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Mediação de Conflitos – Por onde vamos?

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POR ONDE VAMOS?

guerraÉ impossível fugir ao tema, trabalhando na escola e sendo Mediadora. Nas últimas semanas, a violência chocou-nos, gerou ondas de revolta e medo, preocupou pais e educadores, esteve em toda a parte. Estive atenta a tudo isto. Ouvi os miúdos na escola. Ouvi adultos. Li comentários e notícias, comentadores especialistas e outros nem tanto. [Há muitas pessoas a falar sem saberem o que se passa numa escola.] Falei com pais e com colegas. Pensei muito só para mim.

Infelizmente, nada disto é novo para quem todos os dias trabalha com jovens. Basta ouvir como falam uns com os outros, connosco próprios, como se relacionam nas redes sociais, como resolvem os problemas (muitas vezes não só com violência com o outro, mas consigo próprios de várias formas). Mas também basta estarmos atentos aos adultos, peça fundamental em todo este processo. Basta ler os comentários a estas notícias. O mais comum foi responder com violência. Incitar à violência contra quem foi violento. Querer fazer justiça pelas próprias mãos. Um sintoma poderoso do que se passa na nossa sociedade… Muito pouco se falou de paz neste processo. Muito pouco se falou do que nós, adultos, temos como responsabilidade. Do que devemos e podemos fazer. É fácil apontar o dedo ao elo mais fraco. E a verdade é que o elo mais fraco são as crianças. Não estou a desculpar o comportamento ou a dizer que não devem ter consequências, pelo contrário. Mas isso chega? Isso resolve o problema e o que nos assusta nestes e em tantos casos que conhecemos? Não. Responder à violência com violência só gera mais violência, mais ódio, mais vontade de vingança, mais revolta. É preciso encontrar formas de quebrar estes ciclos de violência. Como? Pela prevenção, que inclui não só trabalhar com os miúdos, mas também com os pais e com as comunidades. Pela educação para a paz. Parece utópico hoje falar de paz. Parece fora deste tempo. Mas é precisamente em tempos como os que vivemos que se torna mais urgente e necessário promover a paz. «É urgente destruir certas palavras,/ ódio, solidão e crueldade,/ alguns lamentos, muitas espadas.» (Eugénio de Andrade)

A mediação em contexto escolar é uma das formas de promover a educação para a paz, de desenvolver a comunicação não-violenta e competências de relacionamento interpessoal e de contribuir para uma resolução mais positiva dos conflitos. Da minha experiência como mediadora na escola, sinto que muitas vezes os alunos não sabem resolver as suas divergências a não ser pela violência (física, nas palavras, psicológica…). Ouço com frequência “eu vou lá, dou-lhe um murro e pronto, fica resolvido” ou “então, ela chamou-me nomes e eu também fiz o mesmo, é justo”. Estes são os modelos que têm. As referências. Pelos mais velhos, pelos jogos, pelas séries ou mesmo pelas notícias que entram casa dentro à hora das refeições. Por exemplo, de que forma pais, escolas, educadores trabalharam com os mais novos este vídeo “viral”, que todos conhecem e de que todos falam? É preciso ensiná-los, trabalhar com eles, proporcionar-lhes a possibilidade de aprenderem a fazer diferente. É preciso tempo para ver resultados, daí ser tão importante apostar na prevenção e começar a trabalhar desde muito cedo estas questões, com os mais pequeninos. E, por último, devemos parar e refletir sobre o que andamos todos a fazer. Ou talvez mais sobre o que deixámos ou temos vindo a deixar de fazer. Com os miúdos. Uns com os outros. Connosco próprios. Talvez assim encontremos algumas respostas e, sobretudo, soluções.

Mafalda Branco

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