Home Rubricas Mais um apontamento sobre exames e rankings.

Mais um apontamento sobre exames e rankings.

75
0

Nas conversas à mesa na época de natal, os temas acerca de política, educação e atualidade são recorrentes. E num desses almoços entre família perguntaram-me diretamente qual a minha opinião sobre os exames.

MariaNa verdade as ideias, as atitudes e opiniões em relação aos exames no 4º e 6ºano têm inundado os fóruns e os temas centrais da atualidade, especialmente após a recente decisão do governo em suspender o exame de 4ºano.

Independentemente do que escrever sobre esta temática, acredito que não vou dar nenhum novo contributo para esta discussão (favor ou contra). Os argumentos de ambos os lados são conhecidos. Interessa-me direcionar este texto para uma ideia que surgiu na conversa que se desenrolou e que se prende com a pouca reflexão e discussão existente em torno dos exames e em perpetuarmos o “não ouvir” diferentes facções de quem trabalha na área. Implementa-se, deixa-se de implementar ao sabor de razões políticas e ideológicas.

Confesso que no início a substituição de provas de aferição por exames não me chocou. Não fui contra. Não partilho o mesmo entendimento em argumentos como: “Vai frustrar as crianças”; “Não estão psicologicamente preparadas”. Quem lê os meus textos sabe que defendo (e não vejo outra forma de entender o ensino) uma educação com afeto. Mas o afeto não se traduz em proteger demasiado, nem em tentar acautelar todas as situações que possam provocar frustrações. Sou apologista de definir limites, de encontrar uma forma real e relevante de um tema fazer sentido, de uma boa dose de sentido de humor e principalmente, de transmitir uma mensagem de que contam comigo para trabalhar e tentar alcançar sucessos quer sejam académicos ou pessoais, mas que esse caminho não é unilateral. É feito a dois, professor – aluno, sempre assente numa premissa de respeito e envolvimento mútuo mas nunca de condescendência. E isto, para mim, é trabalhar com afeto.

Não encontrei em nenhuma corrente da psicologia uma “incompatibilidade” para a realização dos exames. O que encontrei, após a sua implementação, foi aquilo que me fez rapidamente mudar de ideias, em prol da saúde mental dos professores e por conseguinte dos alunos. Pressões, rankings, revisões exaustivas de exames atrás de exames e uma formalidade quase militar na sua execução como se todo o ano letivo dependesse daquele momento. Todo este panorama fez criar (aí sim) frustrações, atribuição de culpas e distâncias. A pressão da palavra “exame” ainda reúne um estereótipo difícil de contornar.

Um outro aspeto que considero contraproducente e onde os exames ganham dimensão é a importância dada aos famosos rankings. Como mencionou o Secretário de Estado da educação João Costa “Não se iludam, os rankings são uma invenção da comunicação social e não do Ministério da Educação.” E esta é a realidade.

As escolas têm de olhar para o seu contexto, para a sua população devendo trabalhar para o seu público e suas necessidades. Os rankings são um acessório e a implementação ou não de exames não pode andar à mercê de ideologias e caprichos. Ora agora sim, ora agora não. Criem-se grupos de trabalho, oiça-se quem trabalha na área e só depois se tome uma decisão.

Maria Joana Almeida

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here