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João

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fugiiiiiiiiiiiiirO João, dez anos acabados de fazer, todos eles vividos em instituições, é o mais recente residente deste centro de acolhimento. A mãe, toxicodependente desde a adolescência, voltou grávida de uma viagem à boleia pelo norte da Europa e morreu poucas semanas depois do parto. Dela, nada se lembra: teve em tempos duas fotografias que o auxiliavam nos sonhos, mas que desapareceram algures entre as carruagens da vida. O pai, de quem herdou o cinzento marítimo do olhar e a aparente placidez dos gestos, ninguém sabe quem é. Todos os seus pertences, que debandam de poiso em poiso conforme as voltas do carrocel institucional, cabem num saco escuro e desbotado de desporto. Só há uma coisa que é cara ao João, como de resto, à maioria dos meninos institucionalizados: a possibilidade de ter uma família.

Desde que se lembra, o seu mundo foi sempre partilhado por muitas vozes, habitantes em camas pequeninas alinhadas ao lado da sua, pessoas a chegar e a partir, prestadores de serviços a cumprir as suas funções e a voltar para suas casas ao fim do dia, para os desvelos não remunerados às suas famílias, a transitoriedade da vida sempre a desfilar à sua volta, como numa imensa central de comboios.

O mais perto que esteve de uma família foi quando conheceu a D. Piedade, cozinheira do centro ia para mais de trinta anos. O João apaixonou-se irremediavelmente por aquele colo quentinho e almofadado, pelas mãos gorduchas e brandas que lhe revolteavam o cabelo e lhe davam pequenos petiscos na mansidão das tardes, quando os mais crescidos estavam na escola, pelo cantarolar constante que o apaziguava e adormecia, pela voz musical de avó perfeita que adivinhava nela – intuía, apenas, porque o João nunca tinha conhecido uma avó.

Quando a D. Piedade se aposentou e regressou à sua aldeia, o João minguou e emudeceu, morreu de desgosto uma e outra vez, morreu muito, todas as noites, sozinho na sua cama rodeada de gente, chorou a perda de algo que nunca fora dele. Por duas vezes fugiu do centro, pegou nas tralhitas e lá foi, mundo fora, à procura da sua D. Piedade. Da primeira vez, pilharam-no logo ao fim de pouco tempo, ia a pé, na berma da autoestrada, saco encardido ao ombro, a caminho da felicidade. Na segunda, já mais sabido, não voltou a aproximar-se daquele local aziago, ficou a saber que não se pode andar a pé numa autoestrada, tudo bem, aprendia rápido as suas lições.

O segundo plano tinha pernas para andar: descobriu que havia uma estação de comboios que tinha o nome da aldeia que procurava e pôs-se em marcha. Caminhou pela linha do comboio durante dia e noite, peregrino incansável e insone, até ser visto por uns agricultores que estranharam o insólito e alertaram as autoridades. Quando o encontraram, tinha calcorreado mais de metade da centena de quilómetros que o separavam do sonho.

O senhor doutor juiz recusou-se a ver-lhe o engenho e só encontrou destempero e insensatez onde podia ter vislumbrado o amor; não foi em cantigas e logo ali o transferiu para o lado oposto do país.

MC

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