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Sobre a liberdade (Leitura e escrita)

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Há muitas definições de liberdade. Há definições gerais e há definições muito próprias, porque isto da liberdade esbarra sempre na caixa dos nossos valores e das nossas morais internas.

Ler e escrever são os nossos principais instrumentos de liberdade. Quanto mais hábeis formos nestas competências mais ampliamos o nosso entendimento do mundo. Aprendemos a ler e a escrever para nos tornarmos mais livres, livres para aumentar o leque de escolhas do nosso futuro, livres para comunicar mesmo quando não concordam.

 

Vamos olhar para o início, para as bases da liberdade.

Desenvolver estas competências não são tarefas simples. Recordo-me de um professor que tive na Universidade que me dizia. “Se acham que saber ensinar a ler e escrever é só ensinar o “B” “A” “BA” podem sair por aquela porta. Não estão aqui a fazer nada” É necessário conhecer e dominar todos os aspetos que antecedem e monitorizam esta atividade.

A oralidade é um caminho natural de aprendizagem informal. Aprender a ler e a escrever não é um percurso natural. Há um caminho a percorrer de apropriação de estratégias que necessitam de uma aprendizagem formal, de um ensino explícito, consistente e sistematizado. Não há milagres, não há vacinas, não há comprimidos. É um trabalho de identificação, sistematização e consolidação.

Para aprender a ler é necessária uma ligação afetiva com a leitura e é por isso que o trabalho desenvolvido no pré-escolar e em casa com a família é essencial. O pré-escolar não serve para ensinar a ler e escrever, isso seria um erro crasso. Felizmente tem Orientações Curriculares e não Metas, o que permite um trabalho mais livre, mais consistente e um dos mais importantes. É importante criar o gosto pela leitura por histórias, folhear livros, começar a identificar rimas, trabalhar a organização espacial, trabalhar a psicomotricidade, pois esta tem um impacto gigante na aprendizagem formal.

Embora leitura e escrita sejam indissociáveis, a escrita exige mais estratégias do que a leitura uma vez que não é uma transcrição isomórfica da oralidade. Há várias competências em jogo: capacidade caligráfica; competência ortográfica e particularidades da pontuação.

Muitas vezes ouvimos falar num “dom natural da escrita”. No meu entender esta premissa é um mito. Não acredito em dons naturais. Há aprendizagens, perfis de funcionalidade e contextos culturais que ampliam os conhecimentos na competência escrita. Nem todos partem em igualdade de circunstâncias e por isso é necessário um olhar atento e individual à entrada das crianças no 1ºciclo. As representações gráficas e os conhecimentos que trazem são diferentes e por isso não é legítimo, na maior parte dos casos, que todos à mesma hora, no mesmo espaço, estejam a aprender exatamente o mesmo. Como também não é legítimo delegar mais tempo a conteúdos que serão repetidos no 2ºciclo em detrimento de um trabalho contínuo e consistente sobre ler e escrever.

Trabalhar ferramentas de liberdade é um desafio. As areias na engrenagem – as dificuldades específicas de aprendizagem dificultam o processo. Se não existir uma intervenção atempada há liberdades que ficam pela metade. E esse não é, nem pode ser, o objetivo da escola.

A escola tem de ser um espaço de promoção de liberdade. Aquela liberdade em que as caixas individuais guardam um espaço (grande) de aceitação do outro.

Maria Joana Almeida

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