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Percorro o longo corredor ainda mergulhado na penumbra da alvorada chuvosa. Na sala de espera, algumas pessoas aguardam já em silêncio, apesar faltar quase uma hora para o início do expediente.

Violência DomésticaNo gabinete, repito distraidamente os gestos de todos os dias: água a ferver na chaleira, a chávena em espera na beira do aparador, a revista breve da agenda, a organização mental das tarefas. Sobre a secretária, no espaço livre em frente à cadeira, repousa uma pasta que não estava lá no dia anterior. A sua presença, ali imposta com um certo descaramento exibicionista, como quem desrespeita uma fila, revela um afogadilho de urgência. Tem nome de mulher e é anafada (a pasta, não a mulher), tem as entranhas atafulhadas de folhas de vários tamanhos e cores, algumas já amarelecidas por outonos antigos.

Uma leitura rápida das primeiras páginas confirma o apressuramento da causa. Instintivamente, abeiro-me da sala de espera e profiro o nome que consta na pasta. Uma mulher levanta-se como uma mola, os braços magros cruzados sobre uma mala preta, diz “sou eu, sou eu” e entra pressurosa no gabinete. Atrás dela, como uma sombra, entra um rapaz também esguio, de andar desengonçado de adolescente.

Convido-os a sentar, a mulher oferece-me um sorriso grato e diz: “ainda bem que foi a senhora que me chamou, e não o outro senhor!” Ensaio um pedido de desculpa pela descortesia de não a reconhecer também, mas sou de imediato tranquilizada que não, não nos conhecemos, mas que ela fica muito mais serena “em falando com uma senhora”.

“Sabe”, continua ela depois de instalada, “é que eu tenho muita vergonha de falar no meu caso”, declara com uma vozinha sumida, enquanto acaricia a mão do rapaz sentado ao seu lado. O miúdo é esguio, mais alto que a mãe, todo ele braços e pernas a crescer num despropósito, os joelhos ossudos, a face angulosa e pálida, a tez infantil a começar a ser contrariada por um arremedo de barba penugenta a despontar.

“Não tem de ter vergonha”, asseguro-lhe: “nenhuma pessoa deveria sentir vergonha por ter sido vítima de agressão”. O rapaz desliza lateralmente na cadeira para ficar praticamente colado a ela. Agora é ele que segura a mão dela. “Não é disso que tenho vergonha”, diz ela. “Envergonho-me de ter escolhido aquele homem para pai do meu filho, sabe? Fui eu que o aceitei. A culpa de tudo o que se tem passado é minha, sabe? Eu é que quis namorar com ele, eu é que fugi de casa para estar com ele, eu é que decidi ter um filho para ver se as coisas melhoravam, percebe? Eu é que sou responsável pela vida miserável deste menino, essa é que é a verdade”.  As lágrimas caem livremente e realçam-lhe as olheiras arroxeadas. O rapaz escuta-a, aflito, e segue as suas palavras com os olhos a transbordar de choro e meiguice.

Aceitam o chá que lhes ofereço. As canecas fumegantes ocupam-lhes as mãos e amparam-lhes o olhar. A mulher desenrola o seu novelo, conta pelos dedos as agressões que ambos sofreram, as estadias no hospital, as queixas na polícia, as agruras das audições, as comparências em tribunal, mostra as cicatrizes de um e outro, as mazelas nos ossos, os vestígios das feridas, a voragem do medo, o negrume da perpétua agonia a roer-lhes o espírito. Por duas vezes ganharam ânsias de fugir, foram ajudados, saíram silenciosamente, escondidos no negro da noite. Por duas vezes começaram de novo, longe, uma vida de pacatez e mansidão, sempre interrompida pelo terror de terem sido novamente encontrados.

Estão os dois encostados um ao outro, como siameses compactamente unidos. “Cá estamos mais uma vez a precisar ajuda”, remata a mulher, as lágrimas ainda a correr-lhe no rosto branco. Estão imóveis, os dois, o choro a exacerbar-lhes o cansaço. A certa altura, a mulher repara no rosto desfigurado do rapaz: os olhos vermelhos das lágrimas, o nariz, demasiado grande, vermelho e inchado, a humidade do ranho a descer-lhe para os lábios. Tira então da mala um gracioso e delicado lencinho e, segurando-o com elegância entre o polegar e o indicador, assoa o nariz do seu menino, num gesto carregado de infinita ternura e de um amor avassalador, tão real e tangível, claramente tão maior e mais forte do que a estúpida bestialidade que os persegue.

MC

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