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“Lamento o tempo que não dediquei aos meus filhos por trazer para casa os meus alunos e os seus problemas”

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O mais caricato hoje é pensar-se apenas que os professores não têm uma correcta formação ou estarão na profissão errada. Eu sei que é muito mais fácil assim. Não é por acaso que ser professor é uma classe envelhecida, claro que sim. O professor vive na escola e para os alunos e no final do dia ‘traz os alunos para casa’ na preocupação de tentar encontrar soluções para os seus problemas e dificuldades.

Os jovens que assistem de perto a esta entrega total do tempo aos alunos, à escola, em busca de soluções para alguns/muitos discentes, alienando tempo de família para dedicar aos miúdos que trazemos para casa no pensamento e nos ocupam a atenção que não dedicamos aos nossos, não querem ser professores hoje.

No entanto, no final, por melhor que façamos, por maior que seja a entrega, somos culpados. Sinto que dei tudo aos meus alunos sempre e sem excepção. Hoje sinto-me muito cansada, desgastada, não por ensinar conteúdos programáticos mas por ser professora e como diz Roseli de Abreu “Ser professor é muito mais que uma profissão. É saber somar, é gostar de dividir, é ter o dom de multiplicar”.

A única culpa que sinto e lamento é o tempo que não dediquei aos meus filhos por, indiscutivelmente trazer para casa os meus alunos e os seus problemas. E sei que não sou a única sendo que a maioria dos professores faz o mesmo.

Ninguém assume a docência pelo vencimento ou estatuto. Por aí não havia professores hoje. Ser professor é muito mais que debitar conhecimentos. E só quem vive esta profissão sabe o que se deixa para depois em prol dos alunos, da escola. Não é o ‘canudo’ que me habilita para falar do que faço há trinta e dois anos, de corpo e alma na escola pública e percorrendo o país.

O que me dá esse privilégio é não só a minha formação pedagógica como e, principalmente, esta experiência no terreno, as várias comunidades educativas que tive de conhecer e os milhares de alunos (não estou a exagerar, milhares) que passaram pela minha vida. São eles as minhas principais testemunhas.

Ainda tenho esperança que um dia este país honre quem tanto fez e faz pelas crianças de todos os pais. Hoje mais do que ontem digo de coração, muito obrigada professores da minha vida de estudante, obrigada pelo tempo, pela dedicação, pelo carinho, por escutarem, pelos conselhos gratuitos, pelos ‘raspanetes’, pela amizade, pelos ensinamentos. Hoje mais do que ontem estou imensamente grata a todos os professores que fizeram parte da minha formação.”

Rosi Meireles Cunha

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