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Mediação Radioativa

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radioatividadeO que é mediar? É estabelecer uma ligação entre dois indivíduos/entidades que estão em planos diferentes e que permite ultrapassar um determinado problema/dificuldade. Até parece simples…

Desde que criei o ComRegras que comecei a aperceber-me que as escolas estão a apostar cada vez mais na mediação de conflitos como forma de combate à indisciplina. É sem dúvida um caminho muito interessante e a sua crescente utilização comprova a sua eficácia. Neste espaço temos a colaboração das excelentes Mafalda Branco e Mónica Soares que nos “medeiam” com os seus textos.

Não é que esta temática seja desconhecida para o comum dos mortais, é algo que até fazemos com alguma regularidade, seja no nosso local de trabalho, seja em casa, ou mesmo na nossa vida social.

Porém, nem todos têm essa capacidade, nem todos têm esse perfil, um perfil de quem está disposto a ouvir para depois reconstruir. Não é um defeito, é uma característica representativa das nossas diferentes personalidades. Há até quem considere a mediação uma treta, uma lamechice, um percurso ziguezagueante que não leva a nada preferindo uma abordagem mais direta e crua. Como eu disse, personalidades…

Quem opta pela mediação tem que estar consciente dos riscos que irá correr, mediar é como tocar em algo radioativo e é imperativo vestir uma capa protetora que impeça a sua contaminação. Para os mais inexperientes, lidar constantemente com os sentimentos mais negros da natureza humana, pode, a médio prazo, poluir a própria alma e não há nada pior que ter um mediador poluído, parcial, sem a lucidez necessária para estabelecer pontes e definir um caminho. A experiência é sem dúvida uma mais valia nesta área.

Mas nem mesmo para os mais experientes e que já fazem da mediação a sua rotina ficam imunes à sua radioatividade. Existem situações que são como que “cryptonite” para o mediador…

Uma ligação meramente profissional, permite o distanciamento emocional necessário para mediar de forma assertiva e eficaz. O mediador toma as rédeas da situação, define a estratégia e o caminho que ele e os envolvidos precisam de percorrer. Porém, quando maior é a sua ligação, maior é a dificuldade em ser imparcial, assertivo e eficaz.

Uma estratégia que é relativamente comum na mediação, é levar os visados a reconhecer as suas falhas, para que depois se inicie um processo reconstrutivo. Só que quando a ligação é demasiado próxima, quando do outro lado estão pessoas que conhecemos desde que nascemos e que são uma extensão de nós próprios, torna tudo muito mais difícil…

É a derradeira mediação, quando sentimos os conflitos alheios como se fossem nossos, quando tentamos estabelecer pontes e não conseguimos sequer mediar o nosso próprio espírito, tornando todo o processo tão doloroso como inútil. Só nos resta um caminho, tornarmo-nos sacos de pancada, aguentando cada frase como se fosse um soco, batemos o pé, mordemos o lábio, apertamos os dedos e aguentamos até ao fim.

E depois? Quando toda a raiva e frustração foi descarregada o que fazemos? Nada, simplesmente nada… O ciclo tem de terminar ali… Só resta tratar das feridas e para quem tem essa possibilidade usufruir da ajuda de quem é inocente, puro e só tem luz dentro dele(a)…

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2 COMENTÁRIOS

  1. Interessante artigo que me deixou pistas de reflexão . Alguma perplexidade quanto ao que diz sobre a “derradeira mediação”. A ideia com que fico é que essa não é mediação , é sacrifício. Deixar as trevas triunfar, nem que seja por um filho, não é já mediar, é outra coisa, só mesmo para santos. Desculpe se interpretei mal, acontece-me frequentemente, mas li o seu texto duas vezes e achei que poderia partilhar esta minha reflexão.

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