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João Miguel Tavares | Não há professores. Cada professor é um professor

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O tema da avaliação de professores precisa de ser abordado de forma séria e verdadeira…


Eu sou um produto, para o bem e para o mal, da escola e da universidade públicas. Nunca andei em instituições privadas. Três dos meus quatro filhos frequentam a escola pública, e a mais nova só não frequenta porque ainda tem cinco anos. Há razões financeiras para esta escolha, pois os filhos são muitos, mas há sobretudo razões de princípio: acredito na importância do ensino público; frequentei-o numa época em que era menos exigente do que hoje e não me dei mal; prefiro que os meus filhos cresçam longe das bolhas elitistas (sem desprimor) que são os melhores colégios privados; acho até que certas limitações próprias da escola pública têm vantagens em termos de autonomia e de resiliência (se os pais desempenharem bem o seu papel); e prefiro investir o dinheiro que poupo na mensalidade dos colégios em actividades extracurriculares, ou a viajar com os miúdos para fora do país nas férias do Verão ou da Páscoa, para ganharem mundo.

Este primeiro parágrafo serve dois objectivos: demonstrar que sei do que falo quando falo da escola pública, e tentar afastar o preconceito de que quando critico Mário Nogueira, os sindicatos ou certos privilégios da classe estou a atacar cada professor em particular. Deixem-me ser claro quanto a isto, correndo o risco de parecer foleiro: não há mais belo, nem mais nobre trabalho do que o de professor. De nenhuma outra profissão tanta gente algum dia disse “graças a ele, a minha vida mudou” ou “nas suas aulas, descobri a minha vocação”. Tive professores extraordinários, tal como os meus filhos tiveram professores extraordinários. Mas, como é óbvio, também existe o outro lado: tive péssimos professores, tal como os meus filhos já tiveram péssimos professores.

Há décadas que se reconhece a importância de tentar distinguir uns dos outros, para que os extraordinários possam ser devidamente premiados, e os péssimos necessariamente penalizados. Há décadas que esse exercício é um fracasso. Continuamos a alimentar este paradoxo: os professores são a corporação mais poderosa do país, embora poucas profissões estejam tão radicalmente dependentes do carisma individual de quem a exerce. Ser professor é estar sozinho, durante infindáveis minutos, à frente de uma plateia heterogénea e resmungona, que necessita de ser diariamente conquistada. Não existe, nem nunca existiu, essa entidade abstracta chamada “os professores” – existem dezenas de milhares de indivíduos a desempenhar uma função singular e complexa, que de forma alguma podem ser confundidos com um grupo profissional homogéneo, como se fossem mineiros, estivadores ou trabalhadores numa linha de montagem.

A grande vitória da Fenprof e dos Mários Nogueiras desta vida foi terem conseguido transformar um grupo de indivíduos heterogéneos num conjunto compacto de funcionários públicos, onde excelência e mediocridade são amalgamadas em nome dos “direitos da classe”. Sendo o papel do mérito mínimo em termos de progressão na carreira, o professor de treta tem boas probabilidades de estar a ganhar o mesmo do professor extraordinário ao fim de 30 anos de ensino. E sabem o que é mais ridículo? É que toda a comunidade escolar – pais, alunos, professores, funcionários – sabe perfeitamente distinguir um do outro. Podiam até apontá-los a dedo. Só que apontar a dedo é feio, e os sindicatos, lamentavelmente, preferem desde sempre a protecção dos professores medíocres à valorização daqueles que ainda hoje marcam a vida dos seus alunos.

João Miguel Tavares, in Público 21/11/2017

14 COMMENTS

  1. Caro amigo, enumere-me quais as profissões ou as forças sindicais que os representam, que praticam o que o meu amigo disse. O meu amigo é jornalista. Diga-me onde está a lista com os maus jornalistas que, por inerência do que disse, não beneficiem das q«conquistas corporativas da classe de que faz parte. Onde está essa triagem, que defende para os professores? Ou não há maus jornalistas a ganharem o mesmo que os bons, não há maus advogados a ganharem o mesmo do que os bons, não há maus médicos a ganharem o mesmo do que os bons…e por aí adiante! Não entendi onde quer chegar! O que disse é tão “LaPaliciano” como o fermento que se usa para o pão crescer…

  2. Claro que é muito bonito mas como é que vão fazer essa distinção? Quem a vai fazer? Os pares, os diretores ou uma entidade independente exterior à escola? Como é que vai funcionar se os pais mandam mais na escola do que os professores? Para quem leciona o professor? Para os pais? Para o diretor ou para os alunos? O que é que querem os pais do professor? O que querem as chefias? O que quer a comunidades? E mais importante o que é que quer o aluno?

    Eu não sou muito boa para seguir as regras do pais, nem para ver crianças que dormem na sala de aula ou não levam o material necessários para a sala porque a escola é parca em recursos e não dispõe de material para facultar ao professor, nem sou muito boa quando me exigem aquilo que eu não posso dar. Nem trabalhar em espaços exíguos com uma secretária minúscula, onde não se pode trabalhar ou sem uma cadeira para me sentar?

    Na sou muito boa quando os superiores hierárquicos não partilham as informações ou se calam quando outros entram na sala ou quando fazem mobbing generalizado para que determinada escola viva dentro de uma bolha.

    Hoje o professor vive com medo porque diariamente é confrontado com abusos perpetuados ao longo de vários anos e que nem sindicatos nem o mais persistente e competente profissional consegue sobreviver.

    Como profissional já fui boa e má depende da empatia que as direções ou pais tem por mim. Já fui elogiada e depreciada mas de uma coisa eu sou consciente sempre respeitei os alunos e os seus interesses, sempre os ajudei, tanto na dimensão curricular como na dimensão pessoal e social.

    Não espero agradecimentos nem graus de Excelência mas espero agradecidamente que me deixem trabalhar, que não me comparem, que não falem de mim para os filhos, que não me impeçam de transmitir os conhecimentos que tenho e que me deixem aprender com os meus erros porque só assim posso lecionar.

    Quando erro e depois acerto aprendo duas vezes uma é como fazer certo e outra é como fazer para não errar.

  3. A grande vitória, a única que lhes tem permitido resistir, a que querem loucamente destruir, é precisamente a capacidade de ainda resistirem de modo coletivo. Quando isso acabar, e o articulista, e muita gente mais, sonha com esse dia… Para tentarem convencer uns quantos fazem a rábula de que amam imensamente os professores , mas gostariam de separar o trigo do joio…
    Esse apelo ao individualismo, o quebrar o vínculo de classe, a diabolização dos sindicatos, é uma estratégia conhecida para , como diria a saudosa Maria Lurdes Rodrigues, partir a espinha aos professores! Ainda não conseguiram: daí a nossa força; daí a sua fúria!

  4. “Não há professores cada professor é um professor”. Que interessante ver um professor dizer isto quando o seu trabalho é avaliar alunos pelo todo e não pela individualidade. É chato não é? Pronto, mas defendam lá os vossos direitos que vocês são adultos, já que nós somos criancinhas que não têm direito de defender o nosso.

  5. Começa bem, piscando o olho aos professores, mas logo começa a tentar levar a água ao seu a moinho: a velha treta dos professores bons e dos maus, ao nível de uma história da carochinha.
    E a mensagem subliminar é: tão únicos, tão lindos que vocês são, não se unam, não se organizem, não lutem em conjunto pelos vossos direitos, não liguem aos sindicalistas-maus…

    https://escolapt.wordpress.com/2017/11/21/excelentissimos-e-pessimos-professores/

  6. Seria muito fácil escolher os melhores! Pensemos como certos países selecionam os seus professores! Os países com melhores sistemas educativos já o fazem há muito tempo! Preparando os melhores após uma seleção rigorosa!

    • Onde são esses países? Cite o exemplo e explique como… Do mito da Finlândia também há muito a falar… Mas usou o plural ”países” supostamente ” com os melhores sistema educativos”… Singapura? A China ? Quais são? Qual é a história?

    • Já trabalhei como professora em alguns países estrangeiros e lá como cá há bons e maus profissionais, agora os pais ficam do lado de fora da escola e só interferem quando é necessário. Só em Portugal é que ouvi pais a pedir-me para não lecionar o programa entre outras anormalidade e para terminar foram fazer queixa ao Diretor.

      O que é que você faria neste caso?

      • Correção “Só em Portugal é que ouvi os pais pedirem-me para não lecionar o programa porque os meninos andavam cansados com outras atividades”…

  7. Li o artigo e… gostei. Foi ao estilo “dar uma no cravo, outra na ferradura”, mas parece-me um bom exemplo de como se pode criticar com peso, conta e medida. Quem não tem poder de encaixe que faça por isso. Custa! Mas chega-se lá.

  8. Eu também gostei, e muito… É a tática ”polícia bom/ polícia mau, neste caso unipessoal… E não é que o suposto arguido confessa tudo com as tapinhas no ombro… O que o articulista não gosta, não gosta mesmo, é da ´´amálgama” … Ele sabe, todos os que estudaram um bocadinho de História sabem, que é na amálgama que está a força…
    Os que concordam também gostariam de extirpar os maus do sistema? Mas esse é o sonho de JMT e de toda uma gama de indíviduos que acham que sabem escolher as maçãs podres no cestinho… Eu, por exemplo, em termos de ”achismo” penso que uma lista de jornalistas, que poderei enumerar, não cumprem o dever de isenção e estão comprados pelos lobbys, dar-lhes-ia , ”portantos” , Insuficiente”, e duzentas horas de formação em ética jornalística…
    Ainda há uma pergunta derradeira, importante… Quem é que marcharia do sistema , se digamos assim, uma linha José Manuel Fernandes, ou qualquer desses notáveis articulistas em pedagogia, tomasse conta das escolas? Os incompetentes? Os que estavam contra quem manda? Os apoiantes de Mário Nogueira? Os adeptos do sindicalismo, em geral… Eu acho que sei a resposta que dariam esses grandes democratas que tanto anseiam por salvar a Educação Pública…

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