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João (2)

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adoção gayAo almoço de Domingo, a ampla cozinha do centro de acolhimento fervilha de mãos ajudantes. Na mesa, vão-se alinhando os pratos e copos de plástico colorido, como manjericos enfileirados na banca do arraial. Depois chegam os jarros de sumo e os cestos do pão, o último volteio da colher no tacho do arroz. Na televisão, uma senhora de voz nasalada diz coisas acerca da adopção por casais gay, numa dissertação morna, alternada com segmentos de reportagem na via pública, onde os cidadãos são chamados a dar a sua opinião.

Os garotos já estão todos sentados à mesa e a dona Alice percebe a atenção velada dos mais crescidos ao tema em apreço. Há cotoveladas e risotas cada vez que a palavra ‘gay’ é proferida, as miúdas mais velhas cochicham graçolas, os mais pequenos, alheados, depenicam no pão.

“Ó João”, diz a mais velha das adolescentes, “é desta que vais ser adoptado!”

O João olha para aquela irmã de armas temporária que a vida lhe pôs ao caminho com uma expressão que tenta emoldurar de normalidade, para que ninguém lhe perceba o coração na boca. “Achas?”- pergunta-lhe no tom tranquilo que tem treinado para qualquer eventualidade.

“O João vai ser adoptado?”, pergunta uma pequenita de franja demasiado curta e desnivelada, resultado evidente de um corte artístico de sua autoria, olhando-o com enternecimento.

“Pode ser que sim”, torna a rapariga, “e pode vir a ter dois pais ou duas mães”, conclui, como quem tira um coelho da cartola. A pequenita não apreendeu, contudo, o dramatismo intencional da tirada e ponderou, com sincera ingenuidade: “duas mães? …eu já tive uma, mas agora já não tenho porque ela foi para o céu… mas tenho duas primas.” E depois de mais uns instantes de reflexão, concluiu, na sua vozinha cristalina de uma mão mal cheia de anos: “eu cá não me importava nada de ter duas mamãs. Tu importavas-te, João?”

O João acaricia-lhe distraidamente o cabelo, os pensamentos a mil à hora, o corpo a tentar digerir um mundo de possibilidades ali entalado na garganta. “Isto é verdade, dona Alice?”, pergunta meio sem jeito, envergonhado por mostrar interesse no assunto. “Os gays vão poder adoptar crianças?»

A dona Alice olhou a plateia imprevisível à sua frente, respirou fundo e assentiu: “sim, é verdade.”

“E eles vão querer ficar com as crianças que os outros casais não querem?”, continuou o João, arriscando a despojar-se do seu habitual desprendimento por um assunto tão caro para si. “E os gays vão poder escolher as suas crianças, como os outros casais, ou vão ter que aceitar aquela que o juiz lhes der?”

“Ó João, não se pode pôr as coisas nesses termos, filho”, corrigiu a dona Alice, “não se trata de um sorteio nem de uma obrigação, é claro que os casais gay também vão poder escolher a criança que querem”.

O João respirou fundo, totalmente despido da película protectora de descaso com que se embrulhava mal abria os olhos todas as manhãs, arrebatado perante a ideia de que alguém pudesse escolhê-lo como filho – precisamente a ele, e declarou, indiferente aos olhares jocosos das miúdas mais crescidas: “pois então, se algum casal gay ME escolher, eu também vou de certeza querê-los a eles!”

MC

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