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Metade Dos Professores Em Exaustão Emocional

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O estudo da Universidade Nova de Lisboa apresenta dados extremamente preocupantes sobre os professores portugueses. Além de quase metade apresentar sinais de exaustão emocional, mais de 20 mil afirmam que tomam medicação a mais para aguentar com o ritmo e exigência da profissão.

Se somarmos a estes dados, outro que indica que quase todos os professores querem reformar-se antecipadamente, podemos constatar que os níveis de motivação estão em níveis críticos.

O desprezo pela carreira docente, a burocracia elevada, o bullying cometido por sucessivas equipas ministeriais, a indisciplina, o excesso de horas laborais não remuneradas, a elevada idade dos professores, tudo isto potencia um burnout emocional que vai galopando a olhos vistos.

É este o tipo de pessoas que queremos ter à frente das nossas crianças e jovens? Não os queiram proteger e quando derem por ela já não têm professores para os alunos…

Alexandre Henriques

Alunos de turma do 7º ano em Beja sem professores para sete disciplinas

Cerca de 22 mil professores portugueses entendem que tomam medicação a mais e outros 9000 que consomem álcool ou drogas em excesso. Os docentes estão a usar estas substâncias como doping para conseguirem aguentar o ritmo de trabalho e as exigências da organização das escolas, conclui um estudo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL), cujos resultados completos serão apresentados nesta sexta-feira.

A investigação (que tem como título Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal) foi uma encomenda da Federação Nacional dos Professores (Fenprof) e já tinha tido uma primeira apresentação em Julho. Esta sexta-feira serão divulgados dados mais completos e será feita uma publicação com o conteúdo da investigação.

De acordo com este trabalho da FCSH, 18,7% dos professores preocupam-se com o seu consumo de, pelo menos, uma destas substâncias: medicamentos, álcool e drogas. Destes, a maioria mostra inquietação face ao consumo de medicação. Correspondem a 15,4% dos docentes. Em 2016 estavam ao serviço 145.549 professores – é este o valor de referência usado pelo estudo.

Outros 3,2% (cerca de 4600) dos docentes mostram preocupação com o seu consumo de drogas, a mesma percentagem dos que revelam poder estar a consumir álcool a mais. “Cerca de 3% apresentam consumos combinados de álcool, droga e medicamentos”, lê-se no documento que será apresentado no II Encontro Internacional sobre o Desgaste na Profissão Docente, em Lisboa.

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Os dados apresentados correspondem a autopercepções. Isto é, os professores revelam a sua própria percepção dos seus consumos, não havendo uma caracterização médica que permita perceber se estes são ou não excessivos e se há casos de dependências. O estudo apresenta uma margem de erro de apenas 0,5% e uma confiança nos seus resultados de 99%. Foram inquiridos quase 16 mil docentes.

Medicamentos, drogas e álcool são considerados no estudo não como substâncias associadas a consumos recreativos, mas enquanto doping. “Estas substâncias são usadas pelos professores para conseguirem acompanhar os ritmos de trabalho e a forma como se organiza o trabalho”, explica Raquel Varela, investigadora da UNL que coordenou o projecto. Os resultados mostram, defende, que há uma “percentagem elevada” de professores que estão a trabalhar “muito doentes”.

“Olhar com muito cuidado para estes dados”

António Leuschner, psiquiatra e presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental, alerta, porém, que é preciso “olhar com muito cuidado para estes dados”, evitando extrapolações, uma vez que o estudo não identifica o tipo de medicação que os professores consideram que estão a tomar em excesso. “É muito diferente falarmos de psicofármacos ou analgésicos”, explica. Ainda assim, admite que uma parte dos docentes possa, de facto, tomar antidepressivos em excesso à semelhança do que acontece com a generalidade da população portuguesa.

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O trabalho da UNL para a Fenprof mostra também que quase metade (47,8%) dos professores revela sinais no mínimo preocupantes de exaustão emocional — 20,6% mostram sinais “preocupantes”, 15,6% apresentam “sinais críticos” e 11,6% têm já “sinais extremos” de esgotamento.

Os investigadores cruzaram estes indicadores com os dados recolhidos sobre o consumo de álcool, drogas ou medicamentos e encontraram uma relação de “fortíssima dependência” entre as duas variáveis. Ou seja, os professores que se encontram em situação de esgotamento emocional extremo são os que revelam estar mais preocupados com os seus níveis de consumo.

Apesar de o estudo da UNL mostrar que os níveis de exaustão emocional existentes entre os professores portugueses são superiores aos registados na generalidade dos países com os quais é feita uma comparação, o recurso a medicamentos, álcool e drogas como doping tem indicadores “muito semelhantes” aos encontrados em outros países, refere Raquel Varela.

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Reformas antecipadas

De acordo com o estudo encomendado pela Fenprof, 42,5% dos professores não estão realizados profissionalmente. Essa é uma das três dimensões que permitem caracterizar uma situação de burnout. As outras duas são a exaustão emocional e a sensação de despersonalização (que se observa quanto um profissional que trabalha com pessoas começa a encará-las como “coisas”). Esta última aparece com uma prevalência muito baixa entre os professores (7,6%).

O estudo mostra também uma correlação entre o esgotamento demonstrado pelos professores e a sua vontade de encurtarem as respectivas carreiras. Quase 70% dos docentes inquiridos mostram uma vontade “muito elevada” de reforma antecipada. Se a estes acrescentarmos também aqueles que demonstram uma vontade “elevada” de deixarem de trabalhar mais cedo, o valor sobe para 84,2%. São “praticamente todos” sublinham os investigadores da UNL.

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Apenas 2,4% dos professores têm uma vontade “muito baixa” de se reformarem mais cedo. No mesmo sentido, 94,8% dos professores mostram-se favoráveis à existência de alterações legais no regime de reforma da profissão.

Fonte: Público

4 COMMENTS

  1. Sim. De facto estão a pedir-nos muito. Trabalho faz este ano 37 anos. Continuo a gostar de trabalhar com a generalidade dos meus alunos, mas tudo o resto que nos amarra aos corredores e salas dos estabelecimentos de ensino (reuniões de toda a espécie, trabalho de natureza letiva na componente não letiva entre muitas outras que todos nós conhecemos e sentimos muito bem!) faz-me ter energia para tentar, ainda, encontrar uma solução para poder “fugir” desta selva. Jovens não queiram ir para professores. E os que lá estão mas, ainda, forem jovens procurem outra coisa. Tudo é melhor. Tenho pena!
    Só quando quem nos tem vindo a governar entender que já ninguém (ou poucos) querem esta profissão talvez entendam o ponto a que se chegou. Mesmo assim tenho dúvidas. Quanto a mim continuarei a ter energia para tentar ir embora. Atenção que não falei de aposentação! Há várias formas de nos irmos embora.

  2. Concordo inteiramente com o que a colega disse. cada vez é mais frustrante ir para a escola. a minha paixão, desde sempre, foi ensinar. Agora, vejo-me envolvida numa teia onde a maior preocupação é dar espetáculo, é fazer projetos em todas e mais alguma disciplina. Enfim, onde se diz que se faz tudo e… não se faz nada. somos todos obrigados a trabalhar para um espetáculo onde se faz de tudo…menos ensinar/aprender. Abrir as aulas a uma nova realidade? Concordo! Mas,…é preciso fazê-lo com algum método e, sobretudo, com algum rigor. Voltámos à velha Área Escola ou Área de Projeto que, coitadas, tiveram os dias contados. pergunto-me: para quê regressar a modelos fracassados? Ligar os alunos ao mundo atual, à realidade local, regional, nacional, internacional que os envolve, não é difícil. É preciso saber fazê-lo. É preciso grandes projetos? É preciso abdicar do velho método de ensinar? NÃO. Basta aproveitar as notícias, as novelas, os filmes, os jogos do dia a dia para o fazer. Para quê acrescentar ao diário dos professores um desgaste desnecessário a “inventar” projetos que não levam a lado nenhum e que só engrossam as contas dos múltiplos explicadores “avulso” que se vão multiplicando por este país fora? Só desejo uma coisa: deixem-me ensinar, deixem-me trabalhar ( embora, eu só exista na teoria uma vez que voltei a congelar já que não tenho vaga no 7ºescalão o qual já deveria ter ultrapassado há muito). Estou exausta, desiludida e prestes a colapsar. Não sei quanto mais tempo aguentarei esta situação. Faço de tudo pelos meus alunos mas..não me peçam aquilo que eu não sou capaz de dar. DEIXEM-ME ENSINAR!”

  3. As colegas que comentaram anteriormente como está a EDUCAÇÃO em Portugal…
    Também eu com 38 nos de serviço e a fazer 63 anos de idade, estou cansada disto tudo!
    Só que sou apaixonada por aquilo que faço…mas não ponho em risco a minha saúde…
    BEM HAJAM OS PROFESSORES. Querem-nos “babás” para aturar de tudo a todos…

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