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Máquina de tortura.

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Há cerca de um mês e meio, na minha primeira crónica neste blogue — Os eucaliptos — disse que era necessário colocar na ordem do dia a discussão do regime de gestão, eixo fundamental das recentes e das vindouras transformações da Escola. Para gáudio meu, o tema não só está sobre a mesa como também se encontra no seu ponto culminante, com todas as personagens (e mais algumas) em cena, numa acesa troca de golpes argumentativos, altos e baixos, consoante a estatura de cada um. Está provada a centralidade da questão, mas o desfecho é ainda incerto.

A FENPROF decidiu dar voz aos professores sobre esta matéria, e os resultados não surpreenderam: mais de noventa por cento dos inquiridos disseram “NÃO!” a esta autêntica máquina de tortura (no sentido de “torto”, “tortuoso”). É clamorosamente evidente, não é, Senhor Ministro Tiago Rodrigues? É gritantemente claro, não é, Senhor Secretário de Estado João Costa? É vergonhosamente óbvio, não é, senhores diretores? Mas… o que vale, neste país, a opinião dos professores em questões de ensino?

Os diretores… defendem galhardamente a sua torre de granito. Se ainda houvesse alguma dúvida sobre o seu posicionamento, ela seria agora completamente dissipada. Não estão, como nunca estiveram, nem ao lado nem do lado dos professores, estão sobre os professores, a pressionar os professores, a esmagar os professores. Estes querem o fim deste regime de gestão, porque sabem que esse garrote está a matar a democracia nas escolas (logo, também na sociedade); porque sabem que lhes está a asfixiar a autoridade e a dignidade; porque sabem (e gritam bem alto) que isso é absolutamente nocivo para a formação cívica e académica dos jovens alunos. Aqueles querem o contrário. São ex-professores que, colocados agora num cargo de plúmbea chefia, com compromissos que só eles entenderão, defendem o contrário daquilo a que aspira a arrasadora maioria dos seus ex-colegas, que continuam, na escola e em casa (cada vez mais num lado e no outro) a fazer o que podem e o que não podem pelo ensino e pela educação dos alunos, sofrendo quotidianamente, na pele e na alma, as consequências de prepotentes, cegas e vexatórias decisões.

Conscientes da debilidade da sua posição, da fragilidade a que os dados objetivos do referido inquérito os expuseram, os diretores, recorrendo a uma demagogia que já não surpreende (mas repugna), afirmam defender apenas os superiores interesses dos alunos, apelando mesmo à sua participação ativa nesta discussão, juntamente com aqueles que dizem representar os encarregados de educação. Estranho argumento, miserável sugestão! Então… são eles (os diretores), e não os professores, quem melhor defende os superiores interesses dos alunos? Então… são eles, que já não se lembram do que é uma aula, muito menos uma aula dos nossos dias, os grandes defensores dos superiores interesses dos alunos e respetivos encarregados de educação? Saberão eles, melhor do que os professores, contra a opinião dos professores, o que é realmente benéfico para as dinâmicas de convivialidade, de ensino e de aprendizagem de uma escola? Serão os professores (que têm a escola nos genes do seu ego) os egoístas desta peça, aqueles que põem os seus mesquinhos e inconfessáveis interesses acima dos interesses daqueles a quem, dia após dia e sem horário, se dão inteiramente?

Defender o contrário do que os professores consideram ser o melhor para a gestão de uma escola diz muito sobre algumas forças e certos actantes que brandem argumentos neste controverso tabuleiro de contendas. É como considerar ser bom para os doentes o que os médicos veem como mau. É como considerar ser bom (ou o melhor) para os filhos o que é mau para os pais. Como pode ser bom para os nossos alunos o que, objetiva e subjetivamente, os professores consideram tão mau, péssimo mesmo? Como é que a desautorização dos docentes pode ser boa para o ensino e para a educação dos nossos jovens, que precisam de mestres mentalmente saudáveis, psicologicamente fortes, autorizados, afirmativos, críticos, proativos… livres? Quem ousa ter a soberba de achar que é contrariando as ideias e aspirações dos professores que se melhora a qualidade da Escola, se semeia e cultiva a competência, a ambição, a responsabilidade, o respeito, a tolerância e… a democracia? Quem se considera visionário ao ponto de achar que pode impor-se (antecipando-se, muitas vezes) a conselhos gerais, a conselhos pedagógicos, a conselhos de turma, a departamentos e grupos disciplinares… Que políticos podem ser tão cegos (não acredito que sejam mal-intencionados) ao ponto de não verem o que, tão clara e nitidamente, se perfila diante do seu olhar? Para onde caminhamos?

A FENPROF deu corpo à voz abafada dos professores, trouxe para a luz do dia o que sabia estar latente no escuro e macerado silêncio de quem ensina amordaçado. Cada um de nós sabe agora que não está só, que são muitos (mesmo muitos, quase todos) os que querem uma escola mais partilhada, mais oxigenada, mais salutar e mais democrática. Sabemos agora que não é apenas na nossa, nem na escola vizinha, que o sufoco das palavras e dos atos é pedra sepulcral. É o país, de lés a lés, a clamar por outro dia, por um amanhecer diferente. Falta agora a nossa parte (decisiva): libertar as palavras acorrentadas e oferecê-las — genuínas, inteiras, desassombradas, ousadas… aladas — a todos, em todos os lugares e ocasiões. Todos somos necessários e imprescindíveis. Nenhuma ave no cativeiro!

Só o próprio medo deve ser temido, porque (como todos sabemos, infelizmente) é o ventre de todas as depressões, de todas perdas, de todas as submissões.

 

Luís Costa

4 COMMENTS

  1. Olá, Maria!

    Já ontem à noite te agradeci, mas o comentário ainda não foi publicado.
    Aproveito para te dizer que, felizmente para muita gente, já estou novamente de partida (agora do ComRegras). De momento, dois sentimentos me avassalam:

    1.º – não consigo suportar a paisagem de cagaço que tenho diante do olhar (onde estão os noventa e tal por cento de descontentes, quando se trata de assumir o combate frontal a este regime de gestão?);

    2.º – sinto que a minha mensagem é assaz incómoda para uns e muito inconveniente para outros (e mais não digo).

    Agora devia usar, neste espaço final, uma fórmula de despedida com termos em português vernáculo, mas acabei de sofrer um ataque de pudor.

    Abraço-te!

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