais, penso que a real causa de tudo isto, para além da maldade, inveja, desonestidade intelectual, incompetência e toda a malvadez junta, fui e sou e sempre fui vítima de perseguição política… Não me venham dizer que a culpa reside só nos alunos e nos encarregados de educação.

  2. Concordo com esta declaração. Nós temos de dar outro tipo de resposta, uma alternativa que nos dê escolhas e soluções porque nós gostamos das nossas crianças e adolescentes. A escola deve ser pensada para eles e adequada.
    Por isso começo com uma proposta simples, uma escola de quatro anos e três ciclos. Para que se tenha os recursos realmente dedicados.

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