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Notícias de licenciosidades no serviço público

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O meu tio Adelino Nemésio não era licenciado. Era um homem cultíssimo, com uma erudição latina invejável e um domínio do português incrível. Não se licenciou porque não calhou. Nem por falta de dinheiro para estudar, nem de capacidade sua. Não calhou. Tinha um sentido fino de ironia. No dia em que acabei a licenciatura, tinha ele mais de 80 anos, fui lá a casa para comemorar. O primeiro movimento que fez foi agarrar-me no braço e levar-me à frente do prato cerâmico, que tinha pendurado na parede (que hoje é meu) e que mostro na imagem, e dizer-me com ar gozão: os meus parabéns, és um burro carregado de livros.

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Estas semanas ficamos a saber que andam a aconselhar o Governo uns burros que nem os livros carregaram mas gostam de nos enganar sobre isso.

Os pseudolicenciados que esta semana conspurcaram a nossa vida política (que já não estava muito asseada) e nos fazem desviar energia de assuntos realmente importantes, seguiram a linha ilustre do que já fizeram um primeiro-ministro e um ministro. A esses “anexos ao governo” tinha feito bem ter conhecido o meu tio.

Não se teriam em tão boa conta e veriam as coisas com mais perspetiva. E para que raio precisavam das licenciaturas, se não as tinham realmente? Como dizia Ricardo Araújo Pereira: achavam que não íam ser apanhados? Maus estudantes e burros….

Ao meu tio, também não lhe teria custado nada chamar-lhes burros, além de aldrabões.

Anjos que caem

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Talvez valesse a pena, para entendermos o quadro fundo deste assunto deplorável, lermos de novo a Queda de um Anjo de Camilo (o meu tio Adelino Nemésio também era fã) e verem como ele caracterizava os “anexos” à política lisboeta e as suas veleidades. Leia-se, por exemplo, o retrato que fazia do rapaz que ía ser o opositor da personagem principal, numa candidatura a eleições:

“(…) O ministro do Reino redobrou instâncias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha escrito revistas de espetáculos, e recitava versos dele ao piano, cuja falta ou demasia de sílabas a bulha dos sonoros martelos disfarçava.”

Os poetas de Lisboa, agora já não são pianistas. Matraqueam smartphones. Fazem promessas de empreendedorismo de bola de sabão em posts das redes sociais. Mas, como se viu esta semana, o quadro nem é muito diferente. Nuvens de fumo, muita ilusão e intriga q.b., longe dos reais problemas das pessoas.

No contexto político futuro, o que o Ministro da Educação há-de dizer, quando disser alguma coisa, será relevante, mesmo com a confiança reafirmada do PM.

01238b0d0-c075-497d-a2c5-df4c1e63f2c3-r-mzuwedi1maParece que tem o ex-secretário de estado à perna (mas a baralhar-se, como se viu hoje no Expresso). Lamento que a treta, dada em desculpa pelo ex-chefe de gabinete, licenciado de aviário a dobrar, não seja bem esmiuçada.

Veio queixar-se de vingança e má fé de outros. Seria assim se alguém negasse o que fosse verdade. Neste caso, 2 licenciaturas, sem ter sequer um ano de cada, é capaz de ser demais.

Veja-se, por exemplo, a notícia do Porto Canal, que passou ao lado de muita gente, de que, já em 2011 (há 5 anos) se dizia do senhor em causa ser licenciado, num louvor publicado no Diário da República. Não leu o louvor que lhe fizeram? Não reparou que precisava de ser corrigido? E volta a acontecer em 2015 e não repara? Dois enganos a diplomar quem não teve diploma nenhum, é muito azar….

E tanto se me dá que o senhor fosse ou não licenciado. Pergunto-me é se punha o mesmo rigor nas outras tarefas de chefe de gabinete, que lhe pagávamos, que pôs na organização da própria informação curricular para publicar no jornal oficial.

Opiniões sobre isto há muitas, mas destaco só as que foram publicadas no JN de hoje ou no CM, noutro ângulo. A temática chegou a quase todos os cantos do país até em jornais locais.

Outras notícias realmente importantes.

O tema cómico, e com um lado teatral de queda em desgraça, ocupou muito espaço noticioso, deixando de lado questões que podiam ser bem mais importantes no dia.

O assunto até é cansativo e inesgotável neste país da cunha e da licenciosidade concursal.

O site noticioso Educare dá, por seu lado, destaque a um estudo sobre o perfil dos ministros que passaram pela educação desde o 25 de Abril.

Diz a notícia que “não há caso de um ministro da Educação que tivesse estudado numa escola técnica. Mais: nenhum dos 27 titulares do ensino em Portugal tinha licenciatura em educação ou pedagogia, apenas dois deles fizeram pós-graduações na área.”

Um paralelo com a Justiça ou a Saúde seria bem ilustrativo (por exemplo, na Justiça, desde que me lembro, e tenho memória longa, são juristas, ou advogados, ou professores de Direito ou magistrados). Na educação não há gente da educação.

Algo bem interessante, neste dia em que se vem falando tanto de habilitações.

Seria engraçado fazer um estudo destes sobre diretores de escolas e ver quantos deles, realmente estudaram para isso, antes de o serem, ou quantos só têm requisitos para tal, porque já passou muito tempo a serem.

Muita gente que fala das fraudes dos pseudolicenciados tem pouca memória e esquece estes assuntos conexos. Por meu lado, ainda me lembro, há uns anos, de um caso de um diretor de escola que nem a licenciatura tinha terminado.

Estão a ver como vem a propósito? Podem ler a notícia (que tem anos) aqui. Pelo Minho diz-se que quem cospe para o ar…..

Os dinheiros da educação e o país esquecido

Viele Euro GeldscheineMas, lá está, muitas notícias importantes ficaram para trás. Por exemplo, o orçamento de educação de 2017 que, alegadamente será menor que a despesa deste ano de 2016, diz a TSF, com direito a críticas da Fenprof ao Governo e aquele tom, sempre moderado e equilibrado, e nada trauliteiro, que caracteriza o Observador nestes assuntos orçamentais contra a geringonça.

Mas, picardias esquerda/direita à parte, quer-me parecer que PS e PSD estão mais próximos (e, no caso da educação, bem juntinhos para tramar os profs, se dormirmos na forma). Noutras muitas coisas votaram juntos no Parlamento, mais do que julgávamos. Umas 70 vezes, ao longo do ano, o arco da governação substituiu a geringonça, notícia de hoje.

estudantescOutra notícia importante, pela confirmação de que a estupidez humana é mesmo infinita, foi a praxe ocorrida numa praia, perto da linha de rebentação, por estes dias. As formas para cozinhar pseudolicenciados do futuro já estão a ser preparadas e estes meninos não aprendem mesmo nada. O Governo quer explicações e a escola vai ter de as prestar, dizem os jornais.

Muito me custa ver que algum ensino superior está reduzido a isto: praxes maradas e licenciaturas marteladas.

E, na linha daquilo que seriam notícias a valer a pena destaque maior, refira-se um debate na Assembleia Municipal de Odivelas em que alguém resume o estado da educação do concelho, como sendo do Terceiro Mundo. Li o texto e pergunto-me se será exagero.

E o problema aí, não é chegar à licenciatura, mas apenas conseguir ter um 1º ciclo digno. Por isso é que os corredores de Lisboa e os meninos armados em doutores estão longe do país que tem problemas. E Odivelas nem é assim tão longe de São Bento, do Rato ou da São Caetano à Lapa. Até dá para ir de metro….

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