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Lamento intimista de um cidadão professor português roubado

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Os episódios desonestos no parlamento, sindicatos e comunicação social à volta e contra a ILC do tempo de serviço docente fizeram-me descrer da Democracia. Dos deputados, do parlamento e dos sindicatos. O impacto pessoal, na minha visão particular, do que se passou é muito profundo. Deixei de acreditar na capacidade de o sistema político e social português se regenerar sem um movimento social que ultrapasse o institucionalismo vigente. Em termos pessoais, essa visão é todo um novo horizonte de vida.

A ILC é um projeto generoso e corajoso de muitas pessoas, que muito me honra que tenham depositado em mim confiança para os representar em vários momentos.

No vídeo do que disse no parlamento creio que se vê essa desilusão pessoal e até emoção pessoal, por trás do esforço de fazer bem o papel que me atribuíram.

Uma visão de vida

Sou oriundo de uma família de professores de que sou a 4ª geração. Ao escolher a profissão, julgava que me daria estabilidade financeira suficiente e o conforto razoável de um trabalho intelectual estimulante. Não queria ser rico. Mas queria viver medianamente e com conforto. E ter uma profissão respeitada. Estou a pensar seriamente mudar de vida, no médio prazo que seja.

E quem me vir a dizer isto ainda vai estranhar: sou professor do quadro, fui diretor, estou colocado na escola da minha colocação definitiva no centro de uma cidade e estou na carreira. Tenho aquilo que tanta gente quer no grupo docente. Há quem tenha mais razões de queixa. Mas tudo é o “homem e sua circunstância”…

Sou o exemplo de alguém que sabe que tem algum talento para outras coisas (e já viveu muito bem dele) e que se fartou do que fazem à educação nacional. A imoralidade tem limites e quem a sofre placidamente partilha da imoralidade dos que a criam. O que vou fazer com estas constatações pessoais ainda medito…

O meu lauto salário e rendimentos….

Ganho 1250 euros líquidos por mês, ao fim de 23 anos de profissão (e não falemos da formação e currículo, para não ter ainda mais a sensação que andei a desperdiçar a vida). É muito mau que, quem forma jovens, acumule a desilusão de que, fazer isso (esforçar-se, estudar e formar-se), é desperdiçá-la.

Mesmo com as batotas que o Governo anda a fazer, estando agora no 3º escalão, já devia receber 1300 euros líquidos mensais desde Setembro. Só em dezembro chegaremos aí.

Com os 9 anos recuperados, ganharia, a partir do momento em que isso acontecer, 1380 euros mensais líquidos.

E os 1380 euros são sem direito a receber nada do que ficou perdido no passado. 1380 euros para futuro. Portanto a discussão dos 9 anos integrais significa para mim um aumento mensal futuro de 180 euros (que não compensa a perda de milhares durante a última década).

E aumentar-me é um problema terrível para os que enchem a boca com a necessidade de “ter os melhores professores no sistema”.

Este, que não será dos piores, daqui a pouco vai-se embora porque ganhará juízo. E não devo ser o único. Há maneiras de ganhar mais. E há muito mundo. Implica risco, mas não há que ter medo do risco.

O outro, pelo menos, não era hipócrita…. Saiam da vossa zona de conforto. E se se sair da área do desconforto?

O caso de roubo dito de forma simples

Devolver 2 anos e uns trocos, de uma perda de 9 anos, não é devolver nada.

É roubar. E quem rouba é ladrão.

E quem é ladrão não pode governar.

Raciocínio simples e direto.

Que pode ser prolongado: quem colabora com ladrões é cúmplice e isso faz dele ladrão.

Quem apoia ladrões, que governam a roubar, é tão ladrão como eles.

Tão ladrão é o que rouba como o que deixa roubar.

E quem rouba aos trabalhadores para pagar aos bancos (mesmo alegando que só empresta) é moralmente um ladrão pior.

Subi em setembro ao 3º escalão (23 anos depois de começar a carreira). Ganho menos do que ganhava há 10 anos. Por isso, objetivamente não subi coisa nenhuma. Recuei.

No meu primeiro emprego em 1992 ganhava mais (ganhava então 180 contos mensais…. o que daria hoje menos de mil euros….mas foi há quase 30 anos…). Em 1993, no ano anterior a entrar na carreira, como vendedor, ganhava o que hoje seriam 1000 euros. Só que escolhi ser professor, com os dados que tinha então….asneira.

Quando o decreto do Governo for promulgado não vou receber seja o que for. Nem em 2019, nem em 2020. Talvez em 2021, só porque tive excelente na avaliação de aulas observadas. E porque completo, então, um escalão de que já devia ter saído, algures na primeira década do século. Se não tivesse o tal excelente, era só em 2022 ( o excelente dá bónus de 1 ano).

Marcelo devia ter juízo e não fazer perguntas imorais e pouco verdadeiras

A pergunta do Presidente Marcelo sobre o queremos é de uma falta de ética atroz: não posso escolher entre nada e zero, porque é sempre zero. Querer ter o apoio eventual do PS em próximas eleições deve obrigar, mesmo assim, a mais pudor.

O decreto dos 2 anos só faz efeito para os que subam de escalão depois de ele entrar em vigor. Embora devesse já estar no 6º escalão, só daqui a 2 anos receberei o montante correspondente ao 4º escalão (2 abaixo daquele em que devia estar, que é o 6º) e, mais de uma década depois do momento em que tinha direito por lei.

Isso significa que, embora digam que vamos subir de escalão e salário, eu vou continuar a receber o mesmo nos próximos 2 anos e, comigo, a maioria do professores que, no último ano foram colocados em escalões inferiores aos que têm direito, com 10 anos de atraso.

O decreto foi desenhado assim: dizemos que sobem de salário, mas realmente não sobem.

Um roubo. E que só parece não o ser, porque nos explicamos mal. Falamos demasiado de tempo e pouco de salário.

Temos vergonha de que, para trabalhar bem, precisemos de ser bem pagos? Os professores não são mercenários, mas não têm de ser missionários. 1380 euros é assim um salário tão alto, para um profissional qualificado e experiente, senior, como agora se diz?

O ministro devia ter vergonha do que disse no fim do Conselho de Ministros. Ser roubado à traição não reforça as comunidades educativas. É tão só ladroagem.

2 anos, uns meses e uns dias contados para o próximo escalão significam zero em salário, hoje. Zero.

E a culpa é do Governo. Mas também daqueles que nos deviam defender com inteligência e zelo e andaram a brincar estes 4 anos e a gerir mal o problema. A pensar nas politiquices partidárias. Tão ladrão é o que rouba como o que deixa roubar.

Alguns deles (a maioria) desses dirigentes sindicais, que dizem representar-me, não me podem representar porque não me entendem (a mim e aos outros como eu). Realmente é fácil ver a realidade de certa forma, sentado no salário do 9º ou 10 escalão (umas centenas de euros acima daquele por que luto) em alguns casos com menos tempo efetivo de aulas dadas do que eu (que estou no 3º, recordo).

Ou não as dando de todo. Realmente nessa circunstância até pode esperar-se serenamente que uma petição tonta (quando há lei em discussão aberta por via do ILC) chegue ao seu final parlamentar só em junho. Nessa altura, passaram 18 meses desde 1 de janeiro de 2018 e eu perdi uns 2000 euros acumulados todos os meses, com as habilidades politico-sindicais e os jogos florais imorais.

Para o dia da manifestação já tenho outros compromissos.

Mas ainda que não tivesse, ninguém me apanhava lá. Estou cansado de ser figurante em jogos mentirosos. Fiz o que podia, a lutar até ao limite das minhas forças, e ninguém com ética me pode acusar de trair a classe a que pertenço.

Eu não traí, mas há quem traia e continue a poder fazê-lo, porque muitos se calam e conformam com o jogo como ele vem sendo jogado. A minha vida está feita e posso fazer sempre o que fiz: faço-a eu.

Milhares de horas de formação depois, avaliado de excelente com aulas observadas, reconhecido pelos alunos. Que mais querem para me pagarem um salário que ache justo? E mais ainda, o que me prometeram, quando em 1995 decidi escolher desperdiçar os meus talentos potenciais para outras coisas a escolher ser professor?

Porque havia uma carreira e certos direitos…..Roubaram-ma.

Querem os melhores na profissão? É isso? E que tal pagarem com o mesmo ângulo com que pagam aos “melhores gestores”.

Os meus alunos têm resultados comigo (por seu mérito, mas também porque, pelo menos, façam-me essa justiça, não os estrago…). Podem dizer-me o mesmo dos que gerem ou geriram os bancos e empresas que tanto reverenciam?

Se eu for multado na estrada que me leva à escola posso meter a multa à escola? Pois não…. Isso era roubar.

10 COMENTÁRIOS

  1. É muito triste sentir o cansaço do contínuo remar contra a maré. É frustrante não sentir mais ao que se agarrar para se salvar e é revoltante, ver e sentir as potentes e gigantes patas a esmagar o espoliado como se de formigas tratasse.
    Sim. é um roubo, é um mau trato, é a maior injustiça porque além de não se pagar o ordenado digno e de direito a quem trabalha, também lhe foi mentido, quando lhes foi exigido para contribuir nos momentos de dificuldades do país, lhe prometeram que seriam repostos nos seus anos de carreira. Mas na hora de verdade inventam, mentem despudoradamente.
    Que fique bem claro: os professores perdem, mas as perdas do País são e serão muito maiores. Duvido muito que os mandantes do M.E. consigam ou estejam interessados em analisar a dimensão destas perdas, que, para o País são e serão mais penalizadoras do que os mentirosos 600 milhões.
    Vamos em frente professor Luís Braga. Tem feito muito pela classe, tem dado coragem e estimulo para lutarmos. Acredite que, apesar de tudo, não fomos vencidos. Obrigada pela sua força, pelos seus textos bem escritos e esclarecedores que gosto muito de ler.

  2. Fiquei triste em ler o teu artigo. Já falámos várias vezes e ver-te assim, tão desalentado e a pensar mudar de profissão, deixa-me ainda mais preocupado, pois os melhores são os que mais precisam de cá ficar, são os nossos faróis e as nossas fontes de inspiração.
    O pior, é que também eu tenho pensado em deixar isto tudo para trás, mas falta-me uma alternativa que sustente a minha filha e o que ambiciono para ela…

  3. Subscrevo todas as tuas palavras. Todas. Sem excepção. Talvez não tenha comentado tão abertamente o meu desalento com vocês mas eu também me quero ir embora, coisa que farei no espaço máximo de 4/5 anos. Não aguentarei muito mais a humilhação constante a que esta gentalha nos vota. Beijo enorme com muita admiração e carinho por ti, Luís Braga! E levo o teu texto comigo.

  4. Não vou ser e não quero ser indiferente perante este relato.

    Fica-se zangado e sentimo-nos injustiçados, sem dúvida.

    Mas penso que, a consequência perante a injustiça não pode ficar por um relato de desalento intimista. Cada um de nós, professores, poderia fazer o mesmo relato porque, como escreve, cada um e cada uma “têm a sua circunstância”.

    Lutar e protestar dão trabalho. Avança-se e recua-se. Um passo à frente e dois à rectaguarda não significa necessariamente uma derrota. A luta é individual e colectiva e não tem resultados imediatos.

    É isto que, penso, falta no texto do Luis.
    É isto que falta em todos os textos que tenho lido do Luis.
    Poder-me -à dizer que, o facto de ser um dos representantes da ILC, mostra o contrário.
    Posso estar a ser injusta mas mesmo neste caso há um individualismo/intimismo latente.
    Desejo-lhe as melhores felicidades numa outra opção profissional e espero sinceramente que nos relate sobre a sua experiência.

    Quem sabe, será essa mesma a opção para muitos colegas jovens.

    Cumprimentos.

    • Ana, neste caso posso afirmar que está a ser tremendamente injusta. A luta do Luís não começou com a ILC, o Luís há muito que faz mais do que milhares de professores juntos…

  5. Revejo-me em todo o desabafo, injustiça e revolta, até na oportunidade de ter seguido outra carreira de sucesso, da qual desisti em prol de ensinar. Até parece que ao escrever este real desabafo, estava na minha cabeça. O que prova que escreveu aquilo que milhares de professores sentem. A minha história só tem uma pequenina diferença…este ano vou concluir 21 anos de serviço e estou no 2°escalão e estou efetiva numa escola a cerca de 100km de casa. Estou cansada de uma sociedade que maltrata os docentes, que acham que temos vida boa e que ganhamos “Rios de Dinheiro”. Aconselho a todos eles (que sabem Criticar) a experimentar antes de falar, até porque dentro em breve se continuarem assim, vão precisar de professores, porque já não há quem aguente a carga e já nem estou a falar de dinheiro (que de facto, somos mal pagos). Falo da carga de trabalho dentro e fora do horário laboral; das constantes mudanças no sistema educativo às quais temos de dar resposta e nem nos dão tempo de as preparar e aplicar; às mudanças da sociedade e sobretudo à forma como esta “mostra” como que os professores não são para ser respeitados, só estão ali para dar resposta às vontades e desejos da sociedade. “Depois” admiram-se do crescente aumento de violência dos mais jovens para com os adultos ou idosos. Eles aprendem desde cedo que os professores, que naquela fase representam a comunidade adulta, não são para respeitar, são para guardar e aturar… depois querem desenvolver o respeito dos mais jovens para com os mais velhos. Muito mais havia a dizer, mas o remar contra a maré esgotou as minhas forças, por isso, resta-me dizer que cheguei ao fundo. Tratam-nos de forma desumana e depois exigem qualidade e motivação máxima. Talvez uns robots possam substituir os professores e satisfazer esta sociedade insatisfeita e inconsequente… A única Contra-indicação é que os sentimentos dos nossos jovens deixarão de importar e os abraços, que tanto precisam, podem ser mais frios (não haja preocupação, a frieza, será apenas fruto do material utilizado na construção destes equipamentos). Resta-me dizer que apesar da solução não ser a melhor, estou feliz pelo acordo alcançado para recuperação do tempo de serviço dos nossos colegas das regiões autónomas… só fiquei confusa quanto ao sermos todos portugueses, pensei que éramos!? Estou baralhada quanto ao significado do princípio da equidade, até porque, também, parece (se entendi bem, se não, corrijam-me) que estamos prestes a assistir colegas com menos tempo de serviço que infelizmente (ou felizmente) só entraram na carreira há pouco, irão ser reposicionados no escalão devido (e muito bem) e com menos tempo de serviço, auferir de um escalão e remuneração maiores do que os outros docentes de carreira com mais tempo de serviço. A justiça para estes colegas será reposta e muito bem, nós outros docentes de carreira “mais velhos” é que estamos, mais uma vez, a ser vítimas de um tratamento injusto e desigual.
    Pergunto-me:
    – “Não há já matéria suficiente para avançar para os tribunais?” ;
    – “Com a união e insatisfação geral da classe docentes, não conseguiríamos criar um” pé de meia” para elevar a forma de luta e levar o(s) responsável (eis) a tribunal? As greves, na minha perspectiva, só servem para encher os cofres do estado. Porque não encher o nosso próprio cofre e avançar para a justiça? “.
    Desculpem este longo desabafo, mas só vocês meus companheiros docentes, me entendem. Para os outros (que estão de fora), o enredo é tão grande, como difícil de explicar ou de nos fazermos entender ou até ouvir. Bem haja a todos

  6. Ao ler o texto do Luís Braga… apertou-se-me a alma.
    Não o conheço pessoalmente mas pelos muitos textos que fui lendo, ao longo destes tempos, bem escritos e fundamentados e com os quais concordava. Uma pessoa de convicções e conhecimento e que me parece de moralidade que também tem estado na linha da frente a denunciar ilegalidades e a defender os Professores. Uma pessoa activa e de “batalha”.

    Apertou-se-me a alma pelo desencanto profundo que senti ao ler o seu texto; … apertou-se-me a alma pois precisamos de pessoas assim; … apertou-se-me a alma pois senti todas as palavras que escreveu.
    Apertou-se-me a alma pois, que a uma escala diferente e sem a sua visibilidade e com anos de denúncias (- poucas horas de sono, desgaste incomensurável, e sem faltar alguma vez para com os meus alunos) já senti o profundo desalento de uma administração pública tomada pelos “boys for the jobs”; de um parlamento que finge defender os cidadãos mas só lhes interessa as jogadas de alcova para manter poder e status; de uma série de instituições que supostamente defenderiam os direitos dos cidadãos mas igualmente politizadas/partidarizadas/maçónicas; de governos que institucionalizam a mentira, o “faz-de-conta” e a inveja e manipulam os cidadãos com o aval da generalidade da comunicação social; governos que denigrem as suas próprias instituições e profissionais e subvertem a justiça a jeito; democracia???? – as pessoas andam mesmo distraídas… Os tribunais, nomeadamente os administrativos, não funcionam??? – a quem será útil? Pois!
    Desalento e impotência quando colidem com fortes e profundas convicções e acções vão “matando” a alma…
    Mas… Luís Braga, se me permite que me dirija a si: o Carácter estará lá sempre e o bichinho voltará.
    Como outros referiram…isto ainda não terminou – NÃO PODE TER TERMINADO porque, simplesmente, temos razão. Unamo-nos, bolsas, tribunais… siga!

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