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“Mania do perfeccionismo”

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Obviamente que esta semana não poderia desviar-me do tema que mais abalou o blog na semana passada (deveria era abalar outras estruturas).

Realmente chega a ser assustador a quantidade de horas que as nossas crianças “perdem” na escola… E porquê a expressão “perdem”? Pois bem, quando vemos um horário tão pesado nas crianças do 1º ciclo garantidamente a escola não está a dar às crianças o que mais precisam… Tempo para descobrirem o mundo, descobrirem a vida e com estas descobertas aprenderem a crescer e aprenderem a pensar. Muita escola não significa muita aprendizagem. Muito pelo contrário, esta carga associada à obrigatoriedade cria condições para que as crianças fujam da escola e condiciona obviamente o sucesso escolar.

Assim se criam alunos desvinculados da escola, sem qualquer interesse associado. Os ditos alunos hiperativos, “stressados”… Hoje sabe-se que um dos maiores problemas das crianças nas nossas escolas se deve ao stress e à ansiedade. A hiperactividade, o défice de atenção, os problemas de comportamento… É por querermos que as crianças tenham muitas atividades, façam muitas coisas, que cumpram com as metas, que saibam estar, que se controlem, que cheguem a horas, que saibam ser, que saibam fazer, que não corram, que estejam quietas, que não falem alto, que não chorem, que tirem boas notas… (Ufa, até eu já me cansei).

Exigimos às nossas crianças níveis de perfeccionismos que não são adequados às fases de desenvolvimento delas e para a criança é duro ter de fazer tudo perfeito (para mim também). Claro que as regras são importantes e fundamentais, mas queremos tudo de forma perfeita e isso não é viável. A exigência e o perfeccionismo da nossa sociedade são terríveis e trazem consequências graves para o desenvolvimento das nossas crianças. Mais do que terem boas notas, é importante que as crianças se queiram dedicar à aprendizagem, que tenham uma representação positiva daquilo que é a escola e da utilidade da mesma, é fomentar o gosto pela aprendizagem, pela leitura, pela descoberta… e não chegamos lá impondo o contexto escola a tempo inteiro às crianças.

Bem sei que as realidades familiares não permitem pensar num modelo de escola com um horário mais reduzido, mas os planos curriculares sim… A gestão da escola, dos horários, dos currículos, das ofertas para as famílias… Quantos CAF funcionam? Quantos alunos abrangem? Há algum balanço oficial sobre estas estruturas?

É preciso repensar a escola, repensar estratégias que acima das competências académicas, promovam aspetos como o exercício responsável da cidadania (e sim, podemos fazer isto desde o ensino pré-escolar), aprender a envolver-se na escola em si e na vida social, a aprendizagem do diálogo, do respeito pelos direitos humanos, a empatia, a atitude positiva face à escola, o desenvolvimento de competências sociais e de controlo emocional, o autoconhecimento e desenvolvimento da autoestima. São indispensáveis respostas que estejam associadas à melhoria do relacionamento global e à convivência entre as crianças. É preciso formar a criança e visar a aquisição de estratégias que sejam facilmente transponíveis para outros contextos da vida dela, sendo passíveis de aplicação recorrente durante toda a sua vida e face a qualquer situação. Assim são criadas relações mais positivas e respeitadoras, mas também se cria um espaço educativo que fomenta hábitos saudáveis e cooperativos. E à escola cabe essa função, paralelamente ao ensino formal, a criação de condições para a promoção dessas aprendizagens “informais” de estratégias de autonomia, desenvolvimento e crescimento nas formas de pensar, ser e agir.

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
cultura-de-convivencia

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