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Máscaras? Medidas de protecção? As escolas fazem o que podem – João André Costa

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Se há uma semana a preocupação andava ao redor da não obrigatoriedade do uso de máscaras nas escolas do Reino Unido, passada essa mesma semana deparamo-nos com a realidade portuguesa onde, e apesar da obrigatoriedade, as limitações, para não dizer os perigos, estão à vista de todos.

Comecemos pela dimensão das turmas, sempre à volta dos 30 alunos, para não dizer 36 alunos e um professor numa sala de aula cujas janelas serão sempre insuficientes para ventilar tantas almas a respirar no mesmo espaço. E quem diz numa sala de aula também diz num contentor, ou não estivesse a escola em obras há cinco anos, quatro para além do previsto.

O distanciamento físico entre alunos? Não há mesas individuais para todos, os quais não têm outro remédio senão sentarem-se lado a lado nas mesas de sempre mas, atenção, com fita-cola ao meio para separar os espaços de cada um. Acrílicos? Não há dinheiro.

Assim como não há dinheiro para mais funcionários e, por conseguinte, não há capacidade para higienizar as mesas e cadeiras a cada intervalo. E não havendo funcionários nem recursos para substituir os que estão doentes e/ou com filhos doentes em casa, também não há capacidade para limpar as casas de banho duas vezes ao dia sem esquecer, igualmente duas vezes ao dia, todos os corrimãos, maçanetas e interruptores da escola. Quem limpa o que pode quando há tempo é o professor que tem a família à espera em casa e não lhes quer pegar nada.

Voltando ao uso de máscara pelos alunos, está tudo bem até tocar o telemóvel, dentro ou fora da sala de aula, sendo que em qualquer das situações o aluno atende, sem máscara, pois claro, senão não se percebe nada. “Shiu”, diz para a professora de indicador furioso na boca, e como a professora já tem quase 40 anos disto e não está para ameaças sem esquecer o pneu furado e o olho negro ao chegar a casa, mais vale deixar o rapaz ao telefone e delicadamente pedir-lhe que termine a chamada lá fora, ao que ele anui. Ufa.

Lavar as mãos? Se nas escolas já há muito se queixam da falta de papel higiénico, ao fim de uma semana já pouco sobra de álcool gel, encomendar mais só no fim do mês e a lista de espera para entregas é ainda maior. Encomendar já? Já disse, não há dinheiro e a senhora da secretaria está de baixa em casa que o filho tem tosse e só volta, assim esperamos, daqui a duas semanas.

O ensino, não esquecer, é inclusivo, mas o pior é explicar ao miúdo que sofre de autismo profundo a necessidade do uso de máscara, prontamente feita em pedaços, para não dizer pior. E naquela turma há outros três como ele. E ensinar numa turma assim? Já há muito tempo que não se ensina, cabendo ao professor a gestão do espaço de aula, turma a turma, hora a hora e dia a dia até à, há muito ansiada, reforma final. Há quem não chegue lá, mas isto são outras conversas.

Quanto aos intervalos e à hora de almoço numa escola com o limite de 89 turmas, mas este ano com 94, é de todo impossível manter qualquer distanciamento físico nos corredores — e então quando chove ainda menos. Circuitos de sentido único? Estão marcados no chão mas como os alunos são tantos não se vêem e os funcionários já sem voz de tanto gritar.

O espaço do bar mais parece uma sala de concerto dos tempos do antigamente com os miúdos todos ao molho e fé em Deus e na cantina os mais velhos sentam-se à vontade, qual take-away qual quê, não havendo quem se lhes dirija pelas razões supracitadas, ergo o pneu furado e um olho negro. Ao menos os meninos não passam fome. Estes, pelo menos, ou não fosse a escola ainda o lugar onde muitos comem a única refeição do dia.

Máscara? Só têm se lhes dermos e muitos são os professores a desembolsar o dinheiro para que os miúdos possam entrar na escola. A máscara, claro, é a mesma todos os dias.

As aulas de Educação Física? São feitas de acordo com todas as regras, distanciamento de três metros entre os alunos, pequenos grupos de cada vez, higienização dos materiais, tudo. O pior é nos intervalos quando os miúdos estão todos a jogar à bola e lá vai o distanciamento pelo cano abaixo.

Os namorados? Lá os vamos apanhando aos beijos e enrolados atrás do pavilhão A, para não dizer nas casas de banho onde só pode estar um de cada vez e quando não têm máscara ainda é o menos.

Voltando às máscaras, as que são da moda e de marca andam de mão em mão, que é como quem diz de boca em boca, trocadas a bel-prazer entre alunos mais preocupados com selfies, TikTok e Instagram do que outra coisa qualquer. Inclusivamente, já temos influencers com 12 anos que não podem perder tempo com a seca das aulas. Mas isto também são outras conversas e o pior são os pais que lhes deram um telemóvel para as mãos.

O mesmo não podem dizer os alunos asmáticos, para quem o uso de máscara não é apenas um sufoco mas também a causa da asma, bastando às vezes um pouco de pó. A solução é óbvia, não podem andar de máscara. Quanto à restante população escolar, a conversa é a de sempre entre narizes de fora, máscaras no queixo, penduradas na orelha ou a servir de cotoveleira.

Sejamos francos, as escolas fazem o que podem e quanto ao resto é uma questão de tempo. Basta olhar para os portões dos estabelecimentos de ensino ao fim do dia e centenas de alunos amontoados sem máscara nem distanciamento para nos acudir e então nos transportes nem se fala.

A máscara obrigatória é mesmo para inglês ver, é um adereço e eu queria que não fosse assim, mas é, eu queria distribuição gratuita e ilimitada de máscaras, eu queria não ver ninguém a tocar na máscara ou na cara ou no nariz, a comichão, a impressão, o calor, eu queria muita coisa, inclusivamente, e acima de tudo, não queria um vírus, mas a realidade é esta.

A realidade é esta, uma realidade onde estamos todos a fazer de conta e a fazer de conta que vai ficar tudo bem. E enquanto assim for, continuaremos a ir para a escola e a ensinar, na medida do possível, pois claro. Até deixarmos de fazer de conta.

Fonte: Público

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