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Já Chateia Esta Ideia Que Na Escola Só Existem Aulas Expositivas

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Todos conhecem a frase “Temos escolas do Século XIX com professores do Século XX para alunos do Século XXI”.

Tretas!

Julgo que é profundamente injusta esta ideia que o ensino atual remete-se a uma visão simplista de aulas expositivas, onde o aluno é um ser acéfalo e o professor um aplicador de uma ideologia radical de memorização à força. Baseando-me na minha experiência de quase duas décadas de ensino, verifico que a escola evoluiu bastante, indo ao encontro das dificuldades/motivações dos seus alunos, ajustando estratégias e metodologias de ensino. A própria legislação atual fomenta um ensino muito mais apelativo aos olhos dos alunos. Se é verdade que existem escolas com condições bastante precárias, também é verdade que muitas delas deram um salto significativo após as polémicas obras da parque escolar.

Esta moda de dizer que a escola está ainda na fase do “quadro negro”, já cansa, é injusta e não reflete a realidade do ensino nacional.

Sim, persistem professores que defendem um ensino tradicional, mas também existem alunos que preferem esse mesmo tipo de ensino como constatámos num passado recente.

O que é pedagogicamente correto, é o que é pedagogicamente eficaz, traduzindo-se numa aprendizagem efetiva do aluno. Seja através da retórica cativante de um professor, seja através de uma aula no exterior com telemóveis à mistura.

Não há receitas na educação e a maioria dos professores sabe o que está a fazer. Está na altura de confiar um pouco mais no seu trabalho.

Partilho um artigo do qual discordo, não pela sua essência, mas por estar desfasado da realidade.


O quadro negro da escola

A escola enquanto instituição tem vindo a demonstrar pouca facilidade de adaptação à complexidade de sociedades em constante evolução — e muita resistência em acompanhar a evolução tecnológica. O paradigma escolar que a maioria de nós terá na memória é o do estudante sentado numa carteira a olhar para um quadro negro, enquanto alguém profere um conjunto de saberes que devem ser assimilados para depois serem reproduzidos. Na melhor das opções, a projecção no quadro negro é através de powerpoint e não com giz.

Esta relação de obediência, que assenta em duas posições de poder distintas, assume à partida que o detentor do saber é a figura do professor e que o grupo de estudantes dentro da sala de aula deve aprender algo pensado para mais tarde ser motivo de escrutínio. E, por muita vontade que tenhamos em alcançar um paradigma de ensino e aprendizagem diferente, a verdade é que na prática tendemos a contradizer-nos. E porquê? Porque é mais fácil ignorar que a aprendizagem se faz acima de tudo através da motivação do outro para aprender, ou seja, a aprendizagem pode acontecer por memorização, mas nunca será devidamente apropriada nem será mantida a médio/longo prazo e, portanto, não servirá para coisa alguma nem será conhecimento. Além disso, a maioria de nós não tem uma capacidade de memorização que permita decorar tanta coisa para, por exemplo, ser capaz de realizar dois exames distintos no mesmo dia. E se a maioria de vós disser o contrário também não me sinto mal sozinho.

É aborrecido ouvir alguém durante 1h30, quem tem paciência? Agora imaginem as crianças que acabaram de sair do pré-escolar e são obrigadas a estar sentadas e sossegadas durante duas horas a ouvir um adulto a dizer coisas que só são interessantes para ele ou ela; ou então adolescentes que vivem o maior drama das suas vidas porque perderam o primeiro grande amor, ou têm que actualizar as redes sociais, ou logo à noite vão ao seu primeiro concerto, e têm que estar dentro de uma sala a ouvir alguém a falar de seno, cosseno e tangente. Ainda por cima são gerações que não se encontram separadas da tecnologia, a tecnologia é praticamente uma extensão das suas existências. E, perante tantos estímulos electrónicos, como é que se mantém a concentração a preto e branco, ou mesmo a cores, num quadro negro?

Todos aprendemos se formos motivados para aprender, se nos for despertada a curiosidade, se encontrarmos utilidade nos conhecimentos que nos estão a ser disponibilizados. É certamente muito mais interessante aprender História e Geografia através do teatro; é provavelmente mais fácil e interessante aprender Matemática no recreio com desenhos e objectos; é definitivamente mais interessante aprender a estruturar a escrita através da construção de histórias ilustradas feitas em grupo. Contudo, a criatividade e imaginação que cada um de nós pode ter esbarra com um sistema fortemente estruturado em conteúdos predefinidos, um sistema que seleccionou e produziu os melhores memorizadores para assumirem a responsabilidade da reprodução, e coloca nos lugares de decisão aqueles que melhor provaram serem defensores do sistema.

4 COMMENTS

  1. Frase badalada tantas coisas vezes que se torna verdadeira, Alexandre.
    Aulas expositivas!!!!
    Como se fosse possível hoje em dia.
    Agora, há algo que acontece. Um professor que é bom comunicador e que sabe do que fala e relaciona conteúdos pode dar se ao luxo de umas aulas “expositivas” de quando em vez.

  2. A ignorância arvorada em sapiência dá em disparates destes, que parecem ter alguns adeptos. Há dias os comentários eram sobre as salas de pré-escolar serem demasiado século XIX, sem sequer repararem no paradoxo. A credibilidade tornou-se um luxo.

  3. E que razões há para tanto incómodo? Respondam apenas que o conceito de democracia é mais velho que Cristo e é nele (no conceito) que se baseia toda a política com que pintam o ensino!!! Ganharíamos mais se nos incomodássemos menos com certo tipo de comentários? Creio que sim!

  4. Sim. Há escolas (pelo menos uma há) em que todas as aulas são expositivas, mesmo as de laboratório no 3.º Ciclo. É a única forma (chamadas medidas universais) que os docentes empregam para manter a disciplina dos alunos, pois é mais fácil e não dá… chatices! E esta, heim?!

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