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Memórias Recentes Da Hostilidade Contra Os Professores

Quando o assunto é “prejudicar os professores” é curioso como se esquecem as diferenças e os mesmos do costume se unem para que a perseguição prossiga.

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«Hoje, num esplêndido dia de sol – vejam só – ocorreu-me que seria momento para me dedicar às lides da limpeza do pó. Ganhei coragem e subi a interminável espiral de degraus que finalmente se dissiparam no poeirento sótão das memórias onde me internei.
Por entre o livro esquecido da PAF PSD/CDS responsável pela dispensa de 33 mil professores, entre outras hábeis crueldades praticadas e a, ainda mais envelhecida, brochura socrática com um argumento aterrador escrito por Lurdes Rodrigues, que nos aporta para tempos de má memória em que protagonizou uma hostilização destruidora da classe docente, lá assomou nas minhas mãos o álbum com a compilação das memórias mais recentes cujo último capítulo agora se encerra. Qualquer um desses três testemunhos de outro tempo poderia perfeitamente constituir um belo epitáfio para os profissionais do ensino.

Comecei a folhear o aranzel de recortes e fui passeando o olhar por uns quantos:

20-7-2016 (in Arlindovsky):
Todos concordaram que é necessário um regime especial de aposentação para os docentes. Todos concordaram que esta profissão é merecedora de tal regime.
Propostas chumbadas, como já era de esperar… PS, PSD e CDS votaram contra.

23-4-2018 (in Diário de Notícias)
Parlamento rejeita criação de regimes específicos de aposentação para professores.
O projeto de resolução do PEV, que propunha um “regime transitório para a aposentação voluntária de docentes e educadores com 40 ou mais anos de serviço” foi rejeitado com os votos contra do PS, PSD e CDS-PP e os votos favoráveis do PEV, PAN, PCP e BE.
Com votação idêntica foi chumbado o projeto de resolução do PCP que recomendava a consideração de “regimes específicos de aposentação para os professores e educadores e de mais trabalhadores da administração pública”, alegando o impacto nos profissionais e na qualidade de ensino do “desgaste físico e psicológico” da profissão.

18-5-2018 (in Público):
Facilitação do acesso à reforma, Definição clara das diferentes componentes do horário, Concursos anuais e transparentes.
PSD, PS e CDS-PP chumbam alterações a concursos e carreiras de professores.

18-5-2018 (in WordPress):
Concursos anuais e transparentes… PS, PSD e CDS unidos contra os professores

25-5-2018 (in Jornal Económico):
Aposentação sem penalização do Fator de Sustentabilidade aos 63 anos.
PS junta-se a PSD e CDS para chumbar fim do corte de 14,5% às reformas aos 63 anos.

10-5-2019 (in RTP Notícias):
A Assembleia da República rejeitou esta sexta-feira as alterações ao decreto do Governo que previam a contagem de todo o tempo de serviço congelado aos professores, com os votos contra do PS, PSD e CDS-PP e os votos favoráveis do BE, PCP e PEV. O PAN optou pela abstenção.

Vencido pela falta de coragem para continuar a ler, fechei aquele compêndio de dolorosas efabulações. A tão familiar sensação de déjà vu arremessou o meu olhar para os outros dois álbuns bolorentos, editados em 2005 e 2011, que jazem no soalho áspero. Obras que se plagiam entre si comprovando que há coisas que nunca mudam. Quando o assunto é “prejudicar os professores” é curioso como se esquecem as diferenças e os mesmos do costume se unem para que a perseguição prossiga.

Na arte criativa de conjurar contra os professores, os três volumes deste macabro romance arquivam um manancial de infaustas páginas de entretenimento popular às custas da desgraça alheia.

Para atestar a legitimidade moral da criação de toda esta literatura maliciosa que visa unicamente a destruição dos direitos conquistados pela classe docente, em favor dos seus autores apenas existe uma ficha biográfica preenchida com suspeitas de corrupção e abuso de poder, contempladas com condenações ou investigações judiciais. Em qualquer caso, tudo gente insuspeita com decoro acima de qualquer desconfiança, o que lhe confere a autoridade moral para poderem criticar e julgar os professores.

Custa subir ao sótão e ter de enfrentar um mundo ferido de desolação, mas o bom de se vencer o medo e a calaceirice é a oportunidade de reavivar as anamneses sem ter de recorrer à colaboração do xarope para a memória ou à falsidade da memória seletiva propagada pelas máquinas partidárias que têm a cortesia de distribuir gratuitamente lixívia para lavar sótãos.

Contra a memória curta ou a preguiça de ir até às águas-furtadas, para renegar a embriaguez de toda a litania de promessas em segunda mão que já nos haviam sido feitas e repetidamente incumpridas e de propósitos maliciosos só desvendados após o saque do voto, a única arma de que dispomos é a memória dos factos.

Por isso, hoje foi dia de me refugiar no sótão para não ser atraiçoado pelo veneno da amnésia.

Fim da visita.»

 

Texto do colega Carlos Santos

3 COMMENTS

  1. Percebes que és espiado informaticamente quando os teus aparelhos não abrem apenas os sites onde costumas fazer comentários incómodos.

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