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Como se mede o valor do professor?

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imperador_professorÉ difícil aceitar o valor do que não tem visibilidade. Em tempos que correm, todos somos avaliados pelo que é visível do que produzimos. Procuram provas do que acrescentamos, quantificar o que damos. E se o que fazemos não fosse mensurável? Ainda assim teria valor? Se, por dedicação à verdade da sua profissão, o professor assumisse que fará só o que favorece o aluno, sem se preocupar com a medição do valor do que faz nascer no aluno? Qual seria a sua opção? A que dedicava mais atenção? Vou arriscar responder por si. Calava mais, ouvia mais. Conversava com os meus alunos, ouvia os seus anseios. Muito professores sentem que não têm tempo para os conhecer, tal é a pressa em cumprir calendário.

Vamos supor que na próxima segunda feira chega à escola e as regras mudaram. Confiam no seu saber, não lhe vão exigir provas. É livre para alimentar o espírito dos alunos, a curiosidade pelos temas do seu interesse. Nem precisa de ficar na sala, pois também ninguém lhe exigirá isso. Pode sair, sentar-se na relva para falar sobre botânica ou para ler os Lusíadas ou para conversar com os alunos sobre uma preocupação que lhes assombra o espírito, que por acaso não vem nos manuais mas vem nas suas vidas. Por ir passear com os alunos para a rua e observar o a realidade está cheia de matemática, de português, de história, de biologia ou física. Podem ter conversas interessantíssimas sobre tudo aquilo que se passa na vida real, aquilo que acontece enquanto estão fechados nas salas.

E se os alunos pudessem relacionar-se consigo como mentor, modelo inspirador, o mestre que espera que eles se tornem melhores seres humanos, que o admiram pelo significado que percebem nos seus gestos, nas suas palavras? Como se sentiria, caro professor? Inspirado, talvez. O que isso faria de si? Melhor, com certeza. 

E se, por convicção, decidíssemos que tudo o que nos move é o que nos movia no início da carreira? O que mudaria amanhã? Quem estaria ao nosso lado? Quem nos olharia nos olhos e nos diria “admiro-to pelo que fazes, não pela tua visibilidade”?

Provavelmente este será o último reduto do que é ser professor. Quando fazemos o que fazemos pelo que sabemos ser o seu valor efetivo, quando realizamos os sonhos dos outros realizando os nossos, quando acrescentamos valor aos outros valorizando-nos a nós próprios, então somos plenos.

Porque se só ensinamos o que é mensurável, o essencial fica de fora. O valor do professor não se mede nas pauta, está na relação que estabeleceu com os seus alunos.

O meu desejo secreto é que a longo prazo não seja possível medir o contributo do professor. Só se saberá pelas histórias que os seus alunos contarão aos filhos, numa noite de Natal. Saberemos qual foi a medida do nosso contributo pelas pessoas que nos cumprimentam com deferência com um leve aceno de cabeça, pelos sussurros à nossa passagem “foi meu professor!”. Sentiremos que estamos rodeado de amor e agradecimento, que todos querem beneficiar da nossa companhia, nem que seja dos preciosos silêncios.

Então saberemos que o que nos levou a escolher o ensino é o que nos mantém aqui até hoje.

 

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura

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