Home Editorial Mas quem é que manda? Os professores ou o Excel?

Mas quem é que manda? Os professores ou o Excel?

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Farto de ficar até às tantas a fazer contas e continhas?

Sofre de alergia aguda à regra de 3 simples?

A sua calculadora precisa de uma reforma?

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Agora a sério.

interrogacaoTudo o que é professor está neste momento em ponto de caramelo. Passaram o último fim de semana – ainda por cima esteve um tempo magnífico – de pijama/fato de treino com o chá/café ao lado, tentando cortar a meta da entrega de notas para que os nossos caríssimos DTs recebam as classificações a tempo e horas de modo a “sobrevivermos” ao conclave que irá imperar na próxima semana…

Nesta árdua tarefa, o professor tem um aliado de peso e de seu nome Excel, uma autêntica bimby informática que só precisa dos ingredientes certos e “tcharam” dá uma nota bem quentinha.

Como sou professor há quase 15 anos, não tenho noção de como seria o processo avaliativo na era não digital. Será que os professores faziam tudo à unha e com tantos parâmetros avaliativos? Uma coisa é certa, se não fosse o handyman do Mr. Excel, iria gastar o dobro do tempo para atribuir as minhas classificações. É que “X” por cento disto, “Y” por cento daquilo, “Z” por cento daqueloutro, mais os diferentes itens avaliados em períodos anteriores -cumprindo com o modelo de avaliação contínua- é o cargo dos trabalhos, principalmente quando se tem entre 150 a 300 alunos.

Mas este faz tudo que só não vai às reuniões por nós, pode deixar os professores literalmente “agarrados”, sem capacidade para ver o que está por de trás da classificação. Num mundo em que papás e mamãs andam numa caça às bruxas, reclamando por tudo e por nada, pondo em causa o juízo do professor só porque a parte interessada vai para casa “chorar” a música do coitadinho, ignorando as justificações de quem até percebe um pouco desta coisa que se chama educação, pode levar muitos professores a seguir à risca o que a bimby informática cozinha, por exemplo: numa escala de avaliação de 1 a 5, um aluno avaliado com 49% terá 2 e outro com 88% terá 4. Limpinho, sem salpicos…

São apenas dois exemplos e ninguém pode dizer que está errado, a matemática nestas coisas é uma chata que nunca se engana e raramente tem dúvidas… Pode vir o recurso de nota que quiser que servirá apenas para professores juntarem-se mais uma vez, “malhando” em cima do pai/mãe que ousou por em causa o seu juízo.

Mas ser professor é isto? Avaliar é isto? Reduzirmos o nosso papel a um mero resultado matemático?

Sim… O 49% ou 88% são o resultado de inúmeros parâmetros de avaliação, que avaliam o aluno não apenas numa componente cognitiva, mas também cívica. Se queremos distinguir alunos, se queremos implementar o modelo social que vigora, temos que ser rigorosos para que os futuros homens e mulheres deste país percebam que por uma décima se ganha e por uma décima se perde. Vejamos o modelo de entrada para as faculdades, ou a importância que o procedimento de défice excessivo tem nas nossas vidas, e basta uma décima para tudo mudar.

Seria excelente, seria… se queremos que a educação seja responsável por robôs de coração quadcore  e cérebro de não sei quantos terabytes.

A nota é pedagógica, repito, a nota é pedagógica, ou pelo menos deveria ser. Tenho alunos com 85% que terão cinco, como tenho alunos de 71% que terão três. Quando dou uma nota, passo uma mensagem, e essa mensagem está dependente do momento, do perfil psicológico do aluno e do que ele precisa de ver na pauta para melhorar o seu desempenho. Como costumo dizer aos alunos, tudo o que lhes digo é para o bem deles, mesmo que não lhes agrade, mesmo que doa, e por vezes tem de doer… Por isso afirmo que o professor já não é um mero debitador de matéria e julgador de dados, um professor é e tem de ser sempre um educador.

A escola é um momento de preparação para uma sociedade altamente competitiva e injusta. Temos de moldar os nossos jovens a lutar contra a adversidade, incutindo valores como espírito de sacrifício, perseverança e consistência. Claro que não podemos pegar num 60% e dar negativa, haja bom senso, mas nos limites das escalas impostas, saibamos ensinar com os números…

Mas atenção… Há também aqueles que sofrem de uma alergia tremenda aos factos. Pegam nos testes, fazem a média, olham para as carinhas larocas, lembram-se daquela aula, boa ou má, e siga farinha amparo, levas um, dois, três, quatro ou cinco, porque sim, porque eu sou PROFESSOR e eu é que sei.

Convém lembrar que a nota é proposta e que é o conselho de turma que a valida, e convém também lembrar que o professor pode ser obrigado a justificar a dita perante os seus colegas e em regime democrático existem aquelas coisas que se chamam normas que quem as apregoa também precisa de as cumprir. Critérios de avaliação, aprovados pelo conselho pedagógico e mais altas instâncias, são uma realidade e quer se goste ou não goste são para cumprir. Não há nada pior que “prima-donas” de livro de ponto na mão que se julgam acima dos outros como se fossem detentoras de toda a sabedoria.

Recomendo um chazinho de humildade, com uns cubinhos de sensatez que são tremendamente eficazes no combate à azia e úlceras de mau feitio.

Boas reuniões 😉

7 COMMENTS

  1. Alexandre, se é pra seguir critérios de avaliação, é para os seguir. Não deveria ser à vontade do freguês, como referes. Mas isso também deve ser igual nos casos que referes… No entanto, temos de ser humanistas e saber que um aluno não se resume a um número. No entanto, todos também sabemos que há sempre algo que podemos fazer nesses casos, que é mexer na parte mais subjectiva dos critérios de avaliação: a avaliação das atitudes e valores (ou lá como quiserem chamar-lhe). Aluno tem 48% mas achamos que merece um 3, basta aumentar nesse parâmetro. Da mesma forma, se um tiver 52% e achamos que merece um 2 (muito comum no 2o período para a “salvaguarda” do professor), podemos sempresa baixar nesse parâmetro.
    Já agora, que pensas sobre essa “salvaguarda”, ou seja, sobre a quase (?) proibição de 3-3-2?

    • Olá Bernardo. A avaliação é contínua e se tivermos em conta que um aluno teve um 51% no 1º período, 50% no 2º período, e 30% no 3º período, pode perfeitamente ter 2 no final do ano. Aliás, eu já tive numa CT em que um aluno passou de 4-4 para 2 e vimos as grelhas e estava tudo certo. Como disse, as grelhas são a melhor salvaguarda de um professor, podem até lhe mudar a nota, mas não podem dizer que ele estava a cometer alguma ilegalidade. Mas como tudo na vida, bom senso q.b deve ser a receita. Um abraço

    • Presumo que isso seja uma piada, certo? Porque o que muito se vê, ficando tanto do diretor de turma e diretor da escola muito felizes, são esses 2-2-3, as recuperações fantásticas de muitos alunos no último período.

  2. A tabela de Excel é e será sempre uma aproximação da nota real, nunca a nota real. Assim, não seria preciso o professor avaliar, qualquer funcionário com conhecimentos básicos de office avaliaria os alunos…

  3. Uso estes grelhados, que operacionalizam os critérios de avaliação seguidos no meu agrupamento, há muitos anos. Nunca desci a nota de um aluno. Muito esporadicamente, como as grelhas não são uma vaca sagrada, altero as notas finais. Mas nunca para as descer. Só para beneficiar. 🙂

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