Home Escola “Mas afinal, porquê só o pré-escolar? E porquê o pré-escolar?”

“Mas afinal, porquê só o pré-escolar? E porquê o pré-escolar?”

39014
3

Estou zangada. Dececionada. Triste. Depois de fazer um sacrifício de estar fechada em casa desde o dia 13 de março, de tanto se falar no distanciamento social, nas medidas necessárias do uso de máscaras, da necessidade de se poupar as pessoas de risco à exposição, de separar os netos dos avós porque estes últimos são pessoas de risco. Eu que já não estou com o meu filho mais novo desde essa altura. Eu sei que ele já é adulto, mas continua a ser meu filho.

Depois de todas estas recomendações manda-se abrir o pré-escolar a 1 de junho e manter os meninos o mais possível ao ar livre. Eu sou uma pessoa de afetos. Gosto de os abraçar e receber os abraços deles. Gosto de pegar neles ao colo quando estão tristes e dar-lhes os mimos que estão a necessitar. Só criando essa empatia com os meus meninos, consigo ter com eles uma relação de grande confiança. Adoro a minha profissão de educadora de infância, e fico feliz quando em tempo de mudança de práticas educativas, citam o pré-escolar como um exemplo de boas práticas pedagógicas.
Mas fiquei abismada quando ouvi hoje dizer que o pré-escolar tem de abrir e criar atividades o mais possível ao ar livre. Sei que mesmo ao ar livre temos milhentas atividades interessantíssimas para fazer com os nossos meninos. Mais do que dentro de 4 paredes. Mas quando descobrem alguma coisa nova, todos querem ver, e lá se vai o distanciamento.

Mas se o aconselhável é que as crianças não estejam com os avós porque já pertencem a um grupo de risco pela idade e doenças associadas, acho que os nossos governantes estão a esquecer um estudo feito e confirmado pelo Prof. Filinto Lima (Associação Nacional de Diretores de Agrupamento e escolas públicas) que afirma que o grupo das educadoras era o grupo mais envelhecido da classe docente. Muitas de nós somos avós e temos netos e estamos sem os ver há 2 meses. Mas podemos ir “tomar conta” dos netos dos outros (alguns avós são mais novos do que nós). Sem esquecer a nossa idade, acrescentamos as doenças inerentes à idade e que têm sido motivo de muito absentismo ao trabalho e à constante mudança de educadora e nos efeitos que isso provoca nestas idades.

Sinto-me revoltada, pois inicialmente foi atribuído aos pais um subsídio para acompanhamento domiciliário aos filhos até aos 12 anos. Mas o corte a esse subsídio é só para os do pré-escolar. Quem tem irmãos nessa faixa etária , vai ver os irmãos ficarem em casa, pois esses ainda não vão para a escola.

Mas afinal, porquê só o pré-escolar? E porquê o pré-escolar? Como manter a distância necessária com crianças dessa idade e com 25 crianças por sala? Como não afagar uma criança que vem ter connosco a chorar e a precisar de um pouco de amor e afeto corporal? Porque temos um programa para cumprir? Não, não temos. Deve ser porque temos de entreter meninos, limpar rabinhos, limpar narizes, dar afeto ( com uma máscara na cara )? Deve ser a isso que foi reduzida a nossa profissão.

Lutei contra um cancro, regressei ao trabalho, com muito custo, mas muita alegria. Mas como me diz o meu médico, tenho a minha imunidade comprometida. Tenho 59 anos, não sou uma jovem, mas ainda quero dar muito à profissão que adoro. Tenho medo, muito medo que um minúsculo vírus me impeça de realizar alguns dos projetos profissionais que ainda pretendo realizar.

Por isso digo NÃO. Não concordo com esta medida. Senhor Primeiro-Ministro, se ainda não sabe, vá saber o estudo sobre a idade das educadoras que estão sob a sua tutela e pense se será nelas que quer ver a próxima vaga de Covid.

Para os pais, alerto os estudos que têm sido feitos noutros países em crianças. E transcrevo aqui as palavras da senhora diretora da DGS: “Há uma criança infetada suspeita de ter doença rara reportada.”

A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, aproveitou a conferência de imprensa para atualizar a informação transmitida na quarta-feira, de que não havia qualquer caso em Portugal sobre a possível relação entre a Covid-19 e a doença de Kawasaki, uma patologia rara que afeta sobretudo crianças e que está a aumentar em alguns países.

Após consulta a todos os serviços de pediatria, afinal “há uma situação que configura um quadro clínico parecido” e que “carece de melhor caracterização”, revelou.

Esta doença rara provoca inflamação dos vasos sanguíneos. A Organização Mundial da Saúde está a investigar e admite que o novo coronavírus pode estar a “atacar outros tecidos além do pulmonar”.

Não quero alarmar. Só quero alertar.

Otília Moreira

3 COMMENTS

  1. Até 1/6 estará descansada. Entretanto,outros continuarão na frente da batalha. Por si,por nós e por todos.

    • Os que continuarão na frente de batalha agradecerão que não entupam o SNS e lhes dificultem ainda mais a vida.

  2. Completamente de acordo consigo, colega!
    Agora é que o Estado vai poupar mais um pouco… Manda os sexagenários, saudáveis ou não, afastados dos netos ou não, cuidadores dos seus gerontes ou não, para as escolas, estes adoecem e morrem! Poupam nas aposentações (previstas para pós 66 anos de idade, independentemente dos anos de serviço, ainda que tenham mais de 40 anos), contratam educadores, professores e assistentes mais novos e está equilibrado o OE…. E assim, de uma penada, resolve-se o problema da “peste grisalha”. Uma festa! 🤬

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here