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Limpezas

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O Sr. Joaquim mudou de posição e recostou-se melhor no assento macio. As nuvens carregadas apressavam o escurecer e a chuva miudinha escorria mansa pelo pára-brisas. O barulho ritmado das escovas a percorrer o grande vidro do autocarro misturava-se com a canção melosa que volitava do radio em surdina.

limpezaSacudiu a cabeça para afastar o sono e o cansaço. Na sua mente troavam ainda, em alegre balbúrdia, as vozes que lhe foram enchendo o autocarro ao longo do dia. Dentro de poucos instantes chegaria ao fim mais um dia de trabalho. Pelo espelho, lançou um olhar distraído ao veículo quase deserto. Sentada no segundo lugar, junto à porta, dormitava a D. Felismina, sua única companhia até à paragem no terminal.

Firmou o olhar na estrada já completamente escura à sua frente, no bulir endoidecido dos abetos que a ladeavam, na chuva a bater cada vez mais grossa. Pareceu-lhe ver, através do filtro distorcido das carreiras de água no vidro, uma massa colorida a adejar na berma escura da estrada. A proximidade confirmou-lhe e clarificou-lhe a visão: uma pessoinha caminhava apressada, os ombros curvados a contrariar o vento, o fato de treino cor-de-rosa encharcado, o pequeno capuz acachapado à cabeça.

Imobilizou o veículo suavemente e abriu a porta. Um sorriso envergonhado substituiu o temor nos olhos da menina quando reconheceu o Sr. Joaquim. “Que andas tu aqui a fazer a esta hora, menina?”, questionou, e antes mesmo da resposta, continuou: “Então não vês que é muito perigoso andar de noite sozinha, pequena? Anda lá, sobe, sai dessa chuva!”

Após um curto instante de hesitação, a menina subiu e, ao passar por ele, sussurrou embaraçada “não tenho passe, nem dinheiro para o bilhete”. A expressão bondosa do motorista e o olhar curioso da D. Felismina soltaram-lhe a desenvoltura do discurso e logo desenrolou o seu novelo de contrariedades: a bolsa perdida, algures na escola; a aflição da procura; o descuido do tempo; o tardio das horas; a caminhada solitária; a noite que a pilhou a meio do caminho; o terror maligno do escuro.

“Devias ter pedido na escola para telefonarem para tua casa, pequena. A tua família deve estar aflita”, lembrou a D. Felismina. Que não, retorquiu. Que ninguém lá estaria para atender o telefone, nem para a ir buscar. “Então os teus pais?”, questionou o Sr. Joaquim. Do pai não sabia, não senhor. Lá em casa viviam a mãe, a avó, ela e uma irmã, mas agora não estariam lá. “Então e sabes explicar-me onde é a tua casa, para te lá levar?”, investigou. “Sim”, declarou a menina com brioso desembaraço, “moro ao pé do cruzamento para o bairro”. O Sr. Joaquim arregalou os olhos de espanto perante a lonjura calculada: “mas então é muito distante! E ias a pé? E ninguém cuidava de te procurar?”, insistiu, o descrédito a crescer-lhe na voz.

“A mamã foi trabalhar, a avó foi com ela. Só voltam amanhã”.

“Foi então trabalhar para longe?”, perguntou o Sr. Joaquim. “E em que trabalha ela?”, aprofundou, expedita, a D. Felismina.

“A mamã faz limpezas. Foi trabalhar a Coimbra.”

“Limpezas? Em Coimbra?”, emparelharam eles as duas vozes, a curiosidade a transbordar-lhes dos poros.

“Sim”, repetiu a menina com convicção: “a mamã faz limpezas, vai limpar as casas das pessoas a muitos sítios, vai onde as pessoas moram, desta vez foi a Coimbra. Às vezes vai ao Porto, ou mesmo a Espanha e tem de lá ficar de noite”, concluiu assertiva. Um silêncio cauteloso instalou-se no autocarro por curtos instantes e logo foi interrompido pela voz alegre da menina: “é ali, é ali que eu moro! Aquela é a minha casa! Ali! Ali!”

Apontou na direcção de uma casa bonita e bem cuidada, pintada de um amarelo vivo que havia de combinar, em dia de sol, com o alpendre de madeira e o pátio empedrado, rodeado de gordos arbustos floridos. Ao fundo, no relvado, as gotas de chuva agitavam mansamente as águas verdes da piscina, que brilhava feérica sob as tiras rasgadas de luz dos faróis do autocarro.

Sem conseguir ler os intrigados e ambíguos olhares adultos, a menina desceu do autocarro, feliz, e correu para a porta de casa, toda ela envolta em escuridão e silêncio. Apreensivo, o Sr. Joaquim atrasou a partida. Ao fim de largos instantes, uma rapariga abriu a porta e logo soltou um gritinho de reconhecimento e zanga. A menina desatou rapidamente o embrulho dos acontecimentos, a vozita alvoraçada aos tropeções da pressa. A rapariga olhou para o autocarro, acenou para o Sr. Joaquim e de lá atirou um breve “obrigada”, enquanto encaminhava a pequenita para dentro e fechava rapidamente a porta.

À luz do alpendre, agora iluminado, balançava um letreiro com rotundos dizeres:

FAZEM-SE LIMPEZAS ESPIRITUAIS / BENZEDURAS DE CASAS / DESATAM-SE ESPIRITOS / DESAMARRAÇÕES DE TRABALHOS OCULTOS

MC

 

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