Home Editorial Mais professores? Comecem a valorizar os que (ainda) cá estão…

Mais professores? Comecem a valorizar os que (ainda) cá estão…

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Lembro-me bem de um professor de Matemática, já quase no fim da sua carreira, contava os dias…encontrávamo-nos todos os dias para o café cedinho…lá vinham os dois beijinhos antes da pandemia…e de seguida o seu sorriso e os dias iam diminuindo…era um sufoco ouvi-lo falar das horas a que chegava a casa quando havia reuniões, muitas das quais disciplinares, devido ao comportamento “exemplar” de alguns alunos…nesse ano era uma por semana…ainda hoje se diz por aqui: “Foi o melhor professor que tive mãe…mas estava tão cansado”…foi para a terra…desligou de tudo…não tem mail…tlm…ou redes sociais…simplesmente desligou!

Dá que pensar, não dá?

Fala-se muito na falta de professores, fala-se muito no cansaço dos professores e fala-se muito do desinteresse dos jovens pela carreira de professor.

Em 2018 publiquei o artigo Como Era A Redução Da Componente Letiva E Como É Agora. Recomendo que leiam e depois regressem a este texto, irá permitir-vos ter uma noção do que foi e do que é a redução da componente letiva no contexto atual.

É consensual que a exigência da profissão é claramente superior nos tempos que correm, e já nem falo no Covid, falo no perfil dos alunos, na burocracia, no modelo de gestão, na indisciplina e afins.

A política do consumir até ao tutano está agora a tornar-se cada vez mais evidente, onde até já assistimos a escolas a partir um horário completo para ver se conseguem arranjar professores provenientes de escolas vizinhas. Grave, gravíssimo o que se está a passar, fruto de anos de desvalorização profissional.

Urge por isso recuperar direitos perdidos, direitos que serviram uma geração de professores que já saíram em condições que os que estão agora no ativo nem sonham atingir. Não é justo, o tempo criou uma fratura no prestígio docente, evidente na máxima instituída, trabalhar mais e ganhar menos, numa política mercantilista, de trabalho ao minuto, a meu ver humilhante para uma profissão nobre como a docência.

Mas atenção, não é reduzir a componente letiva para dar aulas de apoio, ou aulas de substituição, é reduzir a componente letiva para permitir ao professor um afastamento de um meio extremamente agressivo e difícil como a Escola. Esse tempo pode perfeitamente ser utilizado para evolução pessoal, pesquisa e aprendizagem. Um bom professor precisa de estar atualizado e precisa de tempo para o fazer!

Se querem efetivamente começar a valorizar os professores, comecem a tornar a carreira mais atrativa aos que (ainda) cá estão, pois são esses os maiores publicitários do seu trabalho, seja para o mal, seja para o bem.

O problema, pois sei que alguns vão pensar nisso, é que não temos professores no “banco” para compensar essas horas. É verdade, lixaram isto tudo e agora estamos numa rua sem saída…

Termino com a partilha de mais uma mensagem que recebi e que representa bem o estado a realidade de alguns professores.


Numa altura que se fala da falta de professores nas escolas, e nas condições de trabalho dos professores, que tal voltarmos  a abordar a questão das reduções de horário,  à medida que envelhecemos?
Parece-me tão óbvio que a profissão é tão desgastante a nível físico mas principalmente a  nível emocional, pois é uma profissão de pessoas, para as pessoas. Obrigam-nos a dar 25 ou 27 tempos de aulas, aos 50, aos 55 e aos 60 como se tivéssemos 20 e tal anos. Esta ano que passou, com 46 anos, lecionei 6 turmas de ensino básico, 3 de sétimo ano e 3 de 9 ano. Andei cansadíssimo, cheio de dores de costas, que acredito serem dores  emocionais e de stress. Em Maio, tive um problema de saúde, muito motivado pelo stress. Acredito que a pandemia e o ensino à distância tenham sito a minha salvação, se não,  este ano, teria dado em louco,  pois também fui coordenador do PES, de 36 turmas, num agrupamento de ****. Será que com 50 ou mais anos se consegue andar nestas coboiadas, sem consequências mentais? Não acredito. Na escola onde estava não atribuem secundário aos professores “mais novos”. Os meus colegas mais velhos,  de 54 anos e 55 só davam 2 turmas de secundário.
As reduções de horário dos mais velhos, a partir dos 45 anos ou mesmo dos 40, tiradas pela Maria de Lurdes, poderiam permitir um rejuvenescimento da classe e fazer com que os mais velhos consigam respirar e ganhar novo ânimo, numa profissão tão difícil e complexa.
E sim, sou professor porque gosto e por vocação, mas cada vez sinto mais dificuldades a exerce-la, coisa que não sentia antes.

3 COMMENTS

  1. Compreendo e concordo com tudo o que foi escrito.
    Acontece até os professores mais novos estarem menos tempo com alunos do que os mais velhos e transformarem o horário não letivo em “tutorias” desempenhadas em sala de aula. Viva o compadrio!

  2. Não coloquem os contratados no quadro e os qzp a só poderem dar aulas nos seus qzp que amanhã estão pessoas com o 12 ano a dar aulas.

  3. Cuidado com o rigor das informações e dos dados que são passados. Dados imprecisos lançam sobre os professores uma suspeita, sobre alguns professores ou ciclos de ensino, que depois custa imenso a “limpar”.
    Se o professor em causa, com 46 ou 47 anos, teve seis turmas no ensino básico, um professor de Português, Inglês ou Filosofia, com a mesma idade, terá também 6 turmas no ensino secundário (6×4= 24 tempos).
    Os referidos “colegas de 54 ou 55 anos com apenas duas turmas no Secundário” também são uma miragem (excecionalmente algum prof. de FQ ou BG, com turmas de 7 tempos semanais desdobradas = 10 tempos por turma).
    Um professor de 54 anos de Português, Inglês ou Filosofia (tudo disciplinas muito leves) pode ter no Secundário 5 turmas (20 tempos) e sobram dois tempos para mais uma DT.

    Em tudo o resto, absolutamente de acordo com todo o artigo.

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