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Libertem as crianças!

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dormir na aulaEram três da tarde, e ao percorrer a sala com o olhar reparei em uma cabeça inclinada sobre os livros. Aproximei-me e notei que a Francisca dormia profundamente sobre sua mesa. Acordei-a suavemente e perguntei-lhe se estava tudo bem e como tinha dormindo durante a noite. Ela ainda limpava a saliva do canto da boca enquanto olhava para mim com os olhos semicerrados, mas nada respondeu, parecendo perdida no tempo e no espaço.

Estávamos no início do ano letivo, entre a quarta e a sexta semana, em uma turma do 1.º ano, acompanhados por mais vinte e três alunos, dos quais seis tinham apenas cinco anos de idade e quatro eram do 2.º ano.

A fadiga já tinha tomado conta dos alunos na sala de aula e ainda tinham tanto para aprender… Na verdade, as semanas tinham sido muito intensas para quem tinha acabado de sair do ensino pré-escolar e gostava de ter o seu próprio ritmo de trabalho.

Claro que ao longo das semanas a minha querida “sonecas” não foi a única a perder a batalha para o cansaço, outros também tombaram… 

Discutir o que está a acontecer no 1.º ciclo tem promovido diálogos divergentes em que muitos interesses externos à escola têm espaço para divagar e manipular a opinião pública. As nossas crianças não precisam de estar tanto tempo na escola, nem os seus pais necessitam de estar tantas horas afastados delas.

No atual contexto social é angustiante ver como a precariedade no trabalho, é combatida com mais horas de trabalho e com salários cada vez mais baixos. É necessário reverter esta situação com a redução dos horários de trabalho e com a atribuição de salários condignos, permitindo assim que as famílias passem mais tempo juntas, promovendo a construção da felicidade.

Como é que as nossas crianças podem estar confinadas à escola por mais de dez horas por dia, longe dos afetos de quem as cuida e educa? Como podem ser privadas do seu espaço para criar as suas regras e as suas histórias?!

A criança precisa de liberdade para brincar, criar, desenvolver um espírito de descoberta e fazer as suas próprias conquistas, sozinha e em grupo. Limitar o seu espaços de ação ao que os outros fazem ou simplesmente ao que lhe é imposto, é condicionar a sua criatividade, a sua espontaneidade e o seu crescimento, sendo assim transformada num produto do ensino mecanizado e formatada para ser um produto final.

Atualmente, a escola portuguesa não consegue ser esse espaço de desenvolvimento criativo, porque não está organizada nem física nem intelectualmente para o ser. Mas, a escola seria a primeira a beneficiar de uma maior “libertação” das crianças, porque certamente teríamos alunos mais disponíveis e interessados em aprender.

Também, é verdade que grande parte dos alunos revelam-se imaturos. Talvez seja devido ao seu contexto familiar, no qual eles estão no centro, muitas vezes sugando toda a atenção de quem está à volta. Desta forma, não criam autonomia e ficam dependentes dos progenitores para todo o tipo de tarefas.

Eles são príncipes e princesas dotados de comportamentos impiedosos, são verdadeiros ditadores, que mandam em tudo e em todos, que não compreendem a influência negativa que exercem sobre os outros e desconhecem os seus limites ou limitações.

A nós – professores, pedagogos e políticos – cabe-nos a tarefa de interpretar a sociedade em que estamos inseridos e transformar a escola para educar melhor. Não podemos ser apenas uns meros funcionários de uma fábrica de alunos.

Se o “lote” sair danificado a culpa também será nossa, porque não fizemos nada para mudar…

Gonçalo Gonçalves

Professor do 1º ciclo

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10 COMENTÁRIOS

  1. Bom texto. Recomendo a quem se interessar em ler sobre a Escola da Ponte, uma escola pública cujo método foi copiado por vários países europeus e que existe cá há 40 anos. Onde de facto quem conhece percebe que as crianças são felizes.

  2. Sinceramente o problema não tá no tempo da escola.
    O problema hoje em dia é a maneira como se educam as Crianças. Eu vivo num País onde as Crianças tem exactamente o que mencionou, menos tempo de escola, aqui terminam as Aulas às 13h. A minha opinião? A pior coisa que podiam ter feito. As crianças aqui não aprendem nem a metade, do que aprendem ai. Muitas coisas têm de aprender em Casa, porque não entenderam tudo na Escola, como se não chegasse, ainda trazem muitos TPC para Casa, porque não conseguem tudo durante as Aulas. Antigamente as Crianças brincavam depois das Aulas na rua, iam cedo para a Cama etc.
    Hoje? Só se brinca com Telemóvel, Laptop etc., vão muito tarde para a Cama… Se tiveres na Rua, chamam logo a Assistência social, os Pais são maus bla bla bla.
    Tudo o que eu aprendi na primária e no colégio ficou-me gravado para sempre na memória, o resto que aprendi aqui foi uma grande mer..!
    Libertem as Crianças?
    Sim! Mas não da Escola, mas dêem espaço para as Crianças sairem depois da Escola, deixem as Crianças brincarem, inventarem as próprias brincadeiras. Acreditem… as Crianças estarão exautas e vão de livre vontade cedo para a Cama. Indo cedo para a Cama, já não estão cansados durante as Aulas e concentram-se melhor. Fica a dica

  3. Excelente texto! É bom saber que há professores a cuidar assim…
    Não resisto a fazer-lhe um convite: III Encontro IDEA, dentro de duas semanas na Faculdade de Psicologia.
    Pode ver mais aqui. http://idealisboa2.conceitos4all.net/
    o meu email: [email protected]
    Gostaríamos muito que viesse e partilhasse connosco a sua experiência.
    Se me disser que não pode por estar em aulas, venha quando puder, o debate do fim da tarde com os pais… ou só no sábado. Aceite o convite, será uma honra tê-lo connosco.

  4. Sim, as crianças passam demasiado tempo na escola… Mas essa conversa da que se aprende sem esforço é uma história da carochinha… Até se aprende, mas pouco! Podemos mudar alguma coisa do currículo, até podemos mudar algumas práticas pedagógicas, mas, aprender sem esforço e trabalho duro, é mesmo uma conversa para entreter meninos… Ou para os deixar mais ignorantes!

  5. Um excelente texto! As crianças precisam de conviver com a família. Tem de houver tempo para tudo para os nossos filhos crescerem felizes e confiantes.

  6. Os meus parabens para os professores que tiveram esta coragem e iniciativa de enfrentar esta situação é espero que todos os professores se unam e esclareçam esta situação á direção escolar superior. Já são horas de abrir os olhos de criar uma sociedade mais sã e criativa.

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