Início Editorial Liberté, Egalité, Fraternité … et éducation

Liberté, Egalité, Fraternité … et éducation

132
3

liberte-egalite-fraternite-la-poste-grandObama, com uma pronúncia bem macarrónica, fez, logo na sexta-feira, a observação básica, mas que não é banal, de que o lema da Revolução Francesa, proclamado em Paris, há mais 200 anos, bem perto dos sítios, manchados pelo ataque de 13 de Novembro, é nosso património comum face à barbárie.

Paris, já viu outros massacres na sua história, como os crimes nazis contra a Resistência, as deportações da comunidade judaica, os fuzilamentos coletivos dos membros da Comuna ou, pior, pelo fundo religioso que incluiu, em 1572, o massacre da noite de São Bartolomeu, também provocado por fanáticos, cristãos, guiados pela mesma cegueira que matou na sexta-feira.

Francois_Dubois_001Massacre de São Bartolomeu

Perante os ataques, de sexta-feira, ou os do Líbano e ao avião russo, na semana passada, perpetrados também como chacinas de inocentes, podemos apelar a mais segurança, mais meios militares e até ataques nos locais de origem do terrorismo (que realmente não são os dos terroristas, muitos deles franceses ou europeus).

Bataclan,_Paris_6_April_2008Edifício do Bataclan (foto de 2008)

Mas a mensagem que me tocou mais sobre o que se passou foi colocada por alguém, num daqueles memoriais de flores, junto a um dos restaurantes: “educação é o caminho”, dizia um postal, meio rabiscado, que se viu de relance na televisão.

Sabermos onde a Europa foi ter com massacres como o de S. Bartolomeu, ajuda sempre a refletir sobre o receio de repetir a intolerância  desses caminhos.

E, para isso, é preciso educar melhor do que a educação, recebida em França, ou noutros países europeus, pelos jovens que foram seduzidos, até à animalidade, pelos cantos de sereia do radicalismo.

E é um vídeo para uso prático em educação de crianças, e que tenta ser arma singela contra as raízes do radicalismo islâmico, que vos convido a ver.

O vídeo é de uma série produzida pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA), lançada a 9 de Novembro, destinada a crianças do ensino básico (que essa agência apoia na Síria, Líbano e Palestina, sendo um dos seus vetores principais de ação, a educação), em árabe na versão dos links, com legendas em Inglês e que foi paga pela cooperação dos EUA e que é adaptada à realidade social e escolar (por exemplo, com turmas separadas de rapazes e raparigas).

A série destina-se a apoiar professores para falarem de temas como a violência, como  Direitos Humanos ou discriminação e direitos das mulheres.

E focam, por exemplo, o tema, central na ideologia do auto intitulado Estado Islâmico, da igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Muitos dirão que coisas como o que mostro são ridículas (e alguns irão mesmo rir delas), na sua simplicidade destinada a crianças, mas, neste momento, para haver paz, talvez seja bom pensar nesta via: educar para o respeito pelos Direitos Humanos e fazer o encontro da Humanidade comum, combatendo nas escolas pelas ideias e pela defesa dos valores.

Há uma visível diferença, da perspectiva e conteúdo, com aquilo que já fazemos por cá nesta área.E essa diferença, ajuda a entender melhor o choque cultural que a nossa visão ocidental dos Direitos Humanos pode gerar nessas sociedades.

E, em vídeos que visam, no fim, a mudança de mentalidades, percebe-se como ela é difícil, até porque, visando educar para os Direitos Humanos têm uma perspetiva que nós diríamos superada (por exemplo, na questão dos direitos das mulheres, vejam que aparece como ícone, no calendário escolar, uma mulher com véu integral).

A ideia não é transplantar uma visão ocidental dos Direitos Humanos mas sim fazer progredir uma visão de Direitos Humanos com raízes e que melhore a situação.

Podemos chegar a ver o Ocidente a bombardear o pretenso califa, ou fazer desaparecer, com bombas lançadas de drones, o carrasco que encheu écrans com a sua barbárie e o sotaque inglês perfeito mas, o desafio, que vimos na televisão, só será superado, daqui a muitos anos, com pequenas coisas imperfeitas como esta.

Criando uma opinião pública e uma juventude árabe, que apoie e defenda os Direitos Humanos, e não se deixe seduzir pelos cantos de sereia radicais.

Apesar da raiva, que também sinto, que me faz entender a utilidade  de atacar na Síria, é preciso olhar com mais sentido crítico. O poderio militar ocidental arrasaria os 30 mil homens do ISIS e a sua derrota militar era certa. Não parece que seja difícil. Chegada a fase de ocupação, provavelmente os ataques continuariam na Europa, porque o sentimento de ocupação aumentaria o problema.

Não sendo pacifista, não recuso que possa haver, em certos momentos históricos, necessidade de guerras, que são sempre um mal e acabam a ser injustas, mas que podem ser o menor mal face a outros.Pode ser uma posição conservadora, mas responderia a isso que é simples consciência da História e da imperfeição humana.

O Dia-D, por exemplo, que tanto une a França e os EUA, foi um ato de guerra necessário, porque Hitler só podia ser derrotado pela força, sob pena de acabar de destruir a liberdade europeia.

Mas isso foi em 1938-45 (a Segunda Guerra começou em 1939, mas em 1938 já o problema da guerra contra ele seria premente). Por outro lado, Hitler podia ter sido facilmente destruído, sem guerra, em 1923 ou mesmo em 1933. E não tinha sido preciso haver cemitérios na Normandia, se tivesse havido outras iniciativas e mais força na afirmação de certos valores.Só que a História não se faz de “ses“.

Se não tivesse havido invasão do Iraque, se o Ocidente tivesse olhado para a democratização da Síria de outra forma, se se tivesse apostado noutro apoio aos democratas árabes, etc, etc. Tudo “ses” que podemos corrigir nos “ses” futuros mas que se esbatem perante “o que foi” realmente.

Porque, até acho que se pode mudar a situação militar e política, com um ataque em força ao ISIS, mas não mudam sustentadamente as ideias das pessoas que agem como terroristas, que se agravarão com a ocupação militar.

Esse trabalho de mudança é mais longo, mais incerto, mais difícil. Mas, talvez, mais necessário e mais eficaz, no longo prazo e para as próximas gerações.E aí entram os tais vídeos, como pequeno passo do que faz realmente falta, porque “a educação é o caminho”.

COMPARTILHE

3 COMENTÁRIOS

  1. “A questão que me leva a estas notas é mais no sentido de tentarmos perceber um processo que designo como “incubação do mal” que se instala nas pessoas, por vezes ainda antes da adolescência, a partir de situações de mal-estar que podem passar relativamente despercebidas mas que, devagarinho, insidiosamente, começam interiormente a ganhar contornos que identificam os alvos, por vezes difusos, sentidos, percebidos ou induzidos com os causadores desse mal-estar. A religião aqui pode aparecer como o “grupo” que acolhe e onde se partilha esse mal-estar. Não é causa nem é efeito, é “apenas” circunstância.”
    http://atentainquietude.blogspot.pt/2015/11/a-incubacao-do-mal.html

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here