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Mas afinal para que serve a escola?

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Para que serve a escola

Hoje, na minha viagem pela imprensa diária, deparei-me com o projeto de musicoterapia “De que som sou feito?”, que está a ser implementado em  escolas de nove agrupamentos do concelho de Santa Maria da Feira.

Imediatamente captou a minha atenção por se tratar de um programa para crianças e jovens com necessidades educativas especiais (ou não fosse essa a minha área de formação), que frequentam do 5º ao 12º ano.

Ao ler o artigo fiquei deliciado por constatar os moldes em que está a ser aplicado, e por reconhecer que o caminho ali seguido é na verdade o movimento que o nosso sistema de ensino precisa de fazer na sua globalidade. “Nestas sessões, em que o limite é de oito alunos na mesma sala, não há receitas. É preciso estar disponível e atento ao que acontece a cada segundo. “É um espaço de partilha. Falamos dos amores e desamores, situações de casa, improvisamos letras e vem ao de cima o que se pensa. A música é um veículo que permite essa exposição emocional (…) Temos de conhecer o grupo como ele é. As sessões têm um carácter dinâmico e muito livre e é nessa liberdade que os meninos trazem muita coisa”. É preciso, portanto, muita atenção para decidir o que fazer. Olhar, sentir o grupo, ver como as coisas estão e dar seguimento consoante as necessidades. Temos de pensar no bem-estar deles”.

As aprendizagens são um processo de vinculação emocional e requerem disponibilidade dos intervenientes na sua multiplicidade de funções no processo de ensino/ aprendizagem. A escola expositiva em que o professor se apresenta perante o grupo e debita é uma realidade que, embora ainda muito presente, representa um sistema de ensino cristalizado e que não se adequa às dinâmicas e exigências sociais. A palavra “significância” tem de assumir a posição central no sistema de ensino. Não pode ser uma significância imposta por alguns para todos bebermos.

De nada serve dizermos que a matemática é importante se depois o que é ensinado não se traduz de forma visível na prática do dia-a-dia. De nada serve obrigar um aluno a estudar Francês, porque foi outrora muito importante, pois o aluno até entende que o Mandarim lhe fará falta no futuro. Na verdade temos as escolas povoadas de crianças e jovens que se questionam – mas afinal para que serve a escola?

Para estes a resposta é, tão simplesmente… para nada!

Durante seis anos (o tempo que estive num colégio de educação especial e em que os alunos que chegavam traziam as cicatrizes de uma escola que não lhes dava resposta e de uma sociedade que os afastava) todos, sem exceção, faziam esta pergunta à chegada e invariavelmente o meu principal trabalho de início de ano era atribuir significância ao tempo que estes estavam na escola (nas salas, nos corredores, com os colegas, com os assistentes, ao almoço, no recreio…). Pouco a pouco, com o decorrer do ano e o passar do tempo, as cicatrizes esbatiam-se até aos limites da possibilidade e a raiva, as defesas e a angústia davam lugar à curiosidade e à postura de trabalho.

Também aqui, a musicoterapia assumia e assume um papel central no desbloquear das emoções e na construção de um eu mais organizado e disponível para aprender. Os alunos sentem a pertença a algo e reconhecem a significância do que lhes damos. Ainda este fim-de-semana um antigo aluno me dizia, por correio eletrónico e com um discurso orgulhoso: “professor estou a fazer o meu curso, é difícil, mas eu consigo”. Claro que consegues, por muitas dificuldades que tenhas, só não consegues o que não quiseres e cá estaremos nós para o(s) aplaudir depois de todo o trabalho na superação das suas dificuldades.

Neste pequeno mundo insano, que muitos podem interpretar como idílico pelas minhas palavras, mas que eu tive e tenho o privilégio de viver, não existe indisciplina, má educação ou absentismo, existe uma inquietude constante de todos os intervenientes (professores, assistentes e alunos) para procurar o caminho e construir a significância de viver, primeiro a escola e depois a sociedade, em cada um de nós.

Consulte aqui o artigo citado:

O tambor que imita o mar acalma crianças e jovens que precisam de atenção especial

4 COMMENTS

  1. Por isso digo que as expressões têm um papel tão importante para o equilíbrio emocional e motivacional do aluno. A música é um parente ausente e bem que merecia estar mais presente…
    Obrigado pelo artigo Mário 😉

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