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Intervalos 6 x Matrículas 0 – Paulo Prudêncio

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Como o ministro da Educação integra os fóruns que decidem o futebol e as aulas em Setembro, é natural que confunda intervalos dos jogos com os escolares e até o tempo de presença dos jogadores nos balneários com o dos alunos nas salas de aula. Se impressiona que o ministro diga que “os alunos vão caber todos na mesma sala; não haverá desdobramento de turmas; a única obrigatoriedade é a máscara a partir do 2º ciclo; o distanciamento não”, e mais ainda no momento em que a OMS conclui que “em espaços fechados, os aerossóis do vírus podem viajar dezenas de metros” torna-se mais surreal que decida pela eliminação dos intervalos escolares. Francamente: 30 crianças e jovens podem estar horas a fio dentro de uma sala e não podem usar o espaço de ar livre? E se há anos que os mais variados especialistas criticam severamente, e muito bem, a falta de tempo para brincar e socializar, vem o titular da pasta eliminar intervalos depois de meses de confinamento? E enunciá-lo para a globalidade do território não é um atestado de menoridade (mas convenhamos que o modelo vigente foi criado exactamente para certificar esse atestado) quando passa o tempo a repetir que “as nossas comunidades educativas responderão a esse problema de forma adequada”?

O estado em que estamos é cansativo, mas há o dever de repetição. Escrevi o seguinte em 21 de Abril de 2020 no texto “Tecnologias na sala de aula“:

“A crise escolar provocada pela Covid-19 acentuou a conhecida prevalência das redes de recursos educativos sobre as de gestão e administração. (…)Portugal é um caso, e em grande parte acompanhado pelo ocidente, que evidencia o que falta fazer em termos escolares e é até estranho que assim seja porque é um país com muito boas provas dadas onde a sociedade em rede permite desempenhos organizacionais únicos: rede multibanco, via verde ou critical software. Por exemplo, na origem das declarações do ministro da educação – “é impossível saber quais os alunos que não têm internet e computador” – estão mais de vinte anos em que essas perguntas são repetidamente feitas no acto da matrícula e perdidas na incapacidade de se gerar um sistema de dados que se aproxime sequer dos três citados. E essa “impossibilidade”, que gera desorganização, tem duas causas: governantes escolares centrados nas indústrias de recursos educativos e deslocalização da produção tecnológica para a China com o objectivo neoliberal de exibir o supérfluo, inibir o substancial e gerar ganhos financeiros muito significativos e pouco taxados. E esse desequilíbrio nas aprendizagens essenciais, que se tornou avassalador no ocidente, é a conclusão de que para a produção de lápis em qualidade e quantidade é necessária a simbiose da forma com o conteúdo associada ao valor precioso de muito bons desempenhos organizacionais.”

Hoje, acrescento mais uma evidência ao triste desfile de competências e prioridades: Intervalos 6 x Matrículas 0.

Fonte: Correntes

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