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Inundados Em Burocracia

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Carta Aberta aos Professores deste país

Caros colegas,

Ser Professor, o que é afinal?

É dar aulas! Tudo o resto está para além disto.

Olho para o meu dia e dar aulas é o que menos faço.

Vivemos inundados de relatórios, planos e mais planos, documentos, autorizações, comunicações, informações, memorandos, procedimentos, mails e mais mails e ainda mais mails. A caixa de correio já não tem espaço para tanta correspondência diária. Cada um de nós teria de ter pelo menos um secretário só para abrir os mails, ler, digerir, baixar e interpretar. Onde ficam as aulas? Onde fica o tempo para a sua preparação? Para o verdadeiro trabalho do Professor – dar aulas?!

Deixem-me que fale do meu dia de hoje:

9:00 horas, dois mails. Um trazia 10 anexos (um repetido) e o outro 8 e não, não eram fotografias, mas só de siglas dei por estas: PEI / UFC / RTP / CEB / PIT/ EMAI / ELT / ACES / ULS / CPCJ / CRI / JNE / PL2 / SPO / EO / PIT / DT / DEE / PHDA / ME / CAA / CT / EE / PAA / DAC / EECE / CP / PES / EFA / AERBP / PASEO / PE / CAF / CD / ACCRO / AIRO / ESAD …Mas onde queremos chegar?

Os anexos do primeiro:

1) PEI – 5 páginas, 1497 palavras – para preencher pelo Professor do Ensino Especial? Não. Pelos Professores do Conselho de Turma e Director de Turma;

2) IDNMSAI (agora sou eu que dou a sigla…) – 7 páginas, 1483 palavras – para preencher pelo Professor do Ensino Especial? Não. Pelos Professores do Conselho de Turma e Director de Turma;

3) RTP – 11 páginas, 2136 palavras – para preencher pelo Professor do Ensino Especial? Não. Pelos Professores do Conselho de Turma e Director de Turma;

4) DL 54/2018 – outra vez! Já chega! – 11 páginas;

5) EMAI – 10 páginas;

6) Procedimentos para identificação … – instruções para preenchimento de formulário pelos mesmos responsáveis…1 página;

7) Lei 116/2019, análise, 4 páginas;

8) Lei 116/2019, 24 páginas;

9) Manual de Apoio à prática da Educação Inclusiva – 117 páginas – não consegui arriscar a leitura, só fui até à segunda página e logo encontrei novas siglas, ANQEP e INR. Li o nome de quem assinava o prefácio e …estava tudo claro, João Costa, o Linguista!

O outro mail:

1) Resumo da reunião de Directores de Turma – 32 slides;

2) Sugestão de Ata – 3 páginas, 803 palavras; (DT)

3) Sugestão de Ata – 3 páginas, 854 palavras; (DT)

4) Propostas de Apoio – 1 página, 45 palavras (Que bom…); (DT)

5) Levantamento de processos – 1 página, 31 palavras (Impossível!…); (DT)

6) Declaração de desistência de apoio – 1 página, 77 palavras;

7) Estratégia de Educação para a Cidadania – 8 páginas;

8) Plano Anual de Atividades, informação – 3 páginas

EU SÓ QUERO SER PROFESSORA, não burocrata, não técnica do Ensino Especial!

Quantas horas são necessárias para ler tão grande número de documentos? Tudo isto só nos dois primeiros mails da manhã!

Tenho alunos – alguns Professores quase duzentos, ou mais- à espera de serem ensinados pelos Professores das disciplinas dos seus currículos. É isso que fiz ao longo de ¾ dos anos da minha carreira, já longa de 39 anos. Nos últimos anos é isto, agora cada dia mais agravado.

Depois vem esta história da Cidadania? Claro, sempre, em todas as aulas, em toda a vida escolar e pessoal –é transversal. Ensina-se e aprende-se em cada momento. Não se aplica em doses específicas, durante uma hora. É parte do ser social! Mais uma disciplina, Mas nós não ensinamos Cidadania em todas as aulas? Não o fizemos sempre? Para quê mais uma carga no horário dos pobres alunos?

Ser diagnosticador de dificuldades de aprendizagem dos alunos, dos porquês das dificuldades, prescritor de medidas de superação dessas dificuldades de alunos com problemas cognitivos, comportamentais, físicos, etc., etc., é papel dos Técnicos da Educação Especial, não dos Professores curriculares.

Não tenho formação para isso, nem estou colocada no grupo de Educação Especial. Há Docentes próprios para isso nas escolas, com Professores que optaram, na maior parte dos casos, por mudar de um grupo de docência, para fazer uma carreira no Ensino Especial. Eu não! EU SÓ QUERO SER PROFESSORA! Não quero esgotar o meu tempo – que, quer queiram, quer não, é de 35 horas de trabalho semanal – a ser burocrata, preenchedora de formulários, adivinhadora de problemas psicológicos, de dificuldades cognitivas e de outras problemáticas que tal, sem que sequer haja balanços sérios de toda esta teia de papelada. Quais são os resultados efectivos de tudo isto? Quais são os ganhos de tão grande dispêndio de tempo e dinheiro? Sejamos sérios!

Estou farta de que, pelo politicamente correcto, as maiorias se estejam a vergar a todos os caprichos das minorias. EU SÓ QUERO SER PROFESSORA!

Alexandra Pedroso Sampaio, Professora do Grupo 330»

Alexandra Pedroso Sampaio

20-10-2019

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4 COMENTÁRIOS

  1. É verdade colega: estamos fartos, fartos, fartos, fartos!!! E esta pouca vergonha do 54 e do 55 ainda infernizaram mais a vida dos professores!!! Já ninguém aguenta!!! Alguém ponha mão neste desvario ou vai tudo dar dar em doido! Esta legislação além de ser uma farsa tornou os professores nuns mangas de alpaca… É uma fantochada que diminui a qualidade do ensino… A indisciplina grassa pela desresponsabilização completa de muitos alunos e alguns encarregados de educação… O Ensino Público vai a pique!!!

  2. Bem dito!
    Os professores têm que justificar o vazio da educação.
    Quem tem medo de ensinar ou que se ensine? Começa a soar a patologia degenerativa (quando se pensa que se está no limite, descobrimos o nosso excessivo otimismo).
    A vida de um professor é uma atualização permanente do “Processo” de Kafka!

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