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Mais Um Exemplo Surreal De Indisciplina Em Sala De Aula

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(exclusivo comregras)

Há professores que entram nas salas de aula com medo! Os alunos sentem isso e aproveitam-se disso. Tal acontece pois a instituição professor não se sente protegida e respeitada.

Infelizmente estes episódios não são tão raros quanto podemos pensar, eles existem, são recorrentes e é preciso um trabalho de equipa para evitar este tipo de situações.

*No email que recebi, consta o nome da escola e da professora, mas a seu pedido, este não será publicado.


No dia 30 de outubro, numa aula de 5º ano, com uma turma particularmente difícil e numa escola MUITO difícil em termos de indisciplina, metade da turma atirava papéis, outros conversavam  e/ou riam. Os meus apelos foram constantes, primeiro com calma e tentando o afeto, mais tarde, com ameaças, registos na caderneta, mas nada acalmou estas crianças. Pode-se dizer que eu estar dentro daquela sala ou não estar era a mesma coisa, pois riam-se às gargalhadas quando os mandava calar. Tentei mandar alguns alunos para o gabinete dos “conflitos”, mas não havia funcionários no pavilhão, por isso estava ali naquele caos sozinha.

Três dos alunos mais provocadores começaram a piorar o comportamento, discutindo entre si. Mais uma vez, pedi a um dos “bons” alunos para tentar encontrar um funcionário. Quando um destes três alunos percebeu que ia ter falta disciplinar começou a ter um comportamento muito violento contra mim, gritando para mim, aproximando-se de mim com dedo em riste, deitou a cadeira ao chão, chamou-me mentirosa e outros nomes que o meu cérebro naquela situação não conseguiu memorizar, mas lembro-me que gritou ” tu só estas cá por dinheiro!!!” Ele aproximava-se de mim e eu recuava. Eu tive medo que um miúdo de 11 anos me batesse. Recusou-se a sair da aula e só com muito esforço da parte do funcionário é que ele saiu. Perante esta situação o resto da turma escalou em indisciplina e risos, eu era “um palhaço que ali estava”. Ainda hoje me interrogo como não saí pela porta fora, pois senti a maior humilhação da minha vida. Acalmei-me e, de repente, os três alunos apareceram à porta da sala, querendo entrar, como não abri, começaram a dar pontapés na porta (que é velha e de vidro) correndo o risco de se magoarem e a quem estava lá dentro. Mais uma vez, senti medo e pensei “ele vai partir a porta, vem ter comigo e vai-me bater”. Felizmente, o funcionário alcançou-o.

E vocês pensam, bem o martírio já acabou. Não! Um outro aluno, antigo NEE, de repente começa a rebolar no chão da sala, quando uma das colegas lhe diz qualquer coisa que não consegui ouvir. O aluno teve um acesso de raiva, chorou, bateu com as cadeiras, atirou a mochila e quase que bateu nas duas miúdas. Foi um momento de muita tensão pois, ele para não bater nas miúdas e para libertar a raiva, deu um murro na mesa, atirou a mochila e saiu da sala – as miúdas fugiram dele. Consegui acalmar o aluno à saída da sala e ele ficou do lado de fora da sala, as miúdas estavam pelo menos protegidas. A aula acabou e eu estava prestes a ter um colapso nervoso. Saí da sala e fui embora da escola, já não consegui dar a última aula.

Entretanto, e quando me acalmei em casa, escrevi no Inovar e mandei email à Diretora de Turma explicando tudo o que se passou, tal como fiz aqui neste texto. Esta foi a  última frase que lhe escrevi “Conclusão, teve este desfecho, ele foi lá fora e acalmou-se mas as coisas podiam ter acabado de outra maneira, quer seja com o A (que se podia ter magoado no vidro, que me podia ter magoado a mim) quer seja com o B a magoar as miúdas. O contínuo assistiu à situação do A e também ficou muito impressionado. Podes sempre falar com ele.”.

Da resposta retiro este excerto, não para condenar a colega, que sei bem que mais não pode fazer, mas para mostrar ao que  TODOS nós professores nos andamos a sujeitar “(…) em relação à situação que me descreveste, vou falar novamente com a mãe do A em relação ao comportamento e às atitudes violentas que ele tem tido com os restantes colegas, não é só contigo. A mãe já veio falar comigo e disse-me que ele é mesmo assim explosivo, como ela, mas depois passa-lhe. O problema do A é que se ele for confrontado ele explode, a mãe diz que ele é mesmo assim, se o levarem por bem ele é um doce de menino, palavras da mãe (…) Relativamente ao B, já sabes que ele é NEE, o horário dele vai ser alterado e ele vai frequentar as aulas teóricas  45 minutos por semana e só vai às práticas.”

Desde esse dia, nunca mais fui capaz de entrar numa sala de aula e estou de baixa psiquiátrica, recebo 60% do meu salário que era de 13 horas. Estou medicada, impossibilitada de conduzir. E não sei se consigo voltar a dar aulas nesta escola, porque ao fim de 15 anos de serviço, muitos deles na área da Grande Lisboa é a primeira vez que todas as turmas são como a descrita acima, em que facto de os alunos ameaçarem os professores de que os pais lhe vão bater é considerado normal (como me aconteceu a mim por duas vezes). Este episódio foi só o culminar de um terror que eu lá vivi.

Se algum de vocês que estão a ler este texto pensarem “ eu já vivi pior que isto” ou “eu já aguentei pior”, como às vezes ouço nas salas dos professores comparações do “eu já sofri mais do que tu” reflitam bem pois ninguém deveria ir para o trabalho, ter medo, viver estas e outras situações e achar normal o absurdo a que chegamos.

(se pretender denunciar situações semelhantes, envie para [email protected])

3 COMENTÁRIOS

  1. Isto acontece porque temos miúdos imberbes à frente da educação (tenham a idade e o sexo que tiverem). Alguns pertencem à geração dos boomers, em que era proibido proibir, ou deles têm influência direta. Só numa escola (último lugar em que deveria ser permitido) é que estes jovens e crianças se comportam assim (Para já). Em mais nenhum lugar tal lhes seria permitido. Continuamos à espera de que os exemplos venham de fora (como quando jovens e crianças assassinam outras crianças e jovens, ou quando atiram pessoas do último andar de um centro comercial ou as atiram para a linha do metro) sem perceber que esses países, que queremos tomar como exemplo, estão a regredir nos valores.
    Deve ser devolvida a autoridade ao professor. Esta situação deveria ser resolvida pela professora sozinha, sem recurso a diretor de turma, direção da escola ou pais. Se o poder estivesse concentrado no professor, se a última palavra fosse dele, tudo mudaria. Os outros intervenientes apenas deveriam tomar conhecimento do modo de atuação da professora e, desde que não infringisse a lei, sem possibilidade de recurso. tudo mudaria em pouco tempo.

  2. Está na altura de os professores fazerem acções de formação em artes marciais, em defesa pessoal (vão vender as acções de formação em flexitreta e autonomia ao diabo que os carregue). Ser professor não significa que se tenha de levar no focinho e calar. Somos pagos para ensinar, não para fazer de amigos, pais, psicólogos, administrativos, animadores, palhaços ou…servir de saco de treino.
    O Artigo 21. da Constituição (direito à resistência) tem de servir para alguma coisa; mesmo que não existisse, é mais do que óbvio que se não nos defendermos, ninguém irá fazê-lo, é uma questão de respeito por nós próprios. Acreditem que algum domínio das artes marciais dá-nos confiança para enfrentar os párias que nos aparecem pela frente…se for necessário e só numa situação em que seja urgente a defesa da nossa integridade física. Não se pode contar com esta justiça faz-de-conta nem com um ME que não quer saber da classe docente para nada.

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