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Mi casa es su casa

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mi casaAs paredes, revestidas a azulejos de um amarelo desmaiado, estão salpicadas de peças coloridas, manifestações de pequeninas mãos artísticas de muitas gerações precedentes. As mesas, forradas com toalhas de plástico de quadrículas amarelas e brancas, perfilam-se na sala ampla como comboios na estação. Pela primeira vez em muitas semanas, as vozes pequeninas e os risos vibrantes estão de volta ao seu habitat natural.

Os primeiros a chegar ao refeitório são os pequerruchos do primeiro ano, logo seguidos dos do segundo. Hão-de acabar a refeição primeiro que todos os outros, para que possam, nos primeiros passos da grande aventura, almoçar mais resguardados do bulício geral.

A Dona Teresa e a Dona Anabela, fazendo jus ao estatuto privilegiado de dupla certificação de funcionárias zelosas e avós dedicadas, mantêm a ordem e amparam as mãos pequeninas nas rotinas do repasto. A tarefa é, a cada ano que passa, mais hercúlea. Em cerca de seis dezenas de petizes, contam-se pelos dedos de uma mão aqueles que deveras almoçam.

Uma pequenita franzina de fartos caracóis encrespados leva o prato nas mãos, deseja almoçar no parapeito da janela. Que não pode ser, diz-lhe a Dona Teresa. Os meninos comem sentadinhos à mesa, diz-lhe, e quando acabam podem ir brincar. Ela não quer sentar-se à mesa, quer estar à janela. Mas então…, torna a Dona Teresa. Não e não, solta a menina um grito choroso. A mãe em casa deixa. A avó também. Já um pequenito se senta no chão, o prato no amplexo das pernas cruzadas, um carreiro de massinhas e molho denunciam-lhe o rasto. Não se convence do despropósito. Lá na minha casa também faço assim: sento-me no chão da sala a jantar e a ver televisão. Não faz mal nenhum, pois faz?

Na mesa perto da porta, a ramboia alastra. Há pedacinhos de carne e de massa nos copos de água, na toalha e no chão. No pavimento entre as mesas um riacho de água pinga do jarro entornado. A maior parte dos rabiosques pouco sossega nas cadeiras. Há meninos de cócoras, outros ajoelhados no assento e maioritariamente espojados sobre a mesa, há pernocas para trás, pernocas para os lados, equilibrismos e expectáveis quedas.

Muitos dos garfos e colheres jazem imprestáveis ao lado dos pratos. Foram sumariamente substituídos por dedos que mergulham ávidos no prato e pescam as massinhas, levando-as à boca besuntada de molho. Alguns meninos seguram a colher com o punho fechado atravessado no cabo, esbarrando na inglória tarefa de abocanhar de través.

Um refeitório poderia ser, por excelência, um extraordinário observatório de interacções e comportamentos de uma sociedade. Poderia, digo-vos eu, constituir um instrumento de análise sociológica da mais rigorosa qualidade científica, no âmbito das variadas áreas das ciências sociais e humanas.

Todos os investigadores e estudiosos dos fenómenos sociais deviam, pelo menos uma vez no seu percurso académico, visitar um refeitório escolar. Talvez nos ajudassem a compreender em que momento funesto do nosso percurso de cidadania a civilidade dos gestos se tornou inimiga da espontaneidade da infância, que espécie de aziago fenómeno nos levou a considerar a candura das crianças incompatível com o saudável exercício da disciplina e da cortesia do convívio social.

MC
Estendal

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