Home Legislação L’École c’est moi:“Escolas” chumbam novo modelo de avaliação dos alunos

L’École c’est moi:“Escolas” chumbam novo modelo de avaliação dos alunos

143
0

Raffael_061-thumb-600x747-87750 A segunda parte deste título, e a notícia a que serviu de intróito no DN, puseram-me o espírito a andar à volta de muita coisa. Para os que estão pouco adeptos de leitura longa, simplifico: lembrei-me de Aristóteles, do rei Sol e absoluto Luís XIV (e do seu L’état c’est moi, o “Estado sou eu”), da sigla HMS e da sigla NRP. No fim das voltas mentais arrevesadas à roda destas ideias disparatadas fiz para mim uma série de perguntas e pensei em dar um conselho simples ao ministro da educação: chumbe Vossa Excelência o Conselho de Escolas.

O estudo da História, desde tenra idade, fez-me mesmo muito mal. Era muito mais feliz na ignorância destas coisas estranhas que me vêm logo à cabeça perante uma notícia tão simples de entender: os diretores de escola dirigem as escolas e, em conjunto, elegem entre si um órgão consultivo nacional, criado (de forma politicamente oportunista) pela ministra Lurdes Rodrigues, na altura, para gerar artificialmente uma conveniente e aparente representatividade que concorresse com os sindicatos (porque os professores eram massa esparguete, lembram-se? Eu ainda não esqueci).

Os Diretores eleitos para esse órgão, pelos vistos, debateram entre si e votaram um parecer em que discordam da proposta de extinção dos exames e das novas provas de aferição. Logo, conclui o DN em grandes parangonas, “as escolas chumbam novo modelo de avaliação dos alunos.”

E não, não me lembrei de Aristóteles, que estudou silogismos como o que enunciei acima, porque um dos termos do silogismo é objetivamente errado: dirigir as escolas, não é representá-las.

O cavaleiro dirige o cavalo mas isso não faz com que o represente: quando cai do cavalo, ou leva um coice, o cavaleiro percebe que dirigir, por vezes, dá poucos direitos de representação.(Curiosamente até há quem pense coisas parecidas a isto no próprio Conselho de Escolas, como verão os que lerem o referido parecer e virem, bem lá para o fim, duas declarações de voto interessantes)

E nem entremos pela dúvida de saber se os directores realmente  dirigem ou são dirigidos, isto é são Sol ou Planeta sem luz própria….

Lembrei-me então de Aristóteles porque este filósofo refletiu sobre Política (também sobre politiquice, mas não exclusivamente) e uma das suas ideias era que os sistemas de governação, mesmo democráticos, deveriam ter, dentro de si, para funcionarem melhor, além de formas de poder democrático, formas aristocráticas e formas monárquicas.

bar-female-maskO nosso legislador criou um arremedo de monarca nas escolas (monarca tem a ver com mono, um) porque acredita, vá-se lá saber porquê, que um só gere melhor que muitos. Crença de Lurdes Rodrigues, que a levou à prática o que até poderia discutir, mas não agora, que a condecoraram e ficaria encavacado.

Mas, apesar de tudo, o/a Legislador/a teve o cuidado de colocar, ao lado do monarca de “liderança forte” (que pode durar 16 anos, além dos que tenha para trás),  órgãos representativos (Conselhos Geral e Pedagógico) que, tendo entorses vários à sua real democracia, podem, pelo menos, aproximar-se dela pela relativa representatividade.

O Conselho pedagógico é, alegoricamente, o elemento de aristocracia (porque não é fruto de pura eleição e inclui apenas os professores, por causa da sua componente técnico pedagógica).

E a democracia escolar fica por conta do Conselho Geral (o que só mostra o estado catatónico da democracia escolar….).

Mas, apesar desses órgãos coletivos, que podem construir e debater uma posição democrática, ou mais alargada, das escolas, os diretores, quais Luís XIV, à maneira do “L’état c’est moi” (no caso “a escola pública sou eu”) assumem uma posição e passam a ser “as escolas” nos jornais…. porque os jornalistas não entram nessas minudências.

E fica a pergunta: sendo os exames e a avaliação uma matéria pedagógica, quantos Conselhos Pedagógicos, dos que tenham tomado posição, tomaram a que agora passou a ser “a das escolas”?

Imaginemos que perdia algum tempo da minha vida a pedir acesso às atas dos conselhos pedagógicos das escolas dos diretores representantes no Conselho de Escolas (e só desses, para poupar tempo). Lembram-se do que aconteceu quando fiz isso a última vez?

Em quantas delas encontraria votações maioritárias, ou sequer debates, com ou sem votação, em que a posição adotada fosse a que agora passa por ser “a das escolas”? Será que, nas centenas de Conselhos Pedagógicos reunidos e que tenham debatido tais assuntos, que são da sua conta pedagógica, a posição foi essa?

Será que os docentes que neles estão, que devem representar os restantes docentes, votaram a favor dessa recém-proclamada “posição das escolas” e chumbaram o novo modelo de avaliação? E, nos conselhos gerais, que, mesmo com insuficiências, representam cada uma das escolas e agrupamentos, terá sido adotada e votada essa “posição das escolas”?

E foi neste ponto que me lembrei das siglas HMS e NRP.

combp20121026-2No Reino Unido, os navios de guerra são designados pelo nome precedido de HMS (Her Majesty´s Ship). Como o país é uma monarquia, democrática mas com rainha, ficciona-se que o monarca é dono do navio: por isso, por aí, um porta-aviões é o “porta-aviões de Sua Majestade”.

Em Portugal, a Sagres é o NRP Sagres: Navio da República Portuguesa.

E as escolas, são de um homem ou mulher só, ou são da República?

E para acabar: conselho ao Ministro, e não vale por mais ninguém que não eu próprio: não tenha medo que lhe chamem pouco democrata… acabe mesmo com o Conselho de Escolas, já que, assim como, assim, foi um órgão criado por razões pouco democráticas…(por uma antecessora sua do mesmo partido, por sinal).

Se fizer as coisas com calma e a tempo de esperar, para saber realmente o que pensam as escolas, pode questionar cada Conselho Pedagógico e Conselho Geral de cada escola, individualmente, numa dessas plataformas (que grassam para tantas outras coisas inúteis, como erva daninha), ou por mail, ou carta e, as respostas que receber, hão-de ser mais representativas das opiniões “das escolas”.

Se fizer assim, até pode nem colocar nada no lugar do órgão chumbado. Nada se perderá de Democracia.

PS: O comentário final para o Partido Socialista é: “vocês que o inventaram, para tentar calar os professores, aguentem-no….”

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here